Uma história de amor num mundo distópico de “pigmaliões” e “manequins”
Esta ópera começou por ser apresentada ao ar livre há um ano em Loulé, no Algarve. Também foi apresentada no Teatro Aveirense, em abril deste ano. Pigmalião chega agora ao Teatro Variedades, em Lisboa, mas numa versão mais desenvolvida, revelam ao DN Gerson Batista, o compositor, e João Vieira Fino, o encenador e criador do conceito plástico do espetáculo.
“Esta versão em Lisboa é uma expansão dessas duas primeiras apresentações. Nesta nova récita, vamos ter um prólogo enorme. Temos mais 15 minutos”, diz o compositor. “Visualmente mudou bastante e depois à medida que íamos ensaiando, íamos descobrindo mais profundidade no libreto. Na interação das personagens houve coisas que evoluíram e ganharam outra profundidade”, acrescenta João Vieira Fino.
Esta ópera é inspirada no mito clássico de Pigmalião (escultor que cria a estátua de uma mulher pela qual se apaixona e que acaba por ganhar vida), e passa-se num mundo distópico povoado por “pigmaliões” que caçam “manequins” errantes. É neste cenário pós-apocalíptico que surge um sucateiro que se enamora de uma manequim. Os papéis de Pigmalião e Manequim são interpretados pelo contratenor António Lourenço Menezes e a soprano Sara Afonso.
“Pigmalião acaba por refletir muitas coisas que nós estamos a viver neste momento. É um universo onde os seres humanos, de certa forma, perderam a capacidade de amar, e onde existem estas criaturas que são os pigmaliões. Nesta versão, desenhei-os, construí-os, um pouco como abutres, que são seres famintos de amor e que se alimentam de restos de manequins, literalmente, de peças de manequins, de plástico, velcro, metal, portanto, coisas materiais”.
O próprio manequim é também uma metáfora, diz o encenador. “É a metáfora do corpo idealizado, que é uma coisa também muito presente na nossa cultura, e também uma metáfora para aquilo que sobra de uma relação quando o amor é destruído”.
O cenário inclui uma escultura feita de resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos fornecidos pelo Electrão, e tem uma parte videográfica que contou a colaboração de crianças em idade pré-escolar de Vila Nova de Gaia, com quem João Vieira Fino trabalha. Elas criaram 12 quadros que foram filmados e são projetados ao longo do espetáculo. “Pensei o espetáculo quase como uma sucessão de pinturas em movimento”, sublinha o encenador, que também é pintor.
João Vieira Fino foi chamado para este projeto, encomendado pelo FIO – Festival Informal de Ópera, por Gerson Batista, que trabalhou em colaboração com o libretista Tiago Schwäbl Martins, do coletivo FIO.
“Ao longo da minha carreira sempre tive um gosto enorme por criar universos sonoros. E quando me foi apresentado este libreto senti que foi como o abrir de um portal para um mundo de sonhos que esteve sempre latente em mim, à espera de ser aberto. E depois foi entrar e explorar. Comecei por criar primeiro uma série de paisagens sonoras, um tanto desconcertantes e assombrosas, com uma certa nostalgia e melancolia. E depois de ter essas ideias musicais como ponto de partida, a criação acabou por ser um caminho natural”, diz o compositor, ressaltando a estética “burtoniana” da composição musical.
“Misturamos eletrónica em tempo real e eletrónica pré-gravada com música instrumental e coro”, revela. O Ensemble Efeito Pigmalião (com flauta, clarinete, percussão, violino, viola d’arco e violoncelo) e o Grupo Vocal Arsis, composto por mais de 30 elementos, estarão em palco sob a direção de Gonçalo Santos.
A ópera será apresentada no Teatro Variedades, no Parque Mayer, de 17 a 20 de setembro.

