"Calaf é uma personagem muito complexa porque é um herói comprometido, não um espírito livre como a maioria dos heróis - como se poderia esperar de um herói de uma ópera italiana. É um herói que brilha, mas também um herói com muitas sombras, porque não é alguém que procura o bem ou que tenta salvar alguém; procura apenas salvar-se a si próprio, antes de mais, e à linhagem da qual descende. É um exilado político, basicamente um príncipe que perdeu completamente o seu reino e vê em Turandot a oportunidade de recuperar tudo o que perdeu e até mais, que é toda a China, não apenas a Mongólia. E não se importa com o que tiver de derrubar no caminho para recuperar o seu lugar no mundo. E isso faz dele, de certa forma, um anti-herói, porque não está a tentar salvar Liù ou o pai; está a tentar salvar-se a si e à sua linhagem”, explica Rodrigo Garull, que nesta noite interpretará o principal papel masculino em Turandot, que abre a edição 2026 do Operafest Lisboa e Oeiras.Turandot, a última ópera de Giacomo Puccini, vai estar em cena quatro dias (5,6, 8 e 9 de agosto) no Convento da Cartuxa, em Caxias, mas a conversa com o tenor mexicano foi em Lisboa, num café junto do Cais do Sodré. Nascido na Cidade do México e formado musicalmente na Áustria (Universidade Mozarteum de Salzburg) Garull admite que mesmo para um cantor experiente Calaf é “um papel difícil tanto em termos de interpretação como vocalmente. Vocalmente é um papel muito exigente, pois exige um registo muito agudo, mas, ao mesmo tempo, possui uma extensão média muito forte. Portanto, possui uma qualidade dramática que, na verdade, não se resume ao tempo, pois até é um papel relativamente curto, embora muito exigente nas suas poucas falas. Puccini é geralmente assim; há poucas falas, mas as que precisam de ser cantadas são muito exigentes”.Garull conta que a primeira vez que ouviu Turandot, “a ópera completa, não apenas a ária, foi com Plácido Domingo na gravação do Met, que é obviamente uma música fantástica, pois fiquei impressionado, ainda jovem, ao ouvi-la. Mas depois ouvi a gravação de um tenor geralmente pouco conhecido, chamado Eugenio Fernandi, e embora a sua voz não seja particularmente bonita, gostei muito da maneira como interpretou a ópera de uma forma tão italiana. Depois, claro, há todos os nomes famosos, como Mario Del Mónaco. Sou um grande fã de Del Mónaco, por isso gostei muito de como ele imprimiu a masculinidade em cada frase. Mas também vale a pena destacar todos os tenores que não são tão conhecidos hoje em dia, como Aureliano Pértile ou Giacomo Lauri-Volpi. A primeira vez que cantei Nessun Dorma durante tanto tempo foi por causa de Lauri-Volpi. E ele tem, obviamente, um timbre muito especial e uma grande facilidade para as notas agudas, o que significa que repetir isto sempre, como o público espera, é um grande desafio, um grande desafio para qualquer tenor.”.Com Garull a relembrar-me que Domingo era espanhol mas cresceu no México e lá começou a carreira, pergunto como ganhou o Calaf desta noite, o jovem Rodrigo, o interesse pela ópera. “Sempre gostei de música, e gostava ainda mais de cantar do que de música. Um dos meus avôs era espanhol, de Aragão. Cantava-se muito em casa, na família, e foi assim que me habituei à música. E no México, a música está em todo o lado, por isso, através dos coros, através dos mariachis que vêm sempre às festas, fui-me interessando cada vez mais pela música. E, finalmente, quando vi Carmen e Das Rheingold no México pela primeira vez, foi aí que fiquei cativado. Mas o que realmente selou o negócio foi ver uma gravação de Otelo, de Giuseppe Verdi, com Plácido Domingo, na famosa gravação de Zeffirelli na televisão. Depois de ouvir a ária final de Otelo, fiquei impressionado e disse: Quero ser cantor’”. Refiro a Garull que estive há umas semanas na Cidade do México e que fiquei impressionado com o Palacio de las Bellas Artes, que julgo ser hoje a grande sala da capital mexicana. “É um teatro relativamente moderno. Na verdade, foi inaugurado quase em 1934 para sermos exatos, e a tradição operática é anterior. Há também o Teatro de la Ciudad, que foi renovado nos anos 2000 com a ajuda de Plácido Domingo, onde os pais de Plácido Domingo apresentavam grandes espetáculos de zarzuela. E o Teatro de la Ciudad recebeu realmente óperas durante muito tempo. Mas lembro-me de ter visto no Palacio de las Bellas Artes Romeu e Julieta de Gounod pela última vez em 2005. Recordo-me bem porque o vi com Rolando Villazón e Anna Netrebko nos papéis principais. E desde então, não tive vontade de voltar a ver esta ópera, porque foi um momento extraordinário para mim ver aqueles dois cantores no auge das suas carreiras a interpretá-la.”.Sobre qual o tenor ou barítono mexicano que mais o marcou, Garull responde que foi “um cantor de ópera que não é considerado um cantor de ópera. Jorge Negrete, que era um grande cantor de música ranchera; entrou em muitos filmes. Era cantor de ópera, mas como não teve sucesso, dedicou-se à música ranchera. E sempre foi muito infeliz com isso, porque dizia que a sua voz era demasiado elegante para aquele estilo. Mas, na verdade, para mim, crescendo no México, ouvindo a sua música e a sua forma de cantar, bem, no final de contas, isso educou-me. A sua musicalidade era um modelo a seguir. E, claro, há Plácido Domingo, que é hispano-mexicano, sempre um grande exemplo, sobretudo pela sua completude artística. E depois dele, tenho de admitir que, sobretudo durante os meus estudos, Rolando Villazón foi um grande modelo. Para mim, a sua interpretação de Werther é uma das melhores. A maneira como ele criou arte com a sua voz, para mim, essa experiência com Werther é irrepetível; é para mim a referência”.Pergunto a Garull se alguma vez teve oportunidade de participar em Montezuma, ópera de Antonio Vivaldi sobre o imperador asteca que teve de enfrentar os conquistadores espanhóis encabeçados por Hernán Cortés? Diz que não, mas admite que “a história mexicana é riquíssima em personagens dignas de ópera, coisas que nem imaginas que sejam reais, coisas que seriam perfeitas para uma ópera. Como o herói ser aquele que morre no final, quando os vilões estão a ganhar, ou o presidente a ser carregado num baú para não ser visto pelos inimigos. Quer dizer, são coisas surpreendentes que simplesmente não se consegue imaginar. Ou que simplesmente convoquem o povo às armas com o toque de um sino para lutar contra o poder espanhol. Ou que um antigo herói da independência regresse para lutar por uma determinada causa, e a primeira coisa que fazem é prendê-lo para fuzilá-lo. Seja a favor ou contra, são coisas operáticas”, sublinha o tenor mexicano, em referências várias a episódios históricos do seu país. O toque do sino, por exemplo, refere-se a Miguel Hidalgo, o sacerdote que é considerado o pai da pátria, líder da revolta de 1810, lançada com o famoso Grito de Dolores.Na Turandot do Operafest, em que a russa Olesya Golovneva interpreta Turandot e a romena Aida Pascu é Liù, Garull dividirá a interpretação de Calaf com o tenor Ermin Asceric (que atuará dias 6 e 9)..Catarina Molder: “O Operafest tem uma grande preocupação em aliar serviço público a entretenimento”