Vasco Mendonça está a escrever uma nova ópera, com base num texto de Ibsen, para a Dutch National Opera, de Amesterdão.
Vasco Mendonça está a escrever uma nova ópera, com base num texto de Ibsen, para a Dutch National Opera, de Amesterdão. Foto: Paulo Spranger

Vasco Mendonça cria série televisiva que é uma "carta de amor à ópera"

Compositor escreveu, realizou e apresenta OPERA.NOW, uma série de seis episódios em que nos leva aos bastidores de óperas de grandes compositores do nosso tempo. Estreia na RTP2 a 5 de janeiro.
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George Benjamin, um dos mais conceituados compositores britânicos, diz que andou muito tempo à procura de uma pessoa com quem conseguisse colaborar num libreto para uma ópera: “Procurei anos e anos e anos, devo ter conhecido dezenas, centenas de pessoas, e depois conheci o Martin Crimp, dramaturgo inglês, e no nosso primeiro encontro ficou claro para mim que era uma pessoa com quem eu poderia trabalhar, finalmente”. George Benjamim faz esta revelação no primeiro episódio da série OPERA.NOW, concebida e apresentada – em inglês – pelo compositor português Vasco Mendonça. “Há mais de uma década que as óperas de Benjamin George têm sido apresentadas em festivais e teatros de ópera um pouco por todo o mundo”, enquadra o apresentador nesse primeiro de seis episódios da série em que se propõe mostrar o processo criativo da ópera contemporânea, e que arranca com Into the Little Hill, ópera de 2006, com música de George Benjamin e libreto de Martin Crimp.

Este projeto, explica o compositor ao DN, começou a ser pensado em 2018/2019, mas com a covid-19 atrasou-se até que em 2022 ficaram reunidas as condições em termos de estrutura e financiamento para avançar. Trata-se de uma coprodução da RTP, canal Mezzo e plataforma digital medici.tv.

“A ópera mudou literalmente a minha vida. Primeiro, como ouvinte, sempre fui fascinado por ela, desde miúdo, e depois na minha própria carreira a ópera está em momentos fundamentais. Foi talvez quando eu fiz o primeiro esboço de ópera que senti que tinha descoberto a minha voz composicional. E foi também através da ópera que a minha carreira se internacionalizou. A ópera está sempre associada a momentos muito importantes da minha vida como compositor. E senti que isto era uma forma de partilhar o fascínio e o amor que tenho pela ópera, é uma carta de amor à ópera”, diz Vasco Mendonça ao DN sobre a motivação para fazer este projeto.

Vencedor do Prémio Internacional Fernando Lopes-Graça de Composição em 2004, foi compositor residente da Casa da Música (enquanto jovem compositor, em 2007, e mais recentemente em 2024) e escreveu as óperas The House Taken Over (2013), Bosch Beach (2016) e O Menino, o Caçador e o Lobo (2022).

Vasco Mendonça considera que há muito “ruído social” em relação à ópera. “Há aquela questão do elitismo, as casas de óperas e festivais tendem a ser um bocadinho conservadores. A ópera está sempre associada a esse universo, mas isso não é nada a minha experiência. A minha experiência é que a ópera está associada a pulsões fundamentais da nossa condição humana. E é um género vivo e feito por artistas vivos”. Amor, poder e morte, os ingredientes do drama operático, enuncia Vasco Mendonça olhando para três frascos em redomas de vidro no arranque desta série que é enriquecida pelas ilustrações e animação de Beatriz Bagulho.

Amor, poder e morte, os ingredientes do drama operático, enuncia Vasco Mendonça olhando para três frascos em redomas de vidro no arranque da série OPERA.NOW.
Amor, poder e morte, os ingredientes do drama operático, enuncia Vasco Mendonça olhando para três frascos em redomas de vidro no arranque da série OPERA.NOW.D.R.

A preocupação do compositor na conceção de OPERA.NOW foi encontrar “o tom certo”. “Porque esta série não é dedicada ou dirigida aos iniciados ou aos amantes da ópera. É para os outros. É para os que não conhecem. O que eu tentei foi encontrar um equilíbrio entre rigor e clareza. E, no fundo, que acolhesse as pessoas, que permitisse as pessoas entrarem, pessoas não especialistas. O meu modelo foram aquelas séries anglo-saxónicas, como Power of Art, de Simon Shama, etc. Os ingleses fazem isso muito bem.”

Vasco Mendonça desempenha bem o papel de guia pelas oito óperas que escolheu, a já referida Into the Little Hill do primeiro episódio, com George Benjamin, Innocence, de Kaija Saariaho, Fin de Partie, de György Kurtág, Alice in Wonderland, de Unsuk Chin e The Snow Queen, de Hans Abrahamsen. O sexto e último episódio é dedicado a três óperas, Ophelia, de Sarah Nemtsov, Upload, de Michel van der Aa e Denis & Katya, de Philip Venables.

A ópera está sempre associada a momentos muito importantes da minha vida como compositor. E senti que isto era uma forma de partilhar o fascínio e o amor que tenho pela ópera, é uma carta de amor à ópera.
Vasco Mendonça

“As óperas de que falo e que escolhi, são óperas, por um lado, importantes na cena internacional do século XXI, mas também óperas com as quais eu tenho uma relação próxima. Assistia a manifestações absolutamente incríveis de pessoas em estreias, pessoas que não são do meio. A ópera contemporânea tem esta capacidade de falar do nosso tempo, as pessoas podem relacionar-se mais com os temas abordados”, considera Vasco Mendonça, que centra a OPERA.NOW, como o nome indica, em óperas contemporâneas, tradicionalmente menos apresentadas nas salas de espetáculos, fruto do que considera ser o “conservadorismo de alguns programadores”. “É evidente que todos nós gostamos de cantar as nossas melodias do Verdi e do Puccini. Mas faz mais sentido, e é mais natural para um público contemporâneo, identificar-se, por exemplo, com artistas que ainda estão vivos”.

O nicho da música e da ópera contemporânea “não precisa de ser tão hermético”, defende. “Mesmo para as pessoas das minhas relações, as pessoas que consomem habitualmente literatura, cinema independente, etc., a música contemporânea é sempre uma coisa estranha, parece estar afastada do roteiro delas. E não há razão para isso acontecer”.

Vasco Mendonça elenca os temas de algumas das óperas cujo processo criativo mostra na série para vincar o seu ponto de vista. “Tem uma ópera que é sobre um tiroteio numa escola, outra que é uma versão contemporânea – umas eleições – d’O Flautista de Hamelin, há uma ópera que é sobre um caso real que aconteceu na Rússia, em que dois adolescentes se fecharam num quarto e fizeram um live streaming em que foram mortos pela polícia em tempo real. Estamos a falar de temas completamente do nosso tempo. E a ópera dá-nos a possibilidade de nos olharmos de uma forma completamente diferente do cinema ou do teatro”.

O que é que a ópera acrescenta a essas outras expressões artísticas? “A ópera dá-nos uma outra escala de tempo, uma outra velocidade em relação ao cinema ou ao teatro. As coisas ocorrem de uma forma mais lenta, até por causa da própria natureza da música. Permite-nos um outro estado de reflexão. Por outro lado, a ópera tem a ver com uma necessidade humana que existe desde sempre, que é de contar histórias através do canto. Nós cantamos quando falar deixa de ser capaz de transmitir. Nós, antropologicamente, não cantamos em situações banais. Cantamos, normalmente, em situações extremas de luto, de perda, de êxtase. O canto está associado à nossa necessidade de manifestarmos estas emoções extremas que fazem parte de nós. E a ópera dá-nos isso”.

Vasco Mendonça convive com compositores, encenadores e cantores de ópera na série OPERA.NOW.
Vasco Mendonça convive com compositores, encenadores e cantores de ópera na série OPERA.NOW. D.R.

O compositor escolheu óperas que considera que “vão ficar", algumas delas de autores com quem se cruzou na sua carreira. “É evidente que dentro deste universo escolhi também obras com as quais tivesse contactos com artistas. Foi uma combinação disso”. Vasco Mendonça, formado na Escola Superior de Música de Lisboa, estudou depois em Amesterdão com Klaas de Vries e em Londres com George Benjamin, que foi o orientador do seu doutoramento, em 2007.

Apesar de dizer que são obras “unanimemente consideradas como obras-primas do século XXI”, ressalva: “Não estou a dizer o que é que é bom ou que é que é mau. Estou simplesmente a mostrar o que é que eu acho interessante. E qual é a minha hipótese do que é que pode ficar. E era importante ouvir isto da voz dos próprios artistas. Era importante que eu tivesse algum acesso. E não todos, evidentemente, mas alguns deles são pessoas que são das minhas relações pessoais”. Independentemente disso, sublinha o criador de OPERA.NOW, “estes compositores estarão todos na lista dos dez compositores mais importantes em atividade”.

A série não acompanhou a apresentação de todas as obras abordadas, até porque algumas não estavam em cena, e nesses casos foram usadas imagens existentes. “Foi o caso de Snow Queen, fui a Londres falar com a Barbara Hannigan, com o Hans Abrahamson, mas utilizámos footage de alta qualidade da produção”.

A ópera dá-nos uma outra escala de tempo, uma outra velocidade em relação ao cinema ou ao teatro. As coisas ocorrem de uma forma mais lenta, até por causa da própria natureza da música. Permite-nos um outro estado de reflexão.
Vasco Mendonça

O segundo episódio da série OPERA.NOW é sobre Innocence, uma ópera da compositora finlandesa Kaija Saariaho, que morreu em 2023, e que vai estrear nos Estados Unidos, na Metropolitan Opera, em Nova Iorque, em abril de 2026. “Há umas semanas foi considerado pelo New York Times como o acontecimento cultural do ano em Nova Iorque”, sublinha o compositor. Kaija Saariaho e Vasco Mendonça trabalharam juntos em 2014/2015 no programa Rolex Mentor & Protégé, ela enquanto mentora e Vasco Mendonça discípulo.

Uma das razões que faz com que Vasco Mendonça goste tanto de ópera é a relação que ela tem com a sociedade. “Para mim é muito importante, como compositor, ter uma relação o mais direta possível com o meu tempo. Há um certo engajamento que eu acho que é fundamental na profissão de artista. Tenho dificuldade em ver a minha prática desligada de um contexto, ou seja, pensar num ponto de vista abstrato e puro, como é o caso da música, que é uma arte especialmente autorreferencial. Se for pura, refere-se a ela própria, à história da música e às obras que vieram para trás. E, às vezes, é muito difícil ter uma relação direta com o contexto. A ópera dá-nos isso. Com a introdução de texto e de drama, permite criar uma relação muito ancorada na realidade. Tenho um particular apreço por drama, eu faço óperas por gosto de teatro”, sublinha Vasco Mendonça.

“Para mim é muito importante, como compositor, ter uma relação o mais direta possível com o meu tempo. A ópera dá-nos isso. Com a introdução de texto e de drama, permite criar uma relação muito ancorada na realidade.
Vasco Mendonça

O compositor diz que foi com a ópera The House Taken Over, que estreou em França no Festival de Aix-en-Provence, em 2013, e que o catapultou para a cena internacional, que encontrou na composição musical “qualquer coisa de muito pessoal”.

Vasco Mendonça está neste momento a meio da composição de uma nova ópera, uma encomenda da Dutch National Opera, de Amesterdão, com base num texto clássico de Ibsen, que irá estrear em março de 2027. E, embora haja várias formas de colaboração entre compositor e quem escreve o texto, Vasco Mendonça diz que ao longo do tempo tem “ganhado uma certa coragem em estar envolvido muito mais na escrita do libreto. Porque, apesar de poder haver, por exemplo, uma sintonia com o escritor, o texto para a música é mesmo uma coisa muito pessoal. Um determinado libreto pode funcionar perfeitamente com um compositor e ser um desastre para outro. Pela minha experiência, tenho percebido que quanto mais envolvido eu estiver na produção do libreto, mais simplificada vai estar a minha tarefa ao compor”.

A série OPERA.NOW estreia no próximo dia 5 de janeiro na RTP2, mas este projeto já é passado para Vasco Mendonça, que até julho de 2026 estará “submergido” na ópera que está a escrever, e até ao final da década já tem a agenda cheia. “A maior parte do meu trabalho é internacional. Posso dizer que tenho, neste momento, trabalho fechado até 2030 e a grande maioria desse trabalho é ou internacional ou internacional em coprodução com estruturas importantes portuguesas, como a Gulbenkian ou a Casa da Música. Sou editado por uma editora em Paris, portanto, diria que 60% a 70% do meu trabalho nos próximos anos é internacional”, revela o compositor.

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