O Operafest deste ano começa com Turandot, no Convento da Cartuxa, a 5 de agosto. É uma ópera de Giacomo Puccini - por quê esta escolha? É gosto pessoal seu ou há mais por trás disso?Já queria fazer Turandot no Operafest há algum tempo - já há duas temporadas que eu tentava. É uma ópera muito cara: uma pessoa tem de ter meios para a realizar. É um risco, porque é preciso investir num grande coro, trazer solistas internacionais - o papel de Turandot é muito exigente - e também é preciso ter recursos logísticos. E em 2025, quando passámos para a Cartuxa, em Caxias, pensei: não posso estrear o espaço da Cartuxa com uma ópera como Turandot. Por isso tive de optar, primeiro, por uma ópera menos complexa logisticamente - fizemos La Traviata - e este ano avançámos, finalmente, para Turandot, com encenação de Daniela Kerck. É uma ópera apaixonante, uma das favoritas de quase todos os amantes de ópera, também por estar rodeada de uma aura de fascínio e mistério. Desde logo, por ser a última ópera de Puccini, que ficou inacabada. E é também a única dele em que temos uma mulher malvada, que sujeita os pretendentes a enigmas e, se eles falharem, lhes corta o pescoço - uma mulher traumatizada pela história de uma avó que foi violada e destronada por um povo que invadiu e destruiu o seu território.Não vai contar a história toda…Não, não conto. Isto é só o início; a ópera começa no meio da confusão. Depois é uma grande aventura: uma autêntica banda sonora em que Puccini foi extremamente ousado harmonicamente, com o colorido oriental e chinês da escala pentatónica, porque é uma história passada na China - uma ópera de grande escala que, de facto, parece um filme de aventuras. Um pouco como Indiana Jones, mas de há um século. E, curiosamente, ainda bem que esperei para a fazer, porque assim aproveitamos para celebrar o seu centenário - eu nem sabia, e acertámos em cheio: foi a 25 de abril de 1926 que Turandot estreou. É bonito. A ópera ficou inacabada; o discípulo de Puccini, Franco Alfano, escreveu um final, sempre apresentado de forma polémica. Outros compositores também tentaram escrever finais. Tentaram e escreveram. E nós temos uma surpresa reservada ao público: só descobrirão qual a versão que vamos apresentar se vierem à Cartuxa.Saltamos de um italiano para um austríaco: Wolfgang Amadeus Mozart, com As Bodas de Fígaro, apesar de ser uma ópera em italiano. Qual foi o critério desta outra escolha do Operafest?Todos os anos encontro um tema aglutinador para o repertório que vou escolhendo, e há também uma grande vontade de ter uma programação o mais variada possível, que conjugue clássicos de várias épocas. A diversidade falta muito ao mundo da ópera, a nível global, e acho sempre apaixonante criar diversidade a todos os níveis: de programação, de público, de intérpretes, de propostas, de épocas, de repertório. Por isso é interessante ter a ópera romântica e também um pouco de classicismo, com Mozart, que é um génio. E achei que, estando em tema de enigma - toda a nossa vida humana é percorrida por enigmas, e os maiores enigmas humanos ainda estão por decifrar -, esta edição fica dedicada a esse caminho para o desconhecido, a essa tentativa de abrir portas e encontrar respostas.No fundo, temos um compositor italiano e outro austríaco, de épocas distintas -, mas na prática duas óperas cantadas em italiano. No ano passado tiveram também Mozart, com A Flauta Mágica, mas em português, não em alemão. Este ano não pensaram numa ópera famosa traduzida para português?Não. E sabe porque fiz a tradução portuguesa de A Flauta Mágica? Porque a primeira vez que apresentei essa produção era para público jovem e infantil - foi essa versão que levei depois ao Operafest. Estreei-a na Gulbenkian em 2005/2006, chamava-se A Pequena Flauta Mágica, porque não era a ópera integral - aliás, a versão que apresentámos no Operafest também não o era. Fui para português porque queria mesmo chegar ao público mais novo.Mas a experiência que reteve do ano passado foi de que o público gostou dessa versão cantada em português?Sim, e quando estreámos em 2005 também foi um grande sucesso. Tenho o historial de já ter feito La Bohème numa versão portuguesa passada no Bairro Alto, e também Os Palhaços. Porque, de facto, quando cantamos em português, a relação com a língua muda a nossa perspetiva e a nossa empatia com a própria ópera.Tanto a cantar como a ouvir?A cantar e também a ouvir, a fruir a ópera. Mas aqui não senti essa necessidade - até porque, cantadas em italiano, todas as óperas que apresentamos são legendadas. Aliás, temos legendagem dupla, em português e em inglês, para todo o público também internacional que nos visita. E o libreto de Lorenzo da Ponte para Mozart é tão magistral, tão incrível, que sinceramente não senti necessidade de apresentar uma versão portuguesa.Uma curiosidade: também como cantora lírica já cantou em várias línguas. Isso significa que os cantores líricos sabem todas essas línguas, ou pode cantar-se em alemão sem falar alemão?É assim: foneticamente conseguimos aprender uma língua, mas não é a mesma coisa. O alemão, por exemplo, é uma língua relativamente fácil de aprender foneticamente; o francês já é muito mais difícil, com mais sonoridades. Há hoje muitos cantores americanos e de leste europeu - de facto, se não fossem os cantores de leste, o mercado tinha acabado, porque as divas italianas e o grande mercado italiano de outrora já não existem..De leste, e também asiáticos?De leste, sobretudo. Os coreanos e os chineses...Fazem alguns papéis, mas de forma pontual - agora estão a chegar ao mercado, mas ainda não se fixam da mesma maneira.Estamos a falar de que países da Europa de Leste?Russos, muitos russos , e búlgaros, checos, ucranianos, lituanos, arménios, letões… Há grandes divas: Asmik Grigorian, lituana, que é uma das grandes divas atuais; Elina Garanca, que é da Letónia; ou Kristine Opolais, também da Letónia; e a prova disso é que também vêm do leste alguns nomes do Operafest, como a russa Olesya Golovneva, que é a nossa Turandot. E ainda Ermin Asceric e Aida Pascu. Eles tiveram de aprender francês, italiano… eu própria falo sete línguas: russo, italiano, francês, entre outras. Os cantores, geralmente, desenvolvem um ouvido muito apurado, e os maestros de ópera então falam muitas línguas - é incrível, porque vão desenvolvendo essa paixão ao ouvir tantas vezes os libretos e também por viajarem muito, acabando por aprender a língua. Mas, de facto, se aprendi foneticamente, se não domino bem uma língua, e sinto uma claustrofobia em palco, se uma pessoa se esquece da letra, como é que se desenrasca?Uma das outras propostas deste Operafest é o Cine-Ópera, na Cinemateca, que dá a oportunidade de ver filmes e documentários que funcionam como uma espécie de apresentação do mundo da ópera e de todos estes mistérios. Quer sugerir em especial um ou dois dos filmes sobre ópera que vão passar?Este ano arrancamos com E La Nave Va, do grande Fellini, uma grande homenagem à excentricidade e à loucura da ópera à italiana. É extraordinário e tem momentos de ópera - a certa altura os cantores vão à casa das máquinas e um deles começa a cantar; os maquinistas ficam doidos a bater palmas, os outros cantores ficam invejosos e tentam todos alcançar o agudo mais agudo. Isto é o paradigma da ópera: a competição, a paixão, a loucura. O filme retrata um bando de loucos do mundo da ópera, reunidos num navio, que vão prestar homenagem lançando ao mar as cinzas de uma grande diva desaparecida - julgo que há aí uma alusão a Maria Callas - junto a uma ilha grega. É um grande delírio surrealista à maneira de Fellini. Aconselho vivamente. Passamos também Turandot, de Franco Zeffirelli, de 1983 - uma encenação que serviu de base à produção estreada no Met em 1987 e que ainda hoje é referência.Quando diz “produção” quer dizer que é mesmo uma ópera?É uma produção - encenada por Franco Zeffirelli. Sim, neste caso é mesmo a ópera - não é um filme convencional, é uma ópera filmada tal como acontece na vida real, no terreno. Depois, aconselho também Aria, um delírio operático realizado nos anos 80 por um produtor inglês, que foi buscar Jean-Luc Godard e outros grandes realizadores como Ken Russell para, a partir de trechos de ópera, fazerem curtas-metragens. Aconselho vivamente, porque há para todos os gostos.Além disso, há também aquilo que chamam “Ópera Satélite”.Temos outros formatos na nossa programação: não apresentamos só os grandes clássicos - como já falámos, Turandot ou As Bodas de Fígaro - mas também novos formatos que se apropriam da matéria operática, tirando a ópera da sua zona de conforto e procurando outros caminhos. É também uma matéria mais fácil de trabalhar por quem não é entendido em ópera, mas que ainda assim trabalha essa matéria. Vou fazer, por exemplo, uma performance com a coreógrafa Tânia Carvalho em que vamos construir Anátema, em torno da obra de Camilo Castelo Branco: os temas recorrentes da vingança, da expiação, da incrível capacidade que os homens têm de se enganar uns aos outros e também de se reinventarem - sempre dentro do enigma. E, já que não falámos nisso, volto ao tema: As Bodas de Fígaro é também uma grande crítica social ao abuso das classes ricas, algo que continua completamente atual - no fundo, era o senhor feudal que tinha o direito a ficar com a noiva na noite de núpcias, o que não é direito nenhum. E temos ainda outra performance, Enigma Névoa Nada, do artista polifacetado Gustavo Sumpta.Já que fala das classes ricas: a ópera é muitas vezes associada a um produto caro, com bilhetes dispendiosos. Que esforço fazem para a tornar mais acessível e trazer novos públicos?Sem dúvida - comunicar com novos públicos e iniciá-los à ópera é mesmo uma grande prioridade, porque queremos partilhar com eles a paixão com que todo o festival é feito. Queremos que as pessoas se divirtam, se encontrem, descubram histórias que as comovam e que as toquem - é isso que, no fundo, procuramos.Mas há também uma vertente económica...A ópera é a arte performativa mais cara: é caro pagar uma orquestra com 70 músicos, é caro pagar um coro de 40 cantores - e nos teatros de ópera chegam a ser 80. Nós não trabalhamos com coros meramente participativos: o coro do Operafest Lisboa e Oeiras, que vai cantar na Turandot este ano, é composto por jovens solistas a quem damos oportunidade. O Operafest tem, aliás, uma grande preocupação em aliar serviço público a entretenimento, criando oportunidades de profissionalização e de desenvolvimento de novos talentos. Somos, de facto, um palco para novos talentos crescerem.O Operafest deste ano começa em Caxias, concelho de Oeiras, e termina no Teatro Camões, em Lisboa, com um concurso de ópera a 11 de setembro - encomendaram dois libretos ao dramaturgo Miguel Castro Caldas, abriram concurso a compositores, e há dois finalistas que vão apresentar as suas óperas, das quais sairá um vencedor. Quais essas óperas?Chamam-se Vida Secreta de Coisa, de Francisco Lima da Silva, e Último Andamento, de Pedro Laranjeira Finisterra. Vida Secreta de Coisa é em torno da inteligência artificial: é uma plataforma digital descontinuada que parte o coração por onde passa, e todos se apaixonam por ela sem que ela saiba bem o que fazer com esses sentimentos, sendo uma máquina. Estes textos têm sempre um grande sentido de humor e fazem crítica social de forma indireta e fascinante. Último Andamento, por seu lado, gira em torno da gentrificação e da desumanização das cidades, despojadas da sua população, onde as pessoas já não conseguem viver - só os “escravos” da Uber e os turistas continuam a chegar. A ópera começa com um namorado a apanhar a namorada na cama com o hóspede a quem tinham alugado um quarto da casa através do Airbnb. O título faz também uma citação à Sinfonia do Adeus, uma sinfonia célebre de Haydn, na qual os músicos vão abandonando o palco em sinal de protesto - Haydn escreveu-a para que a orquestra pudesse, dessa forma, reivindicar melhores condições de trabalho. Já naquela altura era assim..“Temos de ser imaginativos e encontrar formas de atrair a São Carlos jovens e famílias”