Rita Calçada Bastos e Joaquim Horta, um reencontro nos palcos.
Rita Calçada Bastos e Joaquim Horta, um reencontro nos palcos.Foto: Leonardo Negrão

Um homem e três mulheres numa caravana que é refúgio, palco e confessionário

Peça de João Luís Barreto Guimarães, vencedor do Prémio de Teatro Carlos Avilez / SPAutores / Teatro Aberto 2025, encenada João Pedro Vaz, está em cena em Lisboa até 26 de julho. Ruma depois ao Porto.
Publicado a
Atualizado a

É uma peça de teatro “cinematográfica”, com ambiente que faz lembrar o filme Paris, Texas, de Wim Wenders. Em Caravanaspoilers e plot twists, partes que não puderam ser mostradas no ensaio de imprensa antes da estreia, na passada sexta-feira. É João Pedro Vaz, ator e encenador do texto de João Luís Barreto Guimarães, vencedor do Prémio de Teatro Carlos Avilez / SPAutores / Teatro Aberto 2025, quem o sublinha.

“Há uma mecânica surpreendente, a certa altura a peça tem um volte face, e quando cheguei a esse volte face, percebi que é uma peça que se revê mentalmente. Ou seja, o espetador começa a vê-la outra vez na sua própria cabeça. E achei isso muito interessante, talvez a coisa mais interessante do texto”, diz João Pedro Vaz.

João Pedro Vaz troca o papel de ator pelo de encenador.
João Pedro Vaz troca o papel de ator pelo de encenador.Foto: Leonardo Negrão

A peça com quatro atos (para quatro fases da lua), tem quatro personagens, mas apenas dois atores Rita Calçada Bastos e Joaquim Horta. É a história de um homem que se isola numa caravana longe da cidade e tem encontros fortuitos com três mulheres. A caravana, um “não-lugar”, escreve João Luís Barreto Guimarães sobre o seu texto a propósito da encenação do espetáculo, “é ao mesmo tempo uma casa provisória, refúgio, palco, confessionário e máquina de metamorfose”.

O autor explica nesse mesmo texto que foi seguindo esse homem em diferentes encontros com as três mulheres, até que a “determinada altura da escrita, aquilo que até aí surgia como uma sucessão de encontros começou a revelar-se outra coisa — vínculos amorosos fragmentados em máscaras, duas pessoas a tentar regressar a si mesmas por caminhos desviados”.

A caravana, "confessionário e máquina de metamorfose".
A caravana, "confessionário e máquina de metamorfose".Foto: Leonardo Negrão

O encenador sublinha que “é nesse jogo de intimidade, de máscara e de revelação”, que a trama se desenrola. “Vai-se tentando perceber o que é que se passa com aquele homem, porque há ali qualquer coisa que não bate certo. E percebes que aquele seu retiro voluntário tem uma razão pessoal, e quando descobres a razão, vais para trás na peça, sem a poderes ver outra vez. Só o teatro consegue isso. O João foi bastante inteligente a perceber a mecânica do teatro, o teatro é mesmo isso, o espetador faz a sua própria montagem”.

João Pedro Vaz trabalhou de perto com João Luís Barreto Guimarães, poeta, tradutor e médico cirurgião plástico, vencedor do Prémio Pessoa em 2022. “Eu propus uns cortes, não foram alterações, mas cortes, é a primeira peça dele a ser encenada”, revela. “Ele percebeu que há coisas que se podem cortar a partir do momento em que os estão atores lá, o corpo e a relação entre eles. Também há coisas que não precisam de ser claras, porque o espetador quer – eu acredito ainda nisso –, fazer o resto da construção”.

O encenador confidencia: “Vou dizer uma coisa que disse ao João Luís, um bocado na brincadeira: a poesia não nos interessa, porque são duas artes completamente diferentes. E é preciso ter muito cuidado quando às vezes se introduz a poesia dentro do teatro, porque o teatro continua a ser uma arte viva em que os corpos têm que ressoar e têm que transmitir eles próprios as suas metáforas, os seus símbolos, sem que sejam mencionados muitas vezes. E a poesia é o contrário, tem que enunciar a partir da palavra. Às vezes o ator em silêncio diz mais do que quando está a falar”.

Mais do que isso, sublinha João Pedro Vaz, "foi muito interessante perceber até que ponto a poesia ajudava, mas também onde é que a poesia não ajuda, porque o teatro, de facto, é uma arte muito específica".

Rita Calçada Bastos interpreta três papéis.
Rita Calçada Bastos interpreta três papéis.Foto: Leonardo Negrão

Rita Calçada Bastos, que volta a contracenar com Joaquim Horta mais de 20 anos depois de terem feio a peça Categoria 3.1de Lars Nóren, encenada por Álvaro Correia na Comuna, interpreta as três mulheres que passam pela caravana, que se apresentam como Helena, Ana e Maria. “Já tinha acontecido numa outra peça fazer duas personagens com um intervalo de dez minutos, mas estas são mesmo todas seguidas, um intervalo só para uma muda de roupa. É um desafio muito aliciante para um ator, como é que se ginastica essa interioridade também”, diz a atriz.

A primeira mulher a encontrar-se com o homem, descreve o autor do texto, “oferece um nome que pode não ser o seu, seduz, provoca, bate-lhe no braço, ri, desafia-o, mas percebe-se cedo que a insolência é uma forma de não se esboroar”. A segunda “traz uma energia muito diferente da mulher do primeiro ato: é mais jovem, mais leve à superfície, mais corporal, mais brincalhona, quase infantil em certos momentos. Mas essa leveza também é uma máscara”. A terceira “aparece mais velha, mais segura, mais sofisticada, com uma elegância e uma autoridade que mudam imediatamente a temperatura da cena. Já não estamos apenas no terreno da sedução ou da carência física; entramos numa zona mais perigosa, porque o confronto passa a fazer-se através das palavras, da linguagem”, explica João Luís Barreto Guimarães.

Um homem que se isola para se reencontrar.
Um homem que se isola para se reencontrar.Foto: Leonardo Negrão

Joaquim Horta, no papel do homem que se apresenta como Tomás, diz que “cada mulher traz um imaginário diferente, uma idade diferente, e isso irá também confrontá-lo com fases diferentes da sua própria vida.”

Caravana está em cena no Teatro Aberto, em Lisboa até 26 de julho, e entre 18 e 27 de setembro sobe ao palco do Teatro Nacional São João, no Porto.

Rita Calçada Bastos e Joaquim Horta, um reencontro nos palcos.
Diogo Infante dá vida ao “professor que nos inspira” no Clube dos Poetas Mortos
Rita Calçada Bastos e Joaquim Horta, um reencontro nos palcos.
Novo diretor de Artes Performativas do CCB quer unir em rede teatros em Portugal, Espanha e França
Diário de Notícias
www.dn.pt