À partida, o que se espera de um concerto de música orquestral não é “uma envolvência pop” com “fogo, luzes, robótica e coreografias”, mas é essa a proposta da Lisbon Film Orchestra (LFO), que no dia 10 de janeiro volta à MEO Arena, pela terceira vez neste formato, para apresentar um concerto em torno das bandas sonoras da vida de toda a gente, explica ao DN o maestro Nuno de Sá, revelando os bastidores do espetáculo Our Stories, que, por seu turno, encerra um desejo nada secreto: “Que a música nos possa salvar.”“O cinema, sendo uma arte, é uma representação da vida. O que nós pretendemos é que, no alinhamento, parte, grande parte, ou apenas um pouco, uma música que seja, possa contar a história de quem estiver a assistir”, descreve Nuno de Sá sobre o Our Stories, reforçando o caráter de indentificação do público “com a história da personagem ou com a banda sonora que foi importante”. “Que as pessoas se sintam vistas”, resume.Com cerca de oito mil espectadores em cada uma das duas últimas edições deste espetáculo da LFO, na MEO Arena, o sucesso deste formato surge como resultado de um percurso iniciado há quase duas décadas, marcado pela ideia de que existe, ainda hoje, um preconceito - ou, nas palavras do maestro, uma “falta de conexão” - entre o grande público e a música orquestral.“Há muitas pessoas que vêm assistir aos concertos da Lisbon Film Orchestra e estão a ver uma orquestra ao vivo pela primeira vez”, afirma Nuno de Sá, enquanto desconstrói a ideia de elitismo associada à música orquestral. “Desconhecem que aquilo que ouvem diariamente em bandas sonoras de filmes, séries, jogos ou anúncios é feito com uma orquestra, com músicos como os que estão ali à frente”, vinca. Essa distância, explica o maestro, nasce muitas vezes da perceção de que a música orquestral “não é para mim”, associada a imagens de salas formais, códigos rígidos de comportamento e uma ideia de “elitismo” que afasta quem nunca teve contacto direto com esse universo.Para Nuno de Sá, essa perceção externa não corresponde à realidade vivida por quem trabalha na música erudita, porque “esse elitismo que possa ser percecionado para fora não é mais do que a necessidade de respeitar a obra, o compositor e os próprios músicos”, sublinha. Ainda assim, reconhece que, para quem nunca entrou numa sala de concertos, o impacto inicial pode ser o de um espaço ao qual sente que não pertence.É precisamente nesse ponto que a Lisbon Film Orchestra se reinventa e cria os conceitos que orbitam à sua volta. Usando as bandas sonoras como “pretexto”, esta orquestra procura criar uma ponte emocional com o público, convocando memórias afetivas associadas a filmes que marcaram várias gerações. “Quando vimos O Rei Leão, Star Wars ou Indiana Jones pela primeira vez, aquelas músicas entraram dentro da nossa vida”, recorda Nuno de Sá, lembrando que é comum “trautear temas do John Williams, porque fazem parte da nossa história”.Ao contrário de uma visão redutora da música para cinema como mero acompanhamento de imagens, o maestro defende que muitas destas obras têm valor autónomo. “Quando a banda sonora é muito boa, pode servir como música absoluta, retirada do contexto do filme”, explica.Essa linha orientadora esteve na origem da criação da LFO, inspirada numa experiência vivida por Nuno de Sá em Praga, quando ainda estava a estudar. Foi aí, na capital da República Checa, que assistiu a concertos dedicados exclusivamente a bandas sonoras, apresentados em moldes que são associados à música erudita. “Percebi o impacto que aquilo tinha nas pessoas, nas crianças, e pensei, de forma ingénua, porque isto foi há 18 anos: por que não fazer isto em Portugal?”, relata.O projeto começou em salas como o Cinema São Jorge, com uma produção contida, em comparação com a que agora chega à MEO Arena, e foi crescendo gradualmente. Hoje, apresenta-se como um espetáculo híbrido, que cruza a exigência musical de uma grande orquestra com uma linguagem multidisciplinar próxima do universo pop. “É um espetáculo pensado para chegar ao público em geral, mas para que as pessoas percebam como é que aquele som é feito”, confirma o maestro.Our Stories, o conceito do concerto de 2026, aprofunda essa relação emocional. Segundo Nuno de Sá, a ideia passa por criar um alinhamento que permita ao público reconhecer-se nas histórias contadas através da música, mas o maestro vai mais longe ao falar de um potencial quase terapêutico da experiência. “Durante aquelas duas horas e tal de espetáculo, as pessoas podem, de alguma maneira, curar-se de alguma coisa. A música já me salvou tantas vezes e acredito que salve muita gente”, considera, na qualidade de ouvinte e de maestro.O programa promete essa diversidade multifacetada, entre emoções e experiências sensoriais, mas haverá momentos mais introspectivos e outros de grande energia. Musicalmente, o alinhamento percorre várias décadas e géneros do cinema e da televisão, mas mantém uma tradição inquebrável na LFO, com a música dos Piratas das Caraíbas a regressar. A este elemento do alinhamento, juntam-se bandas sonoras de filmes emblemáticos, como Regresso ao Futuro, de Alan Silvestri, e Tubarão, de John Williams, e outros universos incontornáveis como Harry Potter e Star Wars, que até agora permaneciam inéditos no repertório da orquestra.O concerto inclui ainda excertos de O Príncipe do Egito, Wicked, Sweeney Todd (numa antevisão da versão de palco que a LFO apresentará entre 2 de abril e 3 de maio deste ano), Moulin Rouge, O Gambito de Dama e Sherlock Holmes. O diálogo com a cultura contemporânea afirma-se através da música Golden, do filme da Netflix KPop Demon Hunters, exemplo do que o maestro descreve como a “máquina de marketing” que torna certas bandas sonoras omnipresentes numa memória coletiva.A ligação com o público, independentemente da idade, acontece também através das vozes de Bryan Carvalho, Patrícia Duarte e Sara Madeira, com esta última cantora a ter uma relação ainda mais próxima com o público mais jovem, tendo em conta que deu voz à personagem Vaiana, da Disney, na versão portuguesa do filme. É assim que, com Sara Madeira em palco, a LFO interpretará temas de Moana (ou Vaiana, em português) e Moana 2, reforçando a ligação direta entre as personagens evocadas nestas músicas e os intérpretes que lhe deram voz.O espetáculo inclui ainda uma dimensão pouco habitual em produções desta escala. Nos últimos três anos, a LFO integrou um coro de cerca de 70 pessoas selecionadas entre seguidores do projeto, criando o que Nuno de Sá define como um verdadeiro sentido de comunidade, porque inclui estas pessoas que, como descreve o maestro, são pessoas que “costumam estar do lado de lá, na plateia”, e que estarão no palco.“Faço audições, para trazer e criar essa comunidade, ou seja, ter pessoas entusiastas da LFO a participarem no concerto. E este ano, nós vamos sair um bocadinho fora de pé e vamos fazer uma homenagem ao filme Amadeus”, revela. É assim que, este ano, o coro terá um papel especial numa homenagem a Wolfgang Amadeus Mozart, com a exigente interpretação da secção Lacrimosa, que integra a monumental e inacabada missa fúnebre do compositor austríaco conhecida apenas como Requiem (com a catalogação Köchel 626).“Não é um coro erudito, nem uma interpretação historicamente informada”, explica o maestro, “mas é uma interpretação emocional, construída a partir de imagens e sensações, que permite às pessoas aproximarem-se de uma obra que reconhecem, mesmo que nunca a tenham ouvido ao vivo”. Essa abordagem ilustra a filosofia mais ampla da Lisbon Film Orchestra, que encara a música, seja ela barroca, sinfónica ou cinematográfica, como sendo “para toda a gente”. Nuno de Sá rejeita a ideia de que certos géneros pertençam a uma elite, defendendo que o acesso é a chave para despertar o interesse e a curiosidade. “Quando as pessoas têm acesso a algo que nunca tiveram, podem descobrir um novo mundo. O importante é que esse momento aconteça”, considera.Advento da artificialidadeQuestionado sobre se teme a ideia de substituição de produtos artísticos por conteúdos criados por Inteligência Artificial, o maestro não rejeita o potencial ou os riscos da tecnologia. Vê apenas como “assustadora” a velocidade com que hoje se pode gerar música artificialmente, mas mantém a convicção de que a experiência ao vivo, a verdade da interpretação e a conexão humana permanecem insubstituíveis.“Por mais tecnologia que se faça, não vai chegar à conexão que existe quando se olha nos olhos de alguém a tocar”, argumenta.Música na vida de quem a fazÉ com a crença de que a arte é feita de pessoas, por pessoas, que a Lisbon Film Orchestra continua a apostar no espetáculo ao vivo e na formação artística, também através da sua academia, homónima, que prepara músicos e performers para o palco e, em muitos casos, até os integra nas produções da LFO. A orquestra junta assim “esse lado formativo, criando aqui um ecossistema interessante para quem vê e para quem faz, porque tem experiências que não teriam se não estivessem ligados a nós”, diz Nuno de Sá.Questionado sobre se é possível viver da música em Portugal, o maestro diz que é possível as pessoas criarem as suas próprias oportunidades, ainda que, por vezes, um músico tenha de ser “o gestor da sua própria carreira” e desdobrar-se entre ser “gestor financeiro” e “pensar na promoção”.“Nós podemos criar tudo, mas precisamos do público para nos ver. Eu posso escrever um livro, mas se não tiver ninguém para o ler, não me interessa escrever. Eu não posso ser só um autor publicado. Faço uma publicação de autor, mas depois ninguém pega no meu livro, eu não estou a viver disso”, explica, enquanto incentiva os novos artistas a não ficarem parados..Rosalía traz 'Lux' à Meo Arena em abril.Carolina Deslandes marca concerto para a MEO Arena para 6 de março de 2027