“Turandot é uma das minhas óperas preferidas. E quando tinha 12 anos, sabia-a de cor”
Durante quatro noites (5,6, 8 e 9 de agosto), no Convento da Cartuxa, em Caxias, a romena Aida Pascu interpretou Liù, a escrava que na ópera Turandot morre por amor. Numa conversa num café lisboeta, falou do seu papel na ópera que Giacomo Puccini deixou inacabada, das outras Liù que a impressionaram, e também do seu povo, os chamados latinos do leste, grandes amantes de música clássica, a começar pelos pais da soprano, ambos cantores líricos. “Sim, diria que Liù é a contraparte feminina de Turandot. Turandot é vista mais como uma personagem negativa, mas na minha opinião não é. É apenas uma mulher poderosa com muitos traumas. E acha que isso lhe dá o direito de ser muito defensiva em relação aos homens e ao amor em geral. Liù, por outro lado, é muito aberta ao amor e sonha com ele a toda a hora. É secretamente apaixonada por Calaf desde sempre, o que a torna literalmente o oposto de Turandot”, explica a soprano, de 26 anos.
“Ela é importante, porque sem ela toda esta história não teria um final feliz. Basicamente, Turandot... não diria que ela está impressionada com o sacrifício de Liù, mas isso marca definitivamente um grande momento na ópera. A morte de Liù é, na verdade, o final original de Puccini, pois foi aí que morreu. Mas temos o belo final, digamos, tradicional, escrito por Franco Alfano, onde Turandot e Calaf se reencontram. E acredito mesmo que isto nunca teria sido possível sem Liù, porque Turandot estava prestes a torturar Timur, o pai de Calaf, e então ela interveio, teve de intervir e defender toda a gente, carregando o nome como um segredo no túmulo. Claro que o nome acaba por ser revelado, mas Turandot chama-lhe ‘Amor’ no final da ópera, o que é muito bonito e contrasta bastante com a primeira parte da ópera, que é muito agressiva, musicalmente falando”, acrescenta Pascu, embora a versão do Operafest Lisboa e Oeiras tivesse um final alternativo, não feliz.
“No final mais habitual da ópera, na versão de Franco Alfano, após a morte de Liù, Calaf consegue derreter o gelo da princesa com um beijo e quando o povo e o imperador perguntam à soberana pelo nome do estrangeiro ela responde: ‘Amor’. Presume-se que ficam juntos e felizes para todo o sempre. A morte da Liù não tem o peso trágico e desintegrador que Daniela Kerck dá na sua versão, precipitando o fim da ópera no ponto em que o próprio Puccini morre”, explicou-me, para enquadrar, a soprano Catarina Molder, diretora-geral e artística do Operafest, festival que esta sexta-feira (e no sábado) leva a cena As Bodas de Fígaro, de Wolfgang Amadeus Mozart. Igualmente no Convento da Cartuxa.
De volta à conversa com Aida Pascu, esta admite que Liù, mesmo sendo um papel curto, muito mais curto do que muitos papéis femininos de Puccini, traz desafios: “Tem algumas particularidades, alguns altos e baixos em termos de intensidade, intensidade dramática. Em primeiro lugar, é um papel intenso de interpretar. Vocalmente falando, apresenta muitos extremos, desde partes muito fortes a árias muito delicadas e suaves que requerem cuidado técnico. Portanto, sim, pode apresentar-nos, a nós as cantoras, alguns desafios aqui e ali. Mas, no geral, a música está tão bem composta que é muito fácil deixarmo-nos levar e deixar que tudo flua por si”. E confessa que quando pensa nos grandes nomes que já interpretaram Liù, surge obrigatoriamente a italiana “Renata Scotto que neste papel será sempre mítica”, também a espanhola “Montserrat Caballé, extraordinária”, e entre as cantoras líricas contemporâneas, “uma das mais delicadas é Ermonela Jaho”, a grande soprano albanesa.
Nascida já na Roménia democrática, dez anos depois do derrube e execução do ditador comunista Nicolae Ceausescu, Aida Pascu confessa que foi escolha sua a carreira musical, mesmo que o ambiente em seu redor a tivesse influenciado muito: “Crescer numa família de artistas deu-me acesso a mais cultura do que talvez outras crianças da minha idade. Mas foi definitivamente a minha escolha e a minha paixão seguir esta vida, diria eu. Não é brincadeira. Eu cantava antes de falar, por isso, já meio que sabia desde sempre que era isto que queria fazer. Foi muito fácil para mim escolher o meu caminho na vida”. E prossegue: “Fiz parte do coro infantil da Ópera Nacional de Bucareste, o que me proporcionou o acesso a muitas partes de óperas que talvez não tivesse conhecido apenas como solista. Por exemplo, Turandot é uma das minhas óperas preferidas. E quando tinha 12 anos, sabia-a de cor, como todos diziam, porque ajudava em muitos ensaios e aprendi muito italiano com isso. Foi, no geral, uma experiência muito, muito bonita crescer enquanto criança ligada à música.”
Aproveito que tenha referido a aprendizagem do italiano, o idioma de Puccini, compositor desta Turandot (mas também de Tosca, Madama Butterfly ou La Bohème), para perguntar se é essa a grande língua operática em que mais se sente à vontade. “Gosto de cantar em italiano, e gosto de cantar em francês. De certa forma, também gosto de cantar em alemão, embora seja uma língua que ainda me falta aprender. Gosto de cantar em checo, obviamente a ária de Rusalka. Gosto de cantar em russo. As pessoas pensam até que o romeno e o russo são muito parecidos, mas não são. O romeno é sobretudo uma língua latina. Mas é muito interessante de observar, porque, na perspetiva de um cantor, cada língua tem uma forma natural de se encaixar na garganta, e isso como que vai mudando. Não muda a técnica, mas muda os espaços, a forma como percebemos os espaços em nós próprios, e isso é sempre muito, muito interessante de explorar com cada língua”, argumenta.
Há óperas, obviamente, cantadas em romeno, mas a mais célebre composta por um romeno, Édipo de George Enescu, tem libreto em francês, de Edmond Fleg. “Sim, é a mais famosa. Talvez por ser em francês e não em romeno tenha tido muita projeção internacional. O meu pai é um Édipo muito aclamado”, diz, referindo-se ao barítono Ionut Pascu.
“Na Roménia temos uma grande cultura operática. Cantei em três teatros romenos, com algumas orquestras filarmónicas e também na rádio. Mas nunca fiz um dos papéis femininos de Édipo”, sublinha.
Sobre a ligação entre a língua e a identidade nacional, sobre o quanto falarem um idioma latino influencia o modo de ser dos romenos, a soprano não hesita na resposta: “Diria que somos muito balcânicos, e posso afirmar com toda a certeza que vivemos muitos traumas geracionais pós-comunistas na Roménia até há pouco tempo. Portanto, no fundo, pertencemos aos Balcãs, como os vizinhos, mas esta herança latina, acredito, dá-nos mais acesso e fluidez na nossa relação com o extremo Ocidente, com a Itália, a França, a Espanha e Portugal. É sempre mais fácil para um romeno aprender estas línguas e estudar estas culturas. Estudei espanhol durante muito tempo, e também estudávamos latim na escola, que era uma disciplina obrigatória”.
A soprano, que logo a seguir a esta conversa, se deixou fotografar junto ao Tejo, sublinha a importância de o povo romeno ser, obviamente, latino, mas também balcânico. “Estamos a tornar-nos cada vez mais modernos, e as novas gerações são cada vez mais modernas a cada dia que passa. Mas ainda temos uma quantidade enorme de pessoas muito tradicionais, muito religiosas, e a nossa cultura ortodoxa é um pouco diferente e menos permissiva do que a do Ocidente, diria eu. Valorizamos a nossa cultura, as nossas tradições, de uma forma muito específica que eu compararia à vossa saudade, como um sentimento”, diz. E recorda que em romeno há uma palavra para traduzir saudade, que é dor, e não confundir com a palavra que significa dor, que é durere.
Comento que estive no verão passado em Bucareste, no Festival Enescu, um grande evento cultural, e que a cada visita à Roménia sinto que o país está em mudança. E desde 1 de janeiro de 2025 a adesão à União Europeia, que aconteceu em 2007, ganhou novo significado com a entrada do país no Espaço Schengen. “Há entusiasmo pela União Europeia. Estamos a modernizar-nos, em primeiro lugar, estamos a ter acesso a mais recursos, o que é muito bom. E Schengen faz uma enorme diferença, sobretudo para quem viaja muito, como eu. Penso que o acesso aos fundos europeus foi a principal melhoria até agora, do ponto de vista político. Mas algumas pessoas, por causa da nostalgia dos velhos tempos, um fenómeno muito comum no nosso país, não percebem realmente o quão benéfico isso é por completo. Estou a falar sobretudo das gerações mais velhas, infelizmente. Não se adaptaram tão bem. Mas para os jovens, a União Europeia proporcionou-nos muitas oportunidades”, sublinha Aida Pascu.
Pelas histórias ouvidas na família, também de cantores líricos de outras gerações, Aida Pascu conta que no tempo comunista não era fácil para um romeno ter uma carreira fora do país, e isto aplicava-se aos restantes países de leste: “na verdade, era um privilégio ter uma carreira internacional. Era preciso os contactos certos. A minha mestra, Raina Kabaivanska, que é búlgara, contou-nos como ia para Itália e teve de jurar ao governo italiano que não era uma espia búlgara. Portanto, não era fácil. Precisava-se de contactos, mas se se fosse artista, nos nossos países, era-se extremamente respeitado e tinha-se tudo o que se precisava do Estado. Portanto, havia lados positivos e negativos.”
Pergunto se hoje em dia um cantor lírico pode ser popular na Roménia. E desafio a soprano a não ser modesta. “As pessoas na Roménia gostam de ópera. E há pessoas que me conhecem. Algumas pessoas conhecem-me. Honestamente, isto deve-se principalmente ao facto de ter estudado em Itália e de ter iniciado a minha carreira internacional aos 23 anos. Portanto, foi isso que chamou a atenção sobre mim. Ultimamente, tenho feito mais estreias em papéis, talvez estreias um pouco ousadas para a minha idade. Assim, fiz as minhas escolhas e as pessoas repararam que sou bastante ousada nas minhas decisões e nas minhas escolhas. Mas assumo total responsabilidade, e aqueles que gostam dos meus programas certamente conhecem-me e divulgam o meu trabalho. Temos tanta gente que gosta de ópera e de outras categorias de música clássica”.

