Rosa Barba encara a organização de uma exposição como uma obra em si e por isso descreve a mostra Desenhar Vocábulos, que abriu portas no Centro de Arte Moderna Gulbenkian (CAM) no passado sábado, como um “desenho no espaço” que é uma estrutura de apoio para as suas esculturas e filmes . “É um pouco uma espécie de paisagem, um arranjo de trabalhos, que funcionam como uma notação no espaço, como se fosse um arranjo musical”, diz a artista italiana na nave do CAM. .No espaço expositivo veem-se composições e peças de parede que em comum têm a utilização de material fílmico, como projetores, película o ecrãs e que misturam luz, movimento e som. Rosa Barba mostra-nos uma peça logo à entrada da exposição intitulada Wirepiece, Triple Stops (Peça de Fio Metálico, Cordas Triplas, 2025) criada a partir de um projetor e filme de 16 mm, uma lente, tambor, peça de ponte, microfone captador, pré-amplificador e plinto. Parece uma engenhoca em que as tiras de película, que passam em loop pelo projetor, são atravessadas por luz que cria uma iluminação difusa, ao mesmo tempo que o seu movimento contra as cordas do tambor produz um som metálico. “O som é extremamente importante, e algumas obras tornam-se instrumentos de som, como este. Este é basicamente um instrumento musical”, diz a artista sobre a obra. “Eu desenvolvi este instrumento pensando em algo que seria uma espécie de violino, ou violoncelo, com um corpo de ressonância, mas não tendo o corpo de ressonância ao redor do instrumento, antes tendo o espaço como corpo de ressonância. Estes instrumentos são sempre sintonizados para o espaço onde eu os exibo”, explica. .Benjamin Weil, antigo diretor do CAM e curador desta exposição, destaca a forma como a artista constrói "a ideia de cinema ou de imagem em movimento, especialmente hoje, quando estamos a olhar sempre para imagens no telefone ou nos ecrãs, onde não têm nenhum tipo de materialidade. Ela está a reinventar, diria inventar também, porque é uma maneira muito especial de abordar a ideia da imagem em movimento e dar esta fisicalidade tão perdida". O curador destaca a singularidade do trabalho artístico de Rosa Barba. “As composições que ela está a fazer com projetores, com celuloide e com som, é uma maneira de construir um tipo de narrativa escultórica que trabalha com o espaço, que é muito especial. Acho que não há outros artistas que estão a trabalhar desta maneira.” . As obras expostas foram criadas entre 2009 e 2026, e entre elas há peças de parede que juntam filme, caixas de luz e motores e nas quais há sempre movimento, com a película a agir como se tivesse vida própria. Também há filmes, por exemplo, Myth and Mercury (2025), uma encomenda conjunta do CAM e da Fondazione MAXXI, filmado em diversas localidades mediterrânicas, começando na Biblioteca Gramsci de Palermo, passando por uma procissão de pescadores e mergulhando até um telescópio de neutrinos no fundo do mar, numa investigação sobre o panorama político do Mediterrâneo nos últimos séculos e a sua evolução futura. As esculturas de Rosa Barba entram em diálogo com as obras da coleção CAM, escolhidas pela própria artista e que são mostradas no mezanino. “Eu descobri muitas peças que eu não conhecia, eu não tinha muito conhecimento sobre a arte portuguesa, conhecia alguns nomes e alguns vídeos, mas foi uma exploração muito longa que foi maravilhosa”, diz Rosa Barba. A artista italiana escolheu obras, por exemplo, de Ana Hatherly, Helena Almeida, Paula Rego, Fernanda Fragateiro, Ana Léon, Ana Jotta ou Salette Tavares. Também selecionou uma peça de Carlos Bunga e Leonor Antunes, os dois artistas que exibiram antes dela na nave e mezanino do CAM. .“Escolhi trabalhos que lidam com a linguagem, e também de como a linguagem se torna abstrata, como se transforma num desenho, numa espécie de abordagem experimental. E também há uma sequência coreografada entre os seis vídeos que selecionei, que ligam e desligam em alturas diferentes, criando uma espécie de percurso, mas também uma chamada e resposta”. . Benjamin Weil sublinha “que a coisa extraordinária de trabalhar com artistas como curadores é que estão sempre a escolher coisas que geralmente os curadores não escolhem. Têm um nível de liberdade quando associam coisas, que também não é muito académico ou formal. O resultado é sempre algo muito fresco”. Além disso, acrescenta, “o olhar de Rosa é também muito interessante, porque é a primeira artista que não é portuguesa a fazer isso. Está a olhar a coleção de maneira muito diferente, porque Carlos Bunga e Leonor Antunes cresceram com este tipo de trabalho, era mais familiar para eles. Ao longo de um ano e meio o CAM apresentou três olhares completamente diferentes sobre a coleção”..José Pedro Croft: “Uma das coisas maravilhosas da arte é não ter programa. Não quer dizer nada e não serve para nada”.Lubaina Himid, Ines Doujak e Patricia Domínguez no MAC/CCB: questionar o presente a partir do passado