Estreia esta sexta-feira, 9 de janeiro, no Teatro Municipal Joaquim Benites, em Almada, a peça Johnny Johnson, uma produção do Teatro Nacional de São Carlos que, nas palavras que o encenador, Mário João Alves, disse ao DN, “não é bem o tipo de coisa que as pessoas vão ver e depois metem para o saco dos indiferentes”. A dimensão política e ética da obra, descrita na apresentação do São Carlos como “uma sátira mordaz envolta em melodia e loucura”, é o segredo para a contundência deste espetáculo.Estreado em Nova Iorque em 1936 sob a forma de evocação da I Guerra Mundial, no mesmo ano em que a Europa caminhava para um novo conflito global, Johnny Johnson ocupa um lugar inaugural no percurso de Kurt Weill. “Foi a primeira coisa que ele escreveu quando chegou à América”, sublinha ao DN o diretor musical João Paulo Santos. Fugido da Alemanha nazi, depois de passagens por Paris e Londres, Kurt Weill residia, na altura, num território estético de transição. Estava ainda longe do formato clássico da Broadway que viria a consagrá-lo, mas já estava a absorver códigos do novo contexto cultural americano. “Apesar de estar anunciado como musical, isto não é um musical no sentido da Broadway”, esclarece João Paulo Santos, acrescentando que se trata de “uma longa peça de teatro com canções. Eles próprios chamavam-lhe a play with music” (que numa tradução livre para português é literalmente uma peça com música), insiste o maestro, referindo-se a nomes simultaneamente ligados ao teatro e a Kurt Weill, como Marc Blitzenstein e o próprio dramaturgo, romancista e poeta Bertolt Brecht.A inspiração do texto está radicada em O Bom Soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, que surge como sátira feroz ao aparato militar e ao absurdo, por vários motivos, da guerra. Em Johnny Johnson, esse espírito transita para os Estados Unidos da América, mas mantém intacta a crítica à lógica bélica. O protagonista é “um pedreiro idealista de uma pequena cidade que decide esculpir um monumento à Paz”, precisamente quando o seu país entra na I Guerra Mundial. “Recrutado apesar do seu pacifismo, a inocência de Johnny é desafiada pela máquina de guerra da modernidade: do patriotismo ingénuo entre os seus conterrâneos, à farsa grotesca de generais planeando chacinas, enquanto bebem champanhe. A sua compaixão leva-o a desobedecer a ordens, a tentar uma trégua e, enfim, a ser diagnosticado louco”, descreve o material de apresentação do São Carlos..A sátira nunca surge, contudo, numa única dimensão. Weill articula canções, cenas declamadas, paródias de marchas militares, ritmos de jazz e momentos de lirismo, que desembocam num mosaico estilístico que exige dos intérpretes uma permanente mudança de registo. “Uma das dificuldades é precisamente essa mudança de tom, de espírito, de número para número”, observa João Paulo Santos, destacando que “estamos num universo completamente diferente a cada momento. Só alguém com a formação do Weill consegue fazer isto sem que tudo fique igual.” A sua escrita revela, segundo o maestro, a marca de uma sólida formação, porque, observa, “há sempre um acorde que não é o que se está à espera, uma contramelodia que só alguém que estudou verdadeiramente contraponto poderia imaginar”. Apesar disto tudo, toda a peça é acessível a qualquer pessoa e não implica qualquer contexto para ser apreciada, garante o maestro.A produção agora apresentada em Almada resulta de uma redução do texto original, que teria quatro atos e uma duração impraticável nos moldes atuais. A adaptação dramatúrgica, assinada por Mário João Alves, procurou preservar a narrativa sem sacrificar a força musical.“O Mário Alves arranjou maneira de reduzir a ação de maneira a que quem esteja a ouvir as anções perceba onde estamos e do que é que estamos a falar, mas basicamente é uma redução prática para que a partitura funcione”, explica João Paulo Santos.Por seu lado, para Mário João Alves, a dimensão mais contida do espetáculo é uma vantagem.“Gosto de trabalhar com espaços pequenos, à dimensão dos artistas. Cada gesto tem de ser eficiente. E esta obra não pede uma coisa sumptuosa”, assume o encenador.Essa opção dialoga também com as condições atuais do Teatro Nacional de São Carlos, que, por estar fechado ao público desde julho de 2024 – por estarem a decorrer obras de reabilitação ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) –, está sem sala própria. É por isso que o São Carlos tem apostado na itinerância. Depois da estreia em Almada, Johnny Johnson seguirá para Vale de Cambra, no dia 11 de janeiro, e Ourém, no dia 17, até chegar a Lisboa no dia 18, ao Teatro Tivoli. A partitura, escrita para uma orquestra relativamente reduzida, com cerca de 20 músicos e sem coro, reforça esse caráter quase “camerístico”, segundo Mário João Alves, que aproxima o espetáculo do público.Mas se a forma é contida, o conteúdo não o é. Para João Paulo Santos, a pertinência contemporânea de Johnny Johnson foi um dos fatores decisivos para a sua escolha. “Fiquei horrorizado ao encontrar no texto montes de frases e posições que estamos a ver agora”, confessa. “Isto foi escrito em 1936 sobre a I Guerra Mundial e, no entanto, parece falar do nosso tempo”, observa. A leitura política é profundamente humanista, descreve o maestro, referindo “valores que qualquer pessoa de bem deveria ter. No fim, o que fica é esta pergunta: que raio de estupidez é esta de continuarmos a querer matar-nos uns aos outros?”Mário João Alves partilha essa perceção, ainda que tenha optado por não introduzir referências explícitas à atualidade na encenação. “Seria demasiado óbvio e perderíamos a intenção original”, afirma. Ainda assim, reconhece que o contexto global altera a forma como o espetáculo é recebido pelo público: “O momento em que estamos dá uma carga diferente àquilo que se diz. Se fosse há cinco anos, talvez fosse mais irónico. Agora há uma carga mais séria.”.São Carlos já teve outras cores. Obras revelam camarote com papel verde sobre parede original .Albano Jerónimo dá o corpo em ‘carne.exe’ para repensar o humano