Teatro do Bairro Alto: uma nova vida para o palco da Cornucópia

O antigo teatro da Cornucópia dá lugar ao TBA - Teatro do Bairro Alto, com direção artística de Francisco Frazão. Abre esta sexta-feira em Lisboa para ser um espaço de experimentação e inclusão. E algumas surpresas.

Chama-se Teatro do Bairro Alto apesar de não ficar bem no Bairro Alto, mas entre o Príncipe Real e o Rato, e de isso gerar enormes (e umas vezes divertidas, outras vezes irritantes) confusões com o outro Teatro do Bairro. Mas não podia ser de outra forma. Francisco Frazão, o diretor artístico deste teatro que hoje (re)abre as portas ao público, quis manter o nome que lhe deu a Cornucópia, companhia que ocupou aquele espaço durante 40 anos.

Mas não é só o nome nem o relógio, pintado numa parede e herdado do espetáculo Cimbelino (2000), que se mantêm. Um pouco menos de três anos depois do encerramento da Cornucópia, e agora sob a gestão municipal da Egeac, o Teatro do Bairro Alto teve as obras necessárias e está todo renovado, mas, apesar das paredes pintadas, da nova sinalética e de a bilheteira ter avançado uns metros, o espaço mantém a estrutura que já conhecíamos e, para quem era espectador antigo, ao entrar naquela blackbox e sentar-se na plateia há uma sensação de regresso a casa. Uma memória que se preserva. Francisco Frazão confirma que "a relação com o espaço vem da experiência como espectador aqui" e que está contente por terem "conseguido não estragar": "Como se diz na medicina, first do no harm - acho que foi um bocadinho o lema que orientou a intervenção".

A intervenção passou sobretudo por tornar o teatro mais seguro e mais acessível. O elevador ainda não está lá mas vai chegar até ao final do ano e a preocupação com a acessibilidade e a inclusão foi levada a sério. Pequenas pormenores que fazem a diferença: plataformas, casas de banho sem género, um fraldário, cacifos (em vez do tradicional bengaleiro). No verão do próximo ano, haverá mais obras, nas traseiras, para remodelar camarins (e haverá também um camarim acessível) e espaços de trabalho. Para já, os custos da intervenção rondam os 751 mil euros, dos quais 280 mil foram investidos em equipamento técnico.

A sala de espetáculos mantém a versatilidade que já a caracterizava e que acaba por ser uma das suas grandes vantagens. O palco pode ser usado como tal ou pode ser uma sala secundária, a plateia terá a configuração que cada artista desejar, num total possível de 200 lugares sentados. "Todo o equipamento é novo, havendo por um lado uma preocupação ecológica e por outro com o tornar a sala mais eficiente, com mais facilidade na montagem e desmontagem dos espetáculos", explica Francisco Frazão. Afinal, este será um teatro de acolhimento, com uma rotação de programação que exige mais rapidez, muito diferente do ritmo de trabalho que tinha a Cornucópia. "São modelos de produção muito distintos", diz o diretor. A (re)abertura do Teatro do Bairro Alto representa também "o fim de uma maneira de fazer as coisas que deixa de ser possível em Lisboa", admite.

Descendo as escadas, a surpresa da intervenção do cenógrafo José Capela ocupa todo o foyer e a Sala Manuela Porto. Chama-se Deslocação de um baldio ao fundo da rua e o título é bastante explicativo: ao fundo da rua Tenente Raul Cascais existe um espaço baldio que é usado como parque de estacionamento pago. O artista forrou paredes e chão da sala com fotografias em tamanho real desse baldio, com as ervas, as beatas de cigarro, as pedras e os buraco no chão. Tudo tão realista que é impossível não tocar só para se ter a certeza que não vamos sujar os sapatos na terra.

Experimental, emergente, internacional

Este novo Teatro do Bairro Alto surge do fim da Cornucópia mas também do fim do projeto do Teatro Maria Matos - com a saída do então diretor Mark Deputter para a Culturgest e com a consequente mudança de Francisco Frazão da Culturgest para aqui. A dança das cadeiras fez, entretanto, uma vítima: o concurso para a concessão do Teatro Maria Matos foi impugnado por um dos concorrentes e o teatro continua fechado. "A impugnação judicial do concurso está a correr os seus termos desde setembro de 2018 não existindo até ao momento qualquer desenvolvimento", informa-nos a Egeac.

Francisco Frazão não fica alheio a esta conjuntura. "Com o fim do projeto do Maria Matos e com a passagem da Culturgest para, sobretudo, projetos de grande escala no grande auditório, ficava a faltar em Lisboa uma sala de média e pequena escala para projetos nacionais e internacionais, mais experimentais", diz. E é precisamente essa lacuna que o Teatro do Bairro Alto quer preencher: "Especializar é uma ideia interessante para uma cidade como Lisboa, que tem muita programação. Há outros teatros que também têm projetos experimentais e programação internacional mas nós vamos ser mais regulares nessa dedicação", explica o diretor. A programação será, portanto, "experimental, emergente e internacional". E sublinha que "emergente é tomado em mais do que um sentido: não é só quem está a começar e ainda não é conhecido, pode ser quem está subrepresentado ou pode ser um termo não aplicado a um artista mas uma prática ou a um género, emergente como aquilo que está a vir à superfície, ainda não é claro o que é, que nome tem, se gostamos ou não gostamos. A perplexidade também é uma boa reação perante objetos que queremos apresentar."

Para a sua equipa, Francisco Frazão trouxe mais três programadoras: Laura Lopes (artes performativas), Diana Combo (música) e Ana Bigotte Vieira (discurso). "Sentimos que discurso é algo que faz falta - escreve-se pouco, fala-se pouco, pensa-se pouco sobre os objetos artísticos e sobre tudo o que rodeia as práticas artísticas, sobre a cidade, a subrepresentação, a acessibilidade..." Na prática, a programação tem sido construída "numa mistura de desafios a pessoas ou grupos de pessoas e de propostas que fomos recebendo. São sobretudo acolhimentos e co-produções, não há orçamento para produções próprias". Embora este seja um ano atípico, a "bitola" são 650 mil euros por ano para a programação. A programação até dezembro inclui concertos e espetáculos, com destaque para o regresso a Lisboa do encenador britânico Tim Crouch e do brasileiro Alex Cassal. Há ainda um novo espetáculo de Raquel Castro, Turma de 95.

No logótipo e nas conversas o Teatro do Bairro Alto é também chamado de TBA, "que em inglês é a abreviatura para to be announced, o que se liga com uma preocupação que foi transversal, de há um ano para cá, de ir começando, de não haver um grande momento de abertura, com um enorme estrondo, mas de ter vários começos". O TBA tem se vindo a apresentar online desde janeiro, nas redes sociais, através de vídeos e podcasts; depois em junho e julho apresentou uma programação "fora de portas" e agora, abre, finalmente, as portas com um programa de três dias, que, mais do que um acontecimento quer ser um convite a que as pessoas, todas as pessoas, sintam curiosidade e visitem o teatro.

Trata-se, antes de mais, de colocar perguntas em vez de apresentar respostas. "Não jogar pelo seguro, essa tem sido uma constante em toda a equipa do teatro, não apenas na programação. Porque é que não fazemos de outra maneira? Porque é que não experimentamos? Essa interrogação é permanente. Porque é que não podemos ter bebidas dentro da sala? Porque é que precisamos de casas de banhos separadas por género?" Mostrando que um teatro pode ter uma longa história mas também pode ser completamente novo.

Programação da abertura

Espetáculos, bilhetes: 5 euros:
Chroma_don't be frightened of turning de page, de Alessandro Sciarroni - de sexta a domingo às 21.30
Hidebehind, de Josefa Pereira - de sexta a domingo às 20.00

Conferência, entrada livre:
Poetry and Chaos, Franco "Bigo" Berardi, sábado, 18.00

Veja a programação do TBA até ao final do ano no site oficial.

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