Tudo começou em 2019 quando a administração do Teatro Nacional D. Maria II começou a procurar financiamento para melhorar as condições de trabalho dos funcionários do teatro. Quando o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) passou a prever verbas para a Cultura, o TNDM II viu ali a oportunidade para avançar com as obras, transformando a antiga sala de cenografia, onde se pintavam os telões - e que entretanto passara a ser usada como sala de ensaios - num espaço para escritórios. O open space revestido a madeira inclui três "cápsulas", espaços mais privados para telefonemas ou reuniões, um mezanino com gabinetes e sala de reuniões, uma copa e um jardim de inverno que inunda a sala de luz. Uma grande mudança, porque muitos dos gabinetes não tinham janelas. Ali ficarão instaladas 38 pessoas de todas as direções, como a artística, de produção ou de comunicação e marketing, com exceção das direções administrativa e financeira e técnica. ."Estou muito orgulhoso desta intervenção no teatro, mas esta é a pièce de résistance, foi aqui que tudo começou", diz Rui Catarino, presidente do conselho de administração do TNDM II, na visita guiada ao edifício na passada quarta-feira, 24 de junho. Mais tarde, numa intervenção que antecedeu a apresentação da temporada 2026/2027 sublinharia que "não há democracia cultural sem trabalho cultural digno". O diretor artístico do teatro, Pedro Penim, que também acompanhou a visita, acrescentou que houve "uma correção das más condições de trabalho deste edifício", considerando a reconversão da antiga sala de cenografia "a joia da coroa".Para melhor se chegar a essa área do teatro derrubou-se uma parede no piso inferior e construiu-se uma escadaria respeitando o estilo das outras existentes no edifício. O teatro não perdeu salas de ensaio, ganhou um novo espaço com melhores condições para espetáculos mais pequenos. "Serve-nos bem, duas salas de ensaio neste edifício, é uma benção", diz Pedro Penim. .Outra "conquista muito grande", aponta Rui Catarino, é a sala de costura, onde uma equipa de seis pessoas se dedica ao guarda-roupa. O espaço era mais compartimentado e não tinha janelas. Ganhou três, permitindo trabalhar com luz natural. O teatro será um dos poucos com um departamento de guarda-roupa. Rui Catarino considera que é "um esforço de cumprimento de uma missão que também é do Teatro Nacional de Dona Maria II, o da manutenção e valorização dos mesteres teatrais. Ou seja, numa altura em que há uma enorme tendência no outsourcing, porque fica mais barato, para um conjunto enorme de coisas que um teatro precisa para funcionar, nós fazemos mesmo ponto de honra de não só qualificar uma equipa de guarda-roupa, porque é um conhecimento que não se pode perder, como de outros mesteres teatrais".Rui Catarino revela que também foi reativada a área de produção de adereços, que o teatro perdera, tendo neste momento uma pessoa dedicada a essa área. "Da mesma maneira que, com a reforma dos dois últimos pontos teatrais que existiam em Portugal, nomeadamente agora mais recentemente da Cristina Vidal, temos vindo a promover ações para formar pontos teatrais, que é uma coisa que parece fácil, mas que precisa de técnica, de conhecimento, que só se aprende fazendo, nomeadamente fazendo com os mestres, como é a Cristina Vidal, que fizeram disto a sua carreira". .Voltando ao edifício, em todo o lado onde foi possível abrir janelas, isso foi feito. Aconteceu, por exemplo, num corredor conhecido internamente por "Avenida de Roma", revela Rui Catarino. Naquele corredor, sem luz natural e sem ventilação, funcionavam os escritórios da área de Produção. Agora, destaparam-se janelas e espreitando por elas vê-se a Praça D. Pedro IV. "Quando o teatro reabriu, em 1978, havia muito poucos espaços administrativos", sublinha Rui Catarino, explicando o uso que foi dado àquele corredor. O edifício esteve 14 anos encerrado após o incêndio que deflagrou a 2 de dezembro de 1964 e que destruiu todo o interior, ficando apenas as paredes exteriores.Aquele corredor será agora um espaço expositivo de adereços, figurinos e documentos do teatro nacional, e acolherá a exposição 180 anos do Teatro Nacional D. Maria II, com curadoria de Paula Gomes Magalhães. "A exposição pretende-se que seja mais ou menos permanente, que possa estar aqui muito tempo, ser não só comemorativa, mas dar uma ideia geral, mas ainda assim muito importante, do que são estes 180 anos do teatro, desde a sua fundação". .A visita prossegue para mostrar mais uns dos destaques desta obra, um piso novo, intermédio (com esta obra de requalificação, a numeração dos pisos alterou-se, o antigo piso zero é agora o -3), que permitiu ganhar espaço de armazenamento e trabalho. Neste piso vê-se o mecanismo do palco rotativo, que também foi alvo de modernização. O acesso ao palco rotativo está agora protegido. “Estas grades não existiam, metia medo quando o palco rotativo funcionava, não cumpria de todo os requisitos de segurança atuais”, diz Rui Catarino.A intervenção neste equipamento foi possível graças a uma dotação adicional do PRR em maio de 2025, de mais 5,5 milhões de euros, a juntar aos 9,6 milhões que já tinham sido atribuídos. O que também contribuiu para que as obras no teatro se prolongassem muito para além dos seis meses inicialmente previstos, com o edifício de portas fechadas de janeiro de 2023 a junho de 2026. E o que mudou no espaço principal do TNDM II, a Sala Garrett? As cadeiras são as mesmas (estão muito bem mantidas, diz Rui Catarino), mas os dourados brilham mais, o revestimento em tecido das paredes foi substituído e a alcatifa também. "A sala parece que está exatamente como estava quando nós fechámos há três anos, mas na realidade houve uma intervenção patrimonial importante, todos os tecidos que revestem as paredes da sala foram substituídos mantendo as características acústicas, todos os dourados foram restaurados, a sala foi toda pintada, está um bocadinho mais escura, faz mais contraste com os dourados e espalha menos luz cénica pela sala, o que é bom para os iluminadores". Já não há "fantasmas" no D. Maria Esses melhoramentos são visíveis ao público, mas a parte mais importante desta obra do PRR está escondida e envolve, por exemplo, o sistema de combate a incêndios e a climatização. "Alterámos completamente o sistema de ar condicionado, que era conhecido por, de vez em quando, fazer umas pequenas correntes de ar na nuca das pessoas - falava-se que eram fantasmas de atores passados - e que agora estará muito mais confortável e adequado. Houve intervenções nos mecanismos de suspensão de iluminação, estão mais bem embutidos nos balcões, a sala fica muito mais clean, e substitui-se a cablagem dos sistemas eletroacústicos - essa sim, completamente invisível -, que permite montagens técnicas muito mais flexíveis na sala do que tínhamos antes, ou seja, não é preciso estar a passar cabos para tudo e mais alguma coisa". .Francisco Pólvora, arquiteto responsável pelo projeto, explica que a prioridade foi melhorar as condições de trabalho dos funcionários e a segurança do próprio edifício, mas aponta também para as "imensas melhorias na Sala Garrett que não são visíveis". "Todo o sistema de som, cerca de 15 quilómetros de cabos que estão dissimulados em zonas que passam em calhas técnicas na parede, de forma a poderem ser intervencionados, e as condições de conforto na sala foram muito melhoradas. A ventilação e a climatização da sala foi totalmente alterada, em vez de funcionar de cima para baixo começou a funcionar de baixo para cima, com sistemas muito mais suaves e muito mais eficientes do ponto de vista energético."O arquiteto sublinha que a intervenção não abrangeu a totalidade do teatro, o que acabou por se tornar no maior desafio do projeto - pensar o edifício como um todo, não podendo intervir em todas as partes. "Havia intervenções parciais pensadas, mas que num teatro, como é uma infraestrutura muito complexa do ponto de vista técnico, acaba por desligar o edifício todo". O projeto original do Teatro Nacional D. Maria II, de estilo neoclássico, é do arquiteto italiano Fortunato Lodi, mas após o incêndio de 1964, o interior foi refeito. "Foram criadas muito melhores condições do ponto de vista cénico, mas também mais pisos que, por exemplo, encerravam muitas janelas e continuam a encerrar algumas, para o exterior. Nós sempre que pudemos, nessas zonas onde intervimos, abrimos essas janelas para aumentar a relação do teatro com o exterior e da cidade com o edifício", diz Francisco Pólvora. .O projeto de requalificação também abrangeu as fachadas deste teatro construído entre 1842 e 1846. "Foi possível estender a intervenção aos exterior e às fachadas do edifício. Foi criada uma equipa de conservação e restauro, fizemos o tratamento e a recuperação de todas as fachadas". Foi igualmente instalada uma nova identificação exterior do teatro, criada pelo designer Pedro Falcão, em bronze, com o objetivo de "dar a sensação que sempre lá esteve, e acho que isso foi muito conseguido", considera o arquiteto. .O átrio é o único espaço interior que se manteve do edifício original antes do incêndio de 1964, e aí a intervenção foi reduzia, passando sobretudo pela livraria. "Quando chegámos à livraria, o que encontramos foi um espaço que tinha um pé direito muito interessante, e trouxemos a influência dos caixotões que se veem por baixo do teto do frontão, voltado para o Rossio, criando um módulo que faz tanto o revestimento das paredes, como do teto. Esse módulo serve de estante para a livraria, mas ao mesmo tempo integra todos os sistemas de absorção acústica, de climatização, de iluminação, e portanto criámos um módulo que se repete em caixotões", explica o arquiteto. Os 15,1 milhões de euros do PRR canalizados para esta intervenção no TNDM II estão executados a 98%, adianta Rui Catarino. Ainda falta concluir alguns detalhes, como a nova sinalética, até ao arranque da temporada 2026/2027, no dia 18 de setembro. .Clássico ‘Macbeth’ abre temporadaDiretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II desde 2021, a programação de Pedro Penim nos últimos anos desenvolveu-se sobretudo fora de portas devido ao encerramento do teatro para obras. A temporada 2026/2027, que apresentou na última quarta-feira, 24 de junho, já foi pensada para a Sala Garrett e a Sala Estúdio. .Macbeth na reabertura do Teatro D. Maria II, com entrada gratuita entre 18 e 20 de setembro.Pedro Penim decidiu arrancar o novo ciclo com o texto Macbeth de William Shakespeare, numa versão traduzida por si. Diz que o objetivo era usar a mesma tradução da produção de 1964 naquele teatro, do poeta brasileiro Manuel Bandeira. “Mas, infelizmente, nunca conseguimos obter os direitos desta tradução. E eu estava tão obcecado com a tradução de Manuel Bandeira que, depois, todas as outras traduções que lia me pareciam ineficazes para aquilo que já tinha imaginado para o espetáculo. E quase que fui encurralado - por mim próprio - para esta empreitada de ter de ser eu a traduzir o texto.”Com Macbeth Pedro Penim vai “desafiar o destino” nesta reabertura do TNDM II, pois quando deflagrou o incêndio que destruiu todo o interior do edifício, em 1964, era esta a peça que estava em cena. O espetáculo, que será apresentado na Sala Garrett de 18 de setembro a 31 de outubro, será protagonizado por José Raposo e Bárbara Branco. “É um ator que tem uma coisa que era absolutamente fundamental de encontrar neste Macbeth, que é o facto de ser muito popular, mas ao mesmo tempo, ter uma capacidade de ser um ator de texto e um ator erudito. E hoje mais ninguém consegue contrabalançar esta duplicidade como o Zé consegue. E, depois, a Bárbara Branco, que para mim é um contraponto tão excitante que só me apetece vê-los já a ensaiar”.Pedro Penim quer apostar em carreiras mais longas para os espetáculos, de no mínimo seis semanas na Sala Garrett. “Carreiras mais longas custam mais dinheiro também, por isso é preciso reequilibrar esta vontade”, sublinha. Há ainda outro exercício a fazer: “Há uma necessidade grande de criar equilíbrio entre aquilo que é expectável que o Teatro Nacional deva fazer, nomeadamente de tratar a memória e recontextualizá-la à luz do nosso tempo, e conseguir continuar a ser um teatro de futuro”. Outro objetivo é atrair “a grande diversidade da população lisboeta”, com cada vez mais residentes estrangeiros. Os espetáculos terão legendas em inglês. .Rui Catarino: “Reprogramação do PRR pode dar mais dois a 5,5 milhões para obras no D. Maria II” .Pedro Penim: “Estou a fazer exatamente aquilo que quero. Mas sei que não será consensual”