Teolinda Gersão: "Fui envelhecendo, mas os meus livros não"

Escritora celebra 40 anos de vida literária em que recebeu vários prémios.

Entre Silêncios, livro com que Teolinda Gersão se estreou, e o novíssimo Regresso de Júlia Mann a Paraty há 40 anos de diferença. Mais de duas dezenas de livros e vários prémios depois, a autora de obras marcantes como A Árvore das Palavras ou O Cavalo de Sol mantém o estado de enamoramento contínuo perante a escrita e as possibilidades ilimitadas que esta lhe confere. "Vou escrevendo o que não sei", destaca.

Os 40 anos que já passaram desde o primeiro livro representam metade da sua idade, mas valem por uma vida inteira?
Escrever é uma necessidade fundamental para mim, faz parte da minha vontade de ver o mundo e arrumar ideias.

O que torna a ficção ainda tão interessante para si, ao fim destes anos todos?
Para ser válida, a ficção tem de ser genuína e dizer mais do que a aparência das coisas. O mundo está cheio de narrativas falsas, de desinformação, de literatura descartável. É gratificante ver que os meus livros continuam absolutamente atuais. Tive razão antes do tempo. Fui envelhecendo, mas os meus livros não.

Com o acolhimento tão favorável que os seus livros tiveram desde o início, não acredita que podia ter publicado antes?
Gostei muito de ter sido professora. Deu-me uma liberdade imensa para que pudesse depois dedicar-me à escrita. O meu compromisso sempre foi com os leitores.

É hoje uma escritora muito mais segura do que há 40 anos?
Nunca há segurança. Admiro imenso o Saramago - é um enorme escritor -, mas não gostaria de ter um certo formato, como ele. Tinha uma ideia brilhante e depois preenchia-a. Não gostaria de ser assim. Gosto de inventar a forma de contar de acordo com cada livro. Cada história escolhe a sua forma de ser contada. Dá-me muito prazer procurar e encontrar essa forma. Trabalhamos sem rede e estamos sozinhos quando criamos.

Seria bem mais fácil repetir fórmulas de livro para livro.
Sem dúvida, mas também seria muito aborrecido. Perdia o prazer do desconhecido. Vou escrevendo o que não sei.

Escreveu que ler pode ser fácil, mas escrever não é. Hoje é mais vigilante no ato da escrita?
Normalmente faço uma primeira revisão em que não vigio nada. É uma versão muito lúdica. Depois é que revejo com um grande sentido crítico: corto muita coisa e faço com que tudo encaixe para que nada fique a mais ou a menos.

O que fica de fora pode ser tão decisivo como o que é incluído?
Pode. Corto imenso material que guardo e acabo por aproveitá-lo depois para outros projetos. Não deito nada fora.

Os 40 anos são assinalados com dois livros, uma reedição e um novo. Para si, é fundamental que, além de novas edições, haja também novas criações?
Sem dúvida. Se parar de escrever, uma parte de mim morre. Gostaria de sair ainda numa fase ascendente. Quando sentir que não tenho mais nada a dizer, deixarei de escrever. Há muito mais coisas na vida: as pessoas, o mundo, os ideais, as causas....

No novo livro, escreve sobre Freud e Thomas Mann, dois vultos que foram incapazes de alertar os alemães para o perigo do regime nazi. A cultura e a razão nem sempre chegam para travar o mal?
Infelizmente, não. O ser humano está cheio de defeitos. Somos uma mistura de bem e mal e só a vigilância nos pode obrigar à retidão.

Vê semelhanças inquietantes entre esses tempos e os atuais?
​​​​​​​Ainda há pouco assistimos a acontecimentos impensáveis nos EUA, com a invasão do Capitólio. Tenho esperança de que podemos aprender alguma coisa com as lições terríveis que temos tido. Acima de tudo, tenho esperança nos jovens.

Sejam romances, novelas ou contos, os seus livros são sempre uma amostra da realidade. O "mundo vasto e vário" continua a surpreendê-la?
Todos os dias! Somos confrontados a toda a hora com factos ou acontecimentos que julgávamos impensáveis.

As abstrações nada lhe dizem?
Se quisesse escrever sobre ideias, escreveria um ensaio. Como, aliás, já escrevi vários. Preciso da realidade concreta, da vivência, de entrar na sua pele, de ver pelos seus olhos. Gosto de imaginar a partir de dados concretos.

"Todas as pessoas são fascinantes, mesmo que não o saibam", como escreve num conto?
Acho que não há vidas inúteis nem pessoas menores. Todas as pessoas têm uma história cheia de sentido para contar. Assim saibamos escutá-las.

Como é que uma escritora cujos livros contêm um olhar analítico sobre as relações humanas vê os efeitos da pandemia no comportamento das pessoas?
​​​​​​​É muito cedo. Estamos no olho do furacão. Estamos todos cansados do isolamento, da doença e das notícias catastróficas que todos os dias nos chegam, assim como das falhas de planeamento no país para o combate à pandemia. Vamos ver se depois disto tudo aprendemos a ser menos consumistas e a cuidar mais do planeta. Receio que não se aprenda nada. Normalmente, a humanidade não aprende com os seus erros.

sergio@jn.pt

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