Victor Hugo Pontes: "Interessa-me dialogar com o público mais novo para que crie o hábito de vir ao teatro”
Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem acaba por ser a primeira peça encenada por si enquanto diretor artístico do São João. Como é que tem sido essa experiência de dirigir um teatro nacional?
Tem sido muito distinto daquilo que eu estava habituado a desempenhar, porque durante muitos anos dirigi uma estrutura de produção, mas não de programação. Esta vertente da programação é algo que me é novo e conseguir lidar com isso tudo tem sido bastante intenso, mas ao mesmo tempo tem sido muito desafiante poder imaginar projetos, tanto para mim como para outras pessoas. Pensar no que para mim faz sentido no teatro tem sido um excelente desafio, bastante exigente, sem dúvida, isto porque também sinto o peso da responsabilidade que este cargo significa. Mas tenho sido feliz aqui, tem sido bom.
A temporada 2026-2027 já reflete algumas das suas ideias em termos de programação?
Sim, mas mais a partir de janeiro, porque até final de 2026 ela já estava fechada. A programação é feita sempre anualmente e responde a um orçamento, que é o Orçamento do Estado, que nos atribui uma verba. Quando entrei [em setembro de 2025], a programação para 2026 já estava completamente fechada. Neste último trimestre ainda consegui incluir algumas coisas, muito poucas, cirúrgicas, a partir de janeiro mexi bastante, já há uma visão muito pessoal, sendo que ainda há projetos que vêm desde o Nuno Cardoso, portanto, não é completamente nova.
Quais foram as suas escolhas nessa programação para 2026-2027?
Têm a ver essencialmente com as criações próprias. O Teatro Nacional é um teatro de criação e no próximo ano vamos fazer seis criações próprias, com escalas muito distintas. Este ano ainda temos duas produções, uma mais pequena, que abre a temporada [9 a 13 de setembro], de Jacinto Lucas Pires, que é Maiúscula, com encenação de Marcos Barbosa. É um monólogo interpretado pela fantástica Luísa Cruz. Depois, ainda este ano, teremos o Auto da Barca do Inferno [12 de novembro a 13 de dezembro] dirigido pela artista plástica e encenadora Marta Pazos, que é espanhola, é um nome muito forte na cena contemporânea espanhola, é alguém que eu admirava. Posso dizer que não fui eu que convidei a Marta, mas ela estava nos nomes da minha carta de intenções, portanto, as coisas encaixaram relativamente bem. Há uma criação própria dirigida para a infância e juventude que será dirigida por dois jovens do Porto, a Inês Sincero e o Tomás Nunes Pinto, que vão fazer um espetáculo chamado A Semana dos Porquês; há um espetáculo do Rui Paixão, Visitações, que é um projeto que nós fazemos com os grupos de teatro das escolas secundárias da região do Porto, mas não só. Este ano vamos tentar que seja mais abrangente em relação às escolas que podem participar. Haverá uma criação minha, o Despertar da Primavera, do Frank Wedekind e um convite que fiz ao encenador e realizador Tiago Guedes, que vai dirigir uma peça da Alice Birch, uma dramaturga inglesa, que se chama Anatomia de um Suicídio. Estas são as cinco produções próprias em que se estrutura depois todo resto da programação, as coproduções e os acolhimentos.
Já foram decisões suas?
Sim sim. Mas existe sem dúvida um investimento muitíssimo grande no centro educativo, portanto, na programação para a infância e juventude. Isso, sem dúvida, é uma das marcas que eu pretendo deixar, ou que quero fazer aqui no teatro, porque acho que temos de perspetivar e construir os próximo públicos, não só públicos, mas artistas, atores, as pessoas que ocupam o lugar da infância nos dias de hoje precisam de começar a ter referências para depois no futuro poderem também seguir o seu próprio percurso e ocuparem os lugares que nós estamos a ocupar agora.
E já está a trabalhar na temporada 2027-2028?
Para 2027 e 2028 ainda continuo a reunir-me com muitos artistas, isso tem sido uma das grandes tarefas que esta função me exige e que é um prazer, porque fico a conhecer muito da vontade do que é que os artistas pretendem fazer nos próximos anos, mas ainda não tomei decisões, estou numa fase de auscultação, de tentar perceber que projetos é que eu acho interessantes para podermos colaborar e apoiar. Mas acabei de fechar a programação de 2026-2027 e ainda não meti as mãos completamente na de 2027e 2028, tenho até o final do ano. Há vários projetos em cima da mesa, mas ainda não tomei decisões quanto a escolhas.
Quais serão as suas prioridades?
Eu gostava que fosse uma programação bastante diversa, que seja um equilíbrio entre o repertório e a criação contemporânea, que consiga de alguma forma acolher artistas consagrados e criadores emergentes, acho que é muito importante. Na programação deste ano nós temos vários artistas que pela primeira vez vão apresentar o seu trabalho no Teatro Nacional São João, isso para mim era mesmo muito importante dar essa oportunidade a outros artistas de serem apresentados nestes palcos. E tentar que isso também crie uma diversidade de públicos e de linguagens para podermos comunicar com outro tipo de públicos, desde espetáculos mais híbridos, mais cruzamentos transdisciplinares, mas mantendo também o repertório, que é uma marca muito forte desta casa.
Em relação a Despertar da Primavera, a peça que estreia em março do próximo ano e que vai encenar, o que o atraiu no texto Frank Wedekind?
Primeiro, porque trata de um tema que me é bastante querido, que é a adolescência, um momento completamente determinante na vida de qualquer pessoa. É um momento em que começamos a perceber quem somos quem queremos ser, como nos relacionamos com os outros e com o nosso próprio corpo, porque o Despertar da Primavera na peça representa o tempo do despertar do corpo, do desejo, da curiosidade, da identidade e também há esta ideia da consciência da morte. Depois, quando olhamos para as questões que atravessam hoje em dia o debate público, elas estão muito presentes na peça, a IVG, o consentimento, a educação sexual, a identidade, a saúde mental dos jovens. São temas que continuam a estar muito próximos de nós na atualidade. Claro que quando o Frank Wedekin escreveu a peça não se vivia nos dias que vivemos hoje e a informação era muito mais restrita, mas esta peça também fala muito desse confronto entre os mais novos e os mais velhos e esta ideia de que os adultos se recusam a escutar os jovens, e o silêncio por muitas vezes ocupa o lugar da palavra e o medo substitui o diálogo. A mim interessa-me muito explorar estas tensões, mesmo entre os mais novos e os mais velhos.
O elenco já está escolhido?
Estou a fazer audições, interessa-me que seja um elenco jovem, para que exista uma identificação do público mais novo que vem ver o espetáculo com aquilo que se passa em cena, que se possam reconhecer em cena. Este espetáculo, acima de tudo, não é para dar respostas aos jovens, por muito que eles as tentem encontrar. Na peça eles não as encontram mas, de certa forma, pô-la em cena é pelo menos tentar escutá-los e criar um espaço para que eles também nos façam perguntas. Interessa-me dialogar com este público mais novo para que ele possa criar o hábito de vir ao teatro e se reconheça naquilo que vê em cena e não venha só ao teatro para ver uma peça que dão na escola ou que faz parte do currículo que têm que estudar. Eu gostava de construir novos hábitos e que, nesta peça, sendo dirigida a todo o tipo de público, houvesse essa identificação.
O Mosteiro de São Bento da Vitória, espaço que também pertence ao São João, vai reabrir em outubro?
No último ano o Mosteiro teve obras de requalificação no âmbito do PRR e vai abrir agora, no dia 1 de outubro. Vamos ocupar o Mosteiro e gostávamos de começar a dar-lhe alguma identidade. A Orquestra XXI vai ser uma estrutura residente do Mosteiro de São Bento da Vitória, portanto, ele estará bastante mais ligado à música, à dança e à performance e não tanto ao teatro neste primeiro momento. O programa de reabertura vai incluir o ciclo Musicalmente, que nós já apresentávamos no teatro e que tem curadoria do Filipe Pinto Ribeiro. Terá também um concerto da Orquestra XXI e um ciclo de performances que se chama My Center is Not in the Solar System. É um programa internacional com a direção artística de Celina Brás e curadoria de Alexandra Balona e vai reunir artistas da Palestina e do Líbano, desde a Shahd Wadi, Noor Abed, Haig Aivazian e Ali Cherri.

