Um produtor do Chá de Mengshan espalha folhas recém-colhidas para secar, seguindo métodos tradicionais. A técnica tradicional de produção do Chá de Mengshan está inscrita na lista nacional do Património Cultural Imaterial da China.
Um produtor do Chá de Mengshan espalha folhas recém-colhidas para secar, seguindo métodos tradicionais. A técnica tradicional de produção do Chá de Mengshan está inscrita na lista nacional do Património Cultural Imaterial da China.D.R. / Macao Daily News

Viagem pela cultura do chá em Sichuan

Ao chegar a Sichuan, terra fértil abraçada por montanhas, não é apenas a imponência das paisagens naturais que deslumbra, mas também a tradição milenar do chá. Reconhecida como um dos berços da cultura do chá na China, Sichuan possui mais de três mil anos de história no cultivo e consumo de chá, sendo também o ponto de partida da 'Antiga Rota dos Cavalos e do Chá'.
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Em 2022, as técnicas tradicionais de processamento do Chá de Mengshan e do Chá da Rota do Sul foram inscritas na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, evidenciando a importância histórica e cultural do chá de Sichuan.

Montanha Mengding: um chá de excelência entre nuvens e neblinas

Situada na orla oeste da Bacia de Sichuan, a Montanha Mengding é conhecida como a zona de ouro da produção de chá na região. Envolta em neblina e abençoada com um clima ameno, oferece condições ideais para o cultivo do prestigiado Chá de Mengshan. Já no primeiro ano da era Tianbao, na Dinastia Tang (742 d.C.), o Chá de Mengshan foi selecionado como tributo imperial, mantendo este estatuto por mais de mil anos, ao longo de cinco dinastias. É, portanto, o chá que durante mais tempo serviu como tributo na História da China, amplamente apreciado por altos dignitários e literatos.

O Chá de Mengshan é um chá verde, cuja produção passa por uma sequência rigorosa de etapas, desde a colheita até à torrefação. O resultado é um chá de aparência refinada, cor viva e brilhante, aroma intenso e sabor suave e adocicado, apreciado não apenas pelo paladar, mas também pelos seus benefícios para a digestão.

A Rota dos Cavalos e do Chá e o Chá da Rota do Sul: uma ponte cultural entre han e tibetanos

Se o Chá de Mengshan representa a delicadeza do chá de Sichuan, a Rota dos Cavalos e do Chá e o Chá da Rota do Sul carregam uma narrativa histórica de grandeza.

Originada em Ya’an, essa antiga via comercial não era apenas uma rota de mercadorias, mas um corredor económico e cultural que ligava as planícies centrais da China ao Tibete e, mais além, ao Sul da Ásia.

Desde a Dinastia Tang (século VII), foi-se consolidando o comércio de chá das regiões han por cavalos do planalto tibetano. Entre montanhas e desfiladeiros escarpados, grupos de carregadores e caravanas de cavalos abriram, a muito custo, uma rota lendária. O produto mais precioso que transportavam era o Chá da Rota do Sul, também conhecido como “chá tibetano”, que é um tipo de chá preto fermentado, cuja técnica de produção tem mais de 1300 anos.

Campos de chá envoltos na bruma do amanhecer no Monte Mengding, em Ya’an, província de Sichuan.
Campos de chá envoltos na bruma do amanhecer no Monte Mengding, em Ya’an, província de Sichuan.D.R. / Macao Daily News

Para suportar as longas jornadas, o chá era comprimido em blocos ou discos. Curiosamente, ao longo dos meses de transporte, o chá era repetidamente molhado pela chuva e depois seco ao sol, passando curiosamente por uma fermentação natural que lhe conferia um sabor encorpado e suave e o tornava resistente a infusões prolongadas.

Ao chegar ao planalto tibetano, o chá era misturado com manteiga de iaque, sal e às vezes nozes, sendo depois batido até formar o cremoso chá de manteiga.

Além de proporcionar calor e nutrientes em condições de frio e baixa oxigenação, essa bebida tornou-se parte essencial do quotidiano tibetano, assumindo também um profundo valor afetivo. O ditado popular “mais vale passar três dias sem comida do que um dia sem chá” evidencia a importância vital desta bebida para a vida local.

A Rota dos Cavalos e do Chá não se limitava ao transporte de mercadorias. Também promoveu a interação entre diversos povos do sudoeste da China — han, tibetanos, yi, qiang e outros grupos étnicos —, favorecendo a integração das suas línguas, religiões e costumes. É, assim, um caminho cultural repleto de histórias e memórias.

Vivencie a jornada do chá: do campo à chávena

Uma viagem a Sichuan não estaria completa sem participar pessoalmente no processo de produção do chá. Nas plantações de chá que cobrem a Montanha Mengding em sucessivos socalcos, é possível acompanhar os agricultores locais e aprender a colher folhas frescas; nos ateliers tradicionais, pode-se acompanhar etapas como a torrefação e o enrolamento das folhas; e em antigas casas de chá em Chengdu, é ainda possível provar uma chávena recém-preparada de Mengding Ganlu, a variedade mais prestigiada do chá da região, apreciar a arte de servir chá e assistir ao famoso teatro de máscaras de Sichuan, mergulhando no quotidiano local.

Uma casa de chá em Chengdu: os visitantes tomam chá enquanto assistem a um espetáculo de “mudança de máscaras” ('bian lian'),  arte performativa da Ópera de Sichuan.
Uma casa de chá em Chengdu: os visitantes tomam chá enquanto assistem a um espetáculo de “mudança de máscaras” ('bian lian'), arte performativa da Ópera de Sichuan.D.R. / Macao Daily News

Também é possível visitar antigas estações da Rota dos Cavalos e do Chá e museus dedicados à cultura das caravanas, para conhecer o auge e o declínio dessa tradição comercial, e a intensa troca cultural entre os diferentes grupos étnicos da região.

O chá de Sichuan não é apenas a história de uma folha, mas o resultado de séculos de interação entre seres humanos e a natureza, entre povos e culturas. Quer seja amante do chá ou explorador cultural, essa jornada pela cultura do chá promete experiências inesquecíveis e emoções intensas.

INICIATIVA DO MACAO DAILY NEWS

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