Pedro Penim, fundador do coletivo Teatro Praga, sucedeu a Tiago Rodrigues como diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II em novembro de 2021, quando este foi dirigir o prestigiado Festival d’Avignon, em França. No final de 2023 foi anunciada a sua continuidade no cargo, na sequência de um concurso público. O mandato começou a 1 de janeiro de 2024 e termina a 31 de dezembro de 2027. Pedro Penim dirige o TNDM II numa altura em que está de portas fechadas (desde janeiro de 2023) para obras de requalificação financiadas pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Uma situação que, diz em entrevista ao DN, tem sido desafiante, mas que abriu outras possibilidades.O Teatro Nacional reabrirá no verão, permitindo ao público ver a sala renovada, mas a temporada 2026-2027 arranca apenas a 18 de setembro. O diretor artístico quer equilibrar propostas para grandes públicos com outras mais experimentais e deixar as peças em cena mais tempo, “para que possam entrar na memória coletiva”. Nesta altura encena a comédia de Luís de Camões Filodemo, que estará em cena na sala estúdio Valentim de Barros, em Lisboa, a partir de 27 de março, Dia Mundial do Teatro. A peça Filodemo tem um prólogo da sua autoria. Sentiu necessidade de justificar esta escolha?Senti necessidade, não necessariamente de justificar, mas de acrescentar uma voz autoral, porque considero também que há alguma expectativa em relação ao meu trabalho e às coisas que eu faço, que normalmente não vão neste sentido de peças clássicas. Então achei que seria de considerar que essa voz autoral pudesse introduzir aquilo que são as intenções da peça e criar um mote que depois possa de alguma forma influenciar a leitura do espectador. Por isso, esse prólogo, que na verdade são conversas que foram surgindo muitas vezes durante os ensaios, condensa um bocadinho o que é o mote para o espetáculo. Não necessariamente para a peça do Camões, porque depois ela é respeitada de fio a pavio, do princípio ao fim, mas esse mote é também o gesto criativo que permite leitura sobre aquilo que se passa a seguir.Esta escolha teve também a ver com a celebração dos 500 anos dos Camões?Sim, acho que nós começámos por fazer, primeiro, uma versão do Auto dos Anfitriões para o nosso programa Próxima Cena, que é apresentado em municípios de baixa densidade populacional. Neste caso, a Inês Vaz e o Pedro Batista reescreveram a peça do Camões, fizemos uma leitura desta peça Filodemo em conjunto com a Santa Casa da Misericórdia, apresentámos a versão dos Lusíadas do António Fonseca no Mosteiro dos Jerónimos. E agora fechamos com esta produção do Filodemo, porque estas comemorações vão até junho, e vamos estar a apresentar o espetáculo também até junho..‘Filodemo’, uma comédia de Camões para celebrar o Dia Mundial do Teatro . Inicialmente previa-se a reabertura do Teatro D. Maria II agora em março. Esta peça era para estrear no teatro renovado?Não, esta peça foi também uma necessidade de refazer a programação à luz desse atraso das obras. De facto, a programação estava prevista para começar em março, e neste caso adiámos essa programação para setembro, que é a data em que começa a temporada 2026-2027, e foi necessário reprogramar, mas enfim, isso tem sido o meu trabalho desde que aqui cheguei, de programar e reprogramar à luz destas indefinições que a obra vai criando, que não são necessariamente da responsabilidade nem da direção artística, nem das equipas do Teatro Nacional D. Maria II, mas temos de nos adaptar. Eu sinto-me até bastante afortunado de ter essa possibilidade de olhar para o D. Maria, nesta posição de diretor artístico, com um formato que não é o mais expectável, e que me permite experimentar mais coisas. .A programação estava prevista para começar em março, e neste caso adiámos essa programação para setembro, que é a data em que começa a temporada 2026-2027.Pedro Penim. Não ter o teatro aberto afetou de alguma forma o seu projeto artístico?Não, eu quando fui nomeado pela primeira vez já sabia que o teatro iria fechar, portanto já aceitei sabendo que iriam ser essas as circunstâncias. Na verdade, o que se abriu a partir daí foi esse rol de possibilidades, como é que o Teatro Nacional D. Maria II pode continuar a ter a sua atividade, a sua relevância e a sua pertinência, mas fora do edifício, que obviamente está interditado.Quais foram os maiores desafios destes anos?Os maiores desafios foram tentar que a presença em Lisboa continuasse a fazer-se sentir, porque nós andámos em mais de 100 municípios. Na verdade, é uma história que eu quando conto a colegas meus fora de Portugal ficam espantados como é que um teatro nacional se consegue desmultiplicar e estar próximo de muitas populações – na verdade, fomos a muitos sítios onde ou nunca tínhamos ido, ou então já não íamos há muito tempo –, e continuar a programar espetáculos e a fazê-los circular. E fazer uma proposta de programação que vai muito para além da mera apresentação de espetáculos, porque temos workshops, exposições, trabalho com escolas, enfim, é uma programação muito eclética e muito completa. As equipas não estavam preparadas, eu próprio não estava preparado, houve todo um processo de adaptação a essa realidade, para mim foi difícil, claro, não há como negar, porque é uma estrutura que está feita e pensada para estar no Rossio. Ainda que já houvesse digressão, há todo um processo de aprendizagem de como é que se faz, como é que se gere um teatro nacional sem a casa-mãe, sem essa referência, que é muito importante para toda a gente.Tiveram que procurar outras salas, falando aqui de Lisboa...Salas e muitas parcerias. Em Lisboa mais tarde, porque nós começámos por sair de Lisboa, não estivemos cá durante um ano, e só depois, em 2024, é que começámos a aproximar-nos da capital, com o Abril Abril, que era um ciclo dedicado aos 50 anos do 25 de Abril, e depois a abertura da sala estúdio Valentim de Barros, que foi um momento também muito importante nesta minha passagem pela direção artística, porque abrimos uma sala nova em Lisboa. E depois também no Teatro Variedades, onde também apresentámos alguns espetáculos. E, sim disseminar, no fundo, este nome Teatro Nacional D. Maria II por vários espaços, muitas vezes também espaço público, que era uma coisa que me interessava e que me continua a interessar, de como é que o teatro pode desmultiplicar e desfragmentar essa ideia do edifício, de um edifício distante, de um edifício excludente, e como é que ele pode passar a ser mais democrático também, de alguma forma. .Para mim foi difícil [o fecho do TNDM II para obras], claro, não há como negar, porque é uma estrutura que está feita e pensada para estar no Rossio.Pedro Penim. O D. Maria quando reabrir será um teatro diferente na sequência deste processo?Necessariamente. Nem o D. Maria pode voltar a ser o que era, e temos também essa convicção de que o que andámos a semear nesta nossa viagem por todo o país e por outras partes do mundo também, possa ser uma lição que se possa tirar, e que possa alimentar aquilo que será a programação já com o teatro no Rossio reaberto. Portanto, tudo aquilo que está a ser pensado, está a ser influenciado por essa passagem, porque acredito que transformou-nos para melhor e tornou o D. Maria num sítio ainda mais próximo das pessoas, mais aberto, mais disponível, menos elitista e menos excludente. Antes do arranque da temporada o teatro reabrirá com um "prólogo", no verão. O que está previsto?É uma espécie de soft opening, onde o edifício já estará pronto e será partilhado com as pessoas, porque há muita curiosidade também de perceber o que aconteceu lá dentro durante três anos. As pessoas querem ter acesso ao que é de facto o resultado da obra que foi ali feita, e com algumas atividades que possam ajudar-nos também a testar o novo edifício, porque nós estivemos muito tempo fora, já não conhecemos tão bem a envolvente, porque Lisboa é uma cidade muito dinâmica e vai-se alterando muito e acho que é preciso voltarmos a esse contacto com os moradores, com quem está à nossa volta, quem nos quer visitar. Permite-nos testar vários momentos e vários espaços para que depois o funcionamento em setembro arranque em pleno, com programação já nas várias salas.Quais serão as linhas mestras da programação que arranca a 18 de setembro? Eu posso dizer que há uma grande necessidade e uma grande vontade de equilibrar propostas para grandes públicos, que possam estar mais tempo em cena do que aquilo que é comum, porque acho que essa é também uma nossa obrigação, de oferecer temporadas maiores para os espetáculos, para que os espetáculos possam entrar na memória coletiva, para que possam fazer história. E, ao mesmo tempo, continuarmos a ser reduto para propostas mais experimentais. Nós temos várias salas que se prestam também a essa divisão e a essa multiplicidade de propostas. E continuarmos os programas que tínhamos com tudo aquilo que é acessibilidade e esta pluralidade de programação, trabalhando para várias camadas etárias, trabalhando com escolas, trabalhando também sobre o pensamento, com outras formas de arte e tentando trazê-las para o teatro, que possa ser uma proposta multidisciplinar. E que possa dar conta também daquilo que para mim, enquanto missão pública, é bastante concreta, que é que o teatro nacional deverá ser um espelho daquilo que é a criação nacional e que por isso deverá ser bastante generalista.O que é que ainda gostava de fazer até ao final do mandato?Eu gostava agora, finalmente, de poder pôr em prática aquilo que foi toda esta aprendizagem e estes ensinamentos que este tempo nos deu e, na verdade, tenho essa felicidade - se me deixarem continuar -, de poder reabrir o teatro em setembro e de poder ter esta realidade múltipla do que o Teatro Nacional D. Maria é, pode ser, deve ser, e de encontrarmos, com todos os trabalhadores, mas também com muitos pares, possíveis caminhos que o teatro poderá seguir no futuro, com outras direções artísticas. .Há uma grande necessidade e uma grande vontade de equilibrar propostas para grandes públicos, que possam estar mais tempo em cena do que aquilo que é comum.Pedro Penim. A programação de um teatro nacional traz outras responsabilidades?Tem outras possibilidades, tem outro alcance e, neste caso, estamos pouco interessados numa lógica mais tradicionalista de entender o teatro, ainda que saibamos que faz parte da nossa missão também fazer repertório, fazer repertório mais clássico, fazer contemporâneos...Nesse sentido que lhe disse, que é um teatro que deve ser generalista e que deve ser espelho da atividade. Um espelho da atividade não pode ser só uma ideia, tem que ser muitas ideias e ser apresentado dessa maneira mais plural, e é isso que tenho tentado fazer. Não digo que esteja a ser totalmente bem-sucedido, mas não cabe a mim dizê-lo, estou a fazer exatamente aquilo que quero, em que acredito e que consigo passar às equipas como possibilidade para este teatro nacional. Mas também sei que não será consensual. É um caminho que se está a fazer com muita convicção, é o caminho que estamos a trilhar e que está a correr bem. .Diogo Infante: "Não sinto uma presença forte do D.Maria II no meio teatral. Há projetos mais interessantes"