Os elementos cénicos, caixotes de cartão, "são simbólicos e uma metáfora da fragilidade", diz o encenador Miguel Fragata.
Os elementos cénicos, caixotes de cartão, "são simbólicos e uma metáfora da fragilidade", diz o encenador Miguel Fragata.Foto: Leonardo Negrão

A vida de um casal jovem: comprar casa é só o início dos problemas

Miguel Fragata encena 'Uma Casa, com Certeza', texto vencedor do Prémio Miguel Rovisco. Peça de Constança Bourgard “saltou à vista" pelos diálogos dinâmicos e abordagem a um tema contemporâneo “para lá dos clichés”. Estará em cena na Sala Estúdio do Teatro da Trindade até 25 de outubro.
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Constança Bourgard, de 27 anos, é uma atriz portuguesa formada em Paris e Londres que no ano passado começou a escrever peças de teatro. É autora de três textos dramáticos: Uma Casa, com Certeza, que venceu a 8ª. edição do Prémio Miguel Rovisco, do Teatro da Trindade; O Bruto e a Bruta, distinguido com o Prémio de Teatro Carlos Avilez 2026 da Sociedade Portuguesa de Autores e Teatro Aberto; e Amor de Mãe, a primeira obra que ela escreveu, e que é um dos três textos finalistas da 6.ª edição do Prémio Nova Dramaturgia de Autoria Feminina promovido pela Companha Cepa Torta, cuja vencedora será anunciada no próximo dia 1 de outubro.

Um começo auspicioso para esta jovem dramaturga, que tem como grande referência Tiago Rodrigues, encenador português que atualmente dirige o Festival d’Avignon, diz Constança Bourgard ao DN.

Foto: Leonardo Negrão

Uma Casa, com Certeza é o seu primeiro texto a chegar ao palco. A peça está em cena desde ontem, 10 de setembro, na Sala Estúdio do Teatro da Trindade, onde será apresentada até 25 de outubro. É encenada por Miguel Fragata, que participou na escolha do vencedor do Prémio Miguel Rovisco. “Eu fui juri do prémio, com o Diogo Infante e a Margarida Tavares, e fui convidado pelo Diogo já na perspetiva de depois o encenar. Este texto destacou-se por uma capacidade de escrita de diálogos altamente dinâmicos, que saltou à vista face aos outros textos. E, ao mesmo tempo, pela abordagem de um tema muito contemporâneo de uma forma complexa, para lá dos clichés e das ideias feitas”.

O encenador Miguel Fragata.
O encenador Miguel Fragata.Foto: Leonardo Negrão

A inspiração para esta história surgiu no IKEA, revela Constança Bourgard.“Há tantas discussões sobre a escolha dos móveis, a decoração da casa... E há esta ideia de uma vida a dois, já empacotada, esta vida que agora não podemos ter. É como se fosse um produto, temos que arranjar uma pessoa, comprar uma casa, ter uma hipoteca, ter filhos, e de repente vemo-nos impossibilitados de seguir este modelo, que era o modelo tradicional. E também põe em causa esse modelo tradicional”, sublinha.

A peça é protagonizada por Ana Valentim e André Leitão. “É um diálogo entre duas personagens, um casal que acaba de comprar a sua primeira casa e que traz uma série de conflitos. Há diferenças sociais muito evidentes, há diferenças políticas muito claras, cada um deles pensa o mundo de forma muito polarizada. E isso traz implicações também no âmbito daquilo que são as convenções para cada género. Porque, neste caso, é ela, a personagem feminina, que ganha mais e que pagou a casa e que trabalha. Ele tem uma situação mais precária e trabalha em casa, e isso cria uma série de tensões”, diz Miguel Fragata.

Foto: Leonardo Negrão

Quanto à escolha do elenco, o encenador adianta que queria que os atores se enquadrassem na geração que mais sofre com a falta de habitação e, por outro lado, que apresentassem um perfil que escapasse às ideias preconcebidas. “Ou seja, ao pensar numa personagem feminina privilegiada, de classe média alta, interessava-me que fosse uma atriz que, à partida, não se encaixasse naquilo que são os estereótipos que temos no imaginário de alguém nessas circunstâncias. Ou uma personagem masculina, que é um intelectual de esquerda, pensar num ator que não correspondesse ao preconceito que temos dessa ideia. Porque o texto também propõe isso, tem essa riqueza de trazer estas duas personagens que não se encerram completamente na ideia do estereótipo.”

Este será o primeiro texto teatral de Constança Bourgard a ser encenado, mas vai haver mais. No próximo ano, na sequência do Prémio de Teatro Carlos Avilez, O Bruto e a Bruta subirá ao palco do Teatro Aberto.

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