É uma peça de teatro “cinematográfica”, com ambiente que faz lembrar o filme Paris, Texas, de Wim Wenders. Em Caravana há spoilers e plot twists, partes que não puderam ser mostradas no ensaio de imprensa antes da estreia, na passada sexta-feira. É João Pedro Vaz, ator e encenador do texto de João Luís Barreto Guimarães, vencedor do Prémio de Teatro Carlos Avilez / SPAutores / Teatro Aberto 2025, quem o sublinha. “Há uma mecânica surpreendente, a certa altura a peça tem um volte face, e quando cheguei a esse volte face, percebi que é uma peça que se revê mentalmente. Ou seja, o espetador começa a vê-la outra vez na sua própria cabeça. E achei isso muito interessante, talvez a coisa mais interessante do texto”, diz João Pedro Vaz. .A peça com quatro atos (para quatro fases da lua), tem quatro personagens, mas apenas dois atores Rita Calçada Bastos e Joaquim Horta. É a história de um homem que se isola numa caravana longe da cidade e tem encontros fortuitos com três mulheres. A caravana, um “não-lugar”, escreve João Luís Barreto Guimarães sobre o seu texto a propósito da encenação do espetáculo, “é ao mesmo tempo uma casa provisória, refúgio, palco, confessionário e máquina de metamorfose”.O autor explica nesse mesmo texto que foi seguindo esse homem em diferentes encontros com as três mulheres, até que a “determinada altura da escrita, aquilo que até aí surgia como uma sucessão de encontros começou a revelar-se outra coisa — vínculos amorosos fragmentados em máscaras, duas pessoas a tentar regressar a si mesmas por caminhos desviados”. .O encenador sublinha que “é nesse jogo de intimidade, de máscara e de revelação”, que a trama se desenrola. “Vai-se tentando perceber o que é que se passa com aquele homem, porque há ali qualquer coisa que não bate certo. E percebes que aquele seu retiro voluntário tem uma razão pessoal, e quando descobres a razão, vais para trás na peça, sem a poderes ver outra vez. Só o teatro consegue isso. O João foi bastante inteligente a perceber a mecânica do teatro, o teatro é mesmo isso, o espetador faz a sua própria montagem”.João Pedro Vaz trabalhou de perto com João Luís Barreto Guimarães, poeta, tradutor e médico cirurgião plástico, vencedor do Prémio Pessoa em 2022. “Eu propus uns cortes, não foram alterações, mas cortes, é a primeira peça dele a ser encenada”, revela. “Ele percebeu que há coisas que se podem cortar a partir do momento em que os estão atores lá, o corpo e a relação entre eles. Também há coisas que não precisam de ser claras, porque o espetador quer – eu acredito ainda nisso –, fazer o resto da construção”. O encenador confidencia: “Vou dizer uma coisa que disse ao João Luís, um bocado na brincadeira: a poesia não nos interessa, porque são duas artes completamente diferentes. E é preciso ter muito cuidado quando às vezes se introduz a poesia dentro do teatro, porque o teatro continua a ser uma arte viva em que os corpos têm que ressoar e têm que transmitir eles próprios as suas metáforas, os seus símbolos, sem que sejam mencionados muitas vezes. E a poesia é o contrário, tem que enunciar a partir da palavra. Às vezes o ator em silêncio diz mais do que quando está a falar”.Mais do que isso, sublinha João Pedro Vaz, "foi muito interessante perceber até que ponto a poesia ajudava, mas também onde é que a poesia não ajuda, porque o teatro, de facto, é uma arte muito específica". .Rita Calçada Bastos, que volta a contracenar com Joaquim Horta mais de 20 anos depois de terem feio a peça Categoria 3.1de Lars Nóren, encenada por Álvaro Correia na Comuna, interpreta as três mulheres que passam pela caravana, que se apresentam como Helena, Ana e Maria. “Já tinha acontecido numa outra peça fazer duas personagens com um intervalo de dez minutos, mas estas são mesmo todas seguidas, um intervalo só para uma muda de roupa. É um desafio muito aliciante para um ator, como é que se ginastica essa interioridade também”, diz a atriz.A primeira mulher a encontrar-se com o homem, descreve o autor do texto, “oferece um nome que pode não ser o seu, seduz, provoca, bate-lhe no braço, ri, desafia-o, mas percebe-se cedo que a insolência é uma forma de não se esboroar”. A segunda “traz uma energia muito diferente da mulher do primeiro ato: é mais jovem, mais leve à superfície, mais corporal, mais brincalhona, quase infantil em certos momentos. Mas essa leveza também é uma máscara”. A terceira “aparece mais velha, mais segura, mais sofisticada, com uma elegância e uma autoridade que mudam imediatamente a temperatura da cena. Já não estamos apenas no terreno da sedução ou da carência física; entramos numa zona mais perigosa, porque o confronto passa a fazer-se através das palavras, da linguagem”, explica João Luís Barreto Guimarães. .Joaquim Horta, no papel do homem que se apresenta como Tomás, diz que “cada mulher traz um imaginário diferente, uma idade diferente, e isso irá também confrontá-lo com fases diferentes da sua própria vida.” Caravana está em cena no Teatro Aberto, em Lisboa até 26 de julho, e entre 18 e 27 de setembro sobe ao palco do Teatro Nacional São João, no Porto..Diogo Infante dá vida ao “professor que nos inspira” no Clube dos Poetas Mortos.Novo diretor de Artes Performativas do CCB quer unir em rede teatros em Portugal, Espanha e França