O tema da passagem da adolescência à idade adulta parece quase inesgotável no grande ecrã. Tão delicado e brutal, ao mesmo tempo, que nem todos os filmes conseguem equilibrar essas linhas de força contraditórias – não é o caso desta pequena pérola que venceu o Prémio do Público no último festival Queer Lisboa, esclareça-se desde já. Sem Coração, da dupla brasileira Nara Normande e Tião, é justamente um olhar que encontrou o seu ponto estável entre a doçura poética da juventude e a crueldade da vida para narrar, na dimensão mais límpida das imagens, a vivência de um grupo que, uma vez acabada a época estival, não mais partilhará a desordem bela daqueles dias..De Tião conhecíamos a primeira longa-metragem, que assinou sozinho, Animal Político (2016), uma comédia dramática sui generis sobre a viagem existencial de uma vaca angustiada pelo sentimento de vazio interior... Agora, as sensibilidades dos dois realizadores misturam-se num filme que capta a suspensão própria daquele momento em que ainda habitamos o éter da despreocupação, mas já estamos a apanhar os sinais do futuro, as sensações inomináveis que vêm com a descoberta do corpo e a consciência de que algo já não será igual..Esse impulso de descoberta surge aqui, de maneira mais explícita, nos episódios de onanismo dos rapazes do grupo. Mas é através de Tamara (na serena interpretação de Maya de Vicq) que a corrente subtil da mudança se faz sentir neste cenário de uma vila piscatória brasileira, em 1996: ela começa a interessar-se, à distância, pela rapariga a quem todos os seus amigos chamam de “Sem Coração”, por causa da cicatriz que traz ao peito. Uma jovem de um estrato social inferior, que é também um reflexo do gangue bonacheirão de Tamara, onde as diferenças de classe ora se esbatem ora se evidenciam, enriquecendo o retrato do filme pela simples união daqueles miúdos, que veem uns nos outros corpos livres harmonizados por uma linguagem local, uma forma de conceber a existência. E que bonitos são os planos “abstratos” desses seres na paisagem paradisíaca, a desenharem uma espécie de mapa de afetos pela sincronia da quietude..À beira de se mudar para Brasília, onde prosseguirá os seus estudos, Tamara vagueia então como a figura que sente próximo o “monstro” das novidades absolutas (há uma cena exemplar de diálogo com a mãe), mas não deixa de vigiar os amigos que ficam; aqueles que não podem alimentar muitas esperanças de partir. Entre o realismo suave, envolvente, e uma certa expressão de fantasia aquática, Sem Coração tem a frequência cardíaca certa. Um modo gracioso de expor as dores de crescimento e descrever uma fase da vida que, em qualquer época, partilha das mesmas ansiedades – o que difere é o cenário, neste caso, impregnado de uma sensualidade única.