Encenação de Sandra Barata Belo levou Ricardo Pereira de volta ao teatro.
Encenação de Sandra Barata Belo levou Ricardo Pereira de volta ao teatro. Foto: Leonardo Negrão

'Uma Brancura Luminosa' junta Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira no palco do Variedades

Peça encenada por Sandra Barata Belo com base no livro de Jon Fosse, protagonizada por Ricardo Pereira, estará em cena no Teatro Variedades, em Lisboa, entre 14 e 25 de janeiro.
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Desde 8 de novembro, quando estreou no Centro de Artes de Ovar, que a peça Uma Brancura Luminosa está em digressão por várias salas do país e, na próxima quarta-feira, dia 14, chega a Lisboa, ao Teatro Variedades, onde estará em cena até ao dia 25 deste mês. Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira, dois atores bem conhecidos dos portugueses, trocam a televisão e o cinema pelo palco nesta peça encenada por Sandra Barata Belo e interpretada por Ricardo Pereira e pela própria encenadora.

A peça é baseada no livro de Jon Fosse, escritor que ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 2023, e não é a primeira vez que a atriz adapta romances para teatro. Fê-lo, sozinha ou em parceria, com Morreste-me de José Luís Peixoto, Carta de uma Desconhecida de Stefan Zweig e Princípio de Karerina de Afonso Cruz.

“Há livros em que as coisas que acontecem são tão marcantes para mim e tão inspiradoras que eu, como sou atriz, vejo logo que tem imenso potencial cénico. E imediatamente começo a ler o livro com uma ansiedade, primeiro para ver como é que vai acabar, e depois começa a crescer dentro de mim, começo a ver que tipo de ideias é que posso ter a partir da primeira que me surgiu, e já leio o livro assim, não consigo parar de ler, tenho insónias, mas o processo criativo começa no momento em que estou a ler o livro”, diz Sandra Barata Belo ao DN.

A peça é sobre um homem que guia sem destino, ao acaso, ora vira à direita, ora vira à esquerda, foge do tédio, do vazio, e acaba com o carro atolado numa estrada florestal no meio da neve, sem ajuda à vista. Primeiro fica dentro do carro, mas depois aventura-se floresta adentro. E nessa caminhada em que quase morre de frio e cansaço, vira-se para o interior, para os seus pensamentos e memórias, numa viagem entre passado, presente e futuro. E quando a linha que separa a realidade da ilusão começa a esbater-se, vê uma “estranha brancura luminosa”.

Cena de 'Uma Brancura Luminosa', com Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira.
Cena de 'Uma Brancura Luminosa', com Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira.Foto: DR

Adaptar para teatro este texto de Jon Fosse teve os seus desafios. “Em todos os livros que eu adaptei, o desafio máximo é sempre o mesmo, cortar texto, porque para mim aquilo é tudo bom e tem que entrar tudo, só que não pode ser, porque literatura é literatura e teatro é teatro”, diz a encenadora. No caso concreto do livro de Jon Fosse, houve ainda outra complicação: “Era a repetição, nós quando estamos a ler o Jon Fosse vamos naquela musicalidade e num existencialismo, num diálogo constante com o autor. Como é que isto depois se traduzia em palco, se não era muito aborrecido aquela repetição constante, que parece que é igual mas não é, essa foi a maior dificuldade”.

A peça, diz Sandra Barata Belo, “é muito existencialista”, mas o que a cativou no texto de Jon Fosse, e que está espelhado na dramaturgia, foi a conjugação dessa reflexão sobre a vida com uma dimensão mais leve e até humorística com qual o espetador facilmente se identificará. “Porque ele ao mesmo tempo que é existencialista é quotidiano, é comum e é quase absurdo, às vezes é tão existencialista e tão poético quanto cómico ou mundano. Ele está a pensar numa coisa e de repente começa a falar de uma salsicha e de maionese. Este casamento é muito interessante, e foi por isso que me agradou tanto”.

Além disso, sublinha a encenadora, “as pessoas podem pensar que é um espetáculo existencialista e filosófico e é, mas não é só isso. As pessoas vão reconhecer-se, vão rever-se na relação com o pai, com a mãe, com as escolhas que fazemos, e é muito sobre as escolhas, e muito sobre a importância das escolhas.”

Cena de 'Uma Brancura Luminosa', com Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira.
Cena de 'Uma Brancura Luminosa', com Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira.Foto: DR

Sandra Barata Belo interpreta a “brancura luminosa” na peça, mas é Ricardo Pereira o protagonista desta história. Trata-se de um regresso ao teatro - onde aliás começou a sua carreira de ator, no Teatro Nacional D. Maria II, em 2000, com a peça Real Caçada ao Sol - após cinco anos desde a última vez que pisou um palco, no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, no Brasil.

O ator sublinha que em cena estão os dois atores, “mas eu diria que nós passamos por vários papéis, isso também é a beleza deste espetáculo, ou seja, obviamente que é um espetáculo em que a predominância deste homem perdido no meio da floresta é gigante, como a Sandra diz, é um monólogo assistido, mas ele cruza-se com outras personagens, se são reais ou irreais, imaginárias, não sabemos, o que sabemos é que vamos criando estas outras camadas ao longo da história e construir este processo todo foi extraordinário”, diz Ricardo Pereira ao DN.

O papel que o ator interpreta é exigente, ele diz que não pode passar uma semana sem o ler. “Este texto foi muito difícil de trabalhar por esta questão da repetição, que é um estilo característico deste autor, pela dificuldade de memorizar, porque parece igual mas não é igual”, sublinha.

Cena de 'Uma Brancura Luminosa', com Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira.
Cena de 'Uma Brancura Luminosa', com Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira.Foto: DR

Quanto à “brancura luminosa” interpretada por Sandra Barata Belo e que acompanha este homem interpretado por Ricardo Pereira, “é uma personagem muito misteriosa, sobre quem ela é cabe depois a cada um a resposta, cada um atribuirá um significado. Uma das maravilhas do Jon Fosse é que ele não concretiza, não define, não dá nomes às coisas, fala delas e ao falar delas abre-nos a mais perguntas, mais do que nos dá respostas”, diz a encenadora.

Ricardo Pereira, que tem dividido a sua carreira entre Portugal e o Brasil, diz que “tinha muita vontade de voltar ao teatro, não foi por falta de convites, mas queria voltar com um determinado projeto. Acompanho a Sandra desde sempre, além de termos trabalhado várias vezes juntos, fui um espetador atento de todas as suas encenações, como amigo mas também como espetador, e sempre dissemos que tínhamos de encontrar um projeto certo para fazer, e este é o projeto certo”.

O espetáculo vai ser adaptado para esta apresentação em Lisboa, explica a encenadora, porque o palco do Variedades é mais pequeno do aqueles em que a peça já passou (além de Ovar, Lousã, Paredes, Covilhã e Vale de Cambra), e também o sistema e iluminação é diferente. Mas uma apresentação nunca é igual à outra, sublinham, e a peça chega à capital mais “amadurecida”.

“O espetáculo vai vivendo muito daquilo que recebemos do público, da perceção do público da peça, o público envolve-se muito, nós sentimos que do princípio ao fim as pessoas estão muito em silêncio, a querer acompanhar todos os detalhes, e tem que ser assim, a escrita do Jan Fosse tem que se ouvir e prestar muita atenção”, descreve Ricardo Pereira.

'Uma Brancura Luminosa', interpetada por Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira, continuará em digressão após a passagem por Lisboa.
'Uma Brancura Luminosa', interpetada por Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira, continuará em digressão após a passagem por Lisboa.Foto: Leonardo Negrão

Pelos sítios onde foi passando a peça, houve conversas com o público, e o mesmo acontecerá nesta passagem por Lisboa, pós-espetáculo, nos 15 e 20 de janeiro. Ricardo Pereira e Sandra Barata Belo falarão sobre o processo criativo de Uma Brancura Luminosa e respondem a perguntas sobre este espetáculo que a encenadora considera que é uma “peça de inverno”, pela temática e por se passar num cenário de neve.

Depois da capital, Uma Brancura Luminosa continua em digressão. No dia 31 de janeiro estará na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, no dia 7 de fevereiro no Teatro Municipal de Ourém e no dia 22 de fevereiro no Cineteatro Louletano, em Loulé. Mas há “muitos pedidos”, assegura Ricardo Pereira, e por isso a peça deverá chegar ainda a mais salas, em Portugal e lá fora, nomeadamente no Brasil, começando pelo Rio de Janeiro.

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