João Sousa Rego, presidente da Parques de Sintra, junto ao teto mudéjar da capela do Palácio Nacional de Sintra.
João Sousa Rego, presidente da Parques de Sintra, junto ao teto mudéjar da capela do Palácio Nacional de Sintra. Foto: Paulo Spranger

Restauro da Capela Real do Palácio Nacional de Sintra vai devolver "esplendor" ao teto mudéjar

Parques de Sintra investe 2,7 milhões no reforço estrutural da capela e restauro do do interior, com destaque para o teto decorativo de influência islâmica, um dos exemplares mais antigos do país.
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Estamos quase colados ao teto, mas não a um teto qualquer - é o teto mudéjar, do século XV, da Capela Real do Palácio Nacional de Sintra, um dos mais antigos desta traça existentes em Portugal, também designado teto de laço, pelos complexos padrões geométricos de composição radial ou estrelada. Seguindo os paços de João Sousa Rego, o presidente da Parques de Sintra, subimos os andaimes que nesta altura já estão montados no interior da capela que será alvo de uma nova campanha de conservação e restauro nos próximos 22 meses, no valor de 2,7 milhões de euros.

A capela é um construção original do reinado de D. Dinis e da Rainha Santa Isabel do início do século XIV, tendo sido posteriormente alterada e aumentada durante o reinado de D. Afonso V (1432-1481).

Nos frescos das paredes invoca-se o Espírito Santo, representado pelas pombas com um ramo de oliveira no bico. Uma parte do pavimento cerâmico, com desenhos geométricos de várias cores, foi elaborado com a técnica de alicatado. É também dos mais antigos deste género existentes em Portugal.

Os andaimes já estão montados na Capela Real do Palácio de Sintra.
Os andaimes já estão montados na Capela Real do Palácio de Sintra.Foto. Paulo Spranger

Todos estes elementos serão objeto de restauro, mas a intervenção na Capela será mais abrangente e profunda com o reforço estrutural e requalificação da cobertura e sistemas de drenagem.

"A Capela precisa urgentemente de uma intervenção, tanto pela cobertura como pelas pinturas murais e até o teto mudéjar. É uma capela do século XIV, do tempo de D. Dinis - o teto mudéjar é do século XV - e que teve uma grande intervenção a seguir ao terramoto de 1755 elaborado pela D. Maria I, e depois a intervenção sequente, com uma dimensão que nós também estamos a preconizar, foi já feita pelo arquiteto Raul Lino no século XX", explica João Sousa Rego. "O arquiteto Raul Lino retirou os elementos que foram acrescentados e alterados pela intervenção de D. Maria. A interpretação que o arquiteto Raul Lino deu foi voltarmos a uma capela mais próxima do que seria a anterior ao terramoto", acrescenta.

Agora, o objetivo é aproximar ainda mais este espaço ao seu aspeto original, nomeadamente no que diz respeito ao teto. Na intervenção de Raul Lino a pintura feita na altura de D. Maria I foi raspada, mas agora pretende-se restaurar as cores e padrões originais onde for possível fazê-lo.

Os materiais e técnicas utilizados na capela, que atravessou várias épocas históricas, têm sido alvo de estudo e análise desde há dois anos pela Parques de Sintra e parceiros. "A investigação técnica desenvolvida permitiu perceber que a capela, no âmbito de retirada da policromia do teto [na intervenção de Raul Lino], foi retirada também a policromia original e, portanto, nós contamos com parceiros institucionais como o Instituto Superior Técnico e o Laboratório Hércules para promover a datação dos materiais e a perceção dos desenhos e das policromias originais que nós agora vamos colmatar, reintegrando os elementos que estão em falta. Portanto, esta capela vai ter uma intervenção conservativa, mas devolvendo o esplendor do teto mudéjar que é uma das peças mais relevantes aqui presentes neste espaço", adianta o presidente da Parques de Sintra.

João Cortês, diretor técnico para o Património Construído da Parques de Sintra, explica que é um teto de sete painéis em madeira de castanho e carvalho. A investigação que foi realizada permitiu aprofundar o conhecimento da Capela.

"Conseguimos conferir com maior certeza que à partida se trata de um teto Joanino, logo aí é uma informação, não direi surpreendente, mas é uma informação nova que acrescenta. E também depois a caracterização das épocas dos pigmentos, que vem confirmar isso, a presença desses pigmentos dessas épocas, os próprios motivos, flor de liz, os dragões, vegetalistas, uma informação nova que conseguimos recolher do tal estudo."

Após a operação de restauro - que envolverá a retirada de alguns dos painéis do teto para possibilitar o reforço estrutural - os visitantes poderão ver o teto mudéjar com mais cor. "Sobretudo, esperamos que não veja aquilo que vê atualmente, um teto de laçaria mudéjar mas sem a compreensão total do que é que seria um teto de laçaria mudéjar. Como Raul Lino reinterpreta com a raspagem parcial, perde-se aqui o efeito da cor, portanto, o que nós esperamos é que as pessoas tenham uma perceção real, não desvirtuada, do que é que seria o teto com cor", sublinha João Cortês.

Esta campanha de conservação e restauro vai também permitir antecipar problemas e tornar a capela mais resistente, sublinha João Sousa Rego. "Ao restaurarmos também a cobertura estamos a garantir a estanquicidade do próprio monumento relativamente à água e às intempéries de uma forma muito mais robusta do que ela está atualmente. Também vão ser colocados sensores de humidade e temperatura, permitindo uma monitorização constante do estado de conservação patrimonial e que, no caso de se alterarem, vão permitir uma intervenção antes de ser visível no próprio espaço e antes da degradação."

A obra deverá ficar concluída no segundo semestre de 2027 e os visitantes vão poder assistir ao trabalho desenvolvido por cerca de seis conservadores-restauradores que estarão a trabalhar no teto, murais e pavimento. "É uma obra com uma grande dimensão e que vai implicar um trabalho muito dedicado de diferentes técnicos, tanto de restauro, como de infraestrutura, e que vai poder ser acompanhado pelos nossos visitantes nesses dois anos através do Coro Alto. E, portanto, convido desde já todos os que nos estão a ler a poderem vir ao Palácio Nacional de Sintra, que é um dos palácios mais antigos de Portugal, conhecer a sua história e também as nossas metodologias de intervenção", conclui João Sousa Rego.

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