O hip-hop é um movimento cultural complexo que surgiu no final da década de 1970 nos bairros mais desfavorecidos de Nova Iorque. Numa comunidade assolada por problemas sociais, misturavam-se formas de expressão distintas, como o graffiti, o breakdance e uma expressão musical que combinava letras contundentes com batidas ritmadas e assim nasceu o rap. Os problemas abordados por esta cultura eram semelhantes aos de outras cidades, grandes ou pequenas e talvez seja essa a razão pela qual o hip-hop e a sua vertente musical, o rap, se espalharam tão rapidamente por vários pontos do globo, incluindo Lisboa. .Perto do Parque da Belavista, palco para grandes eventos musicais, passamos por um totem com a inscrição “Chelas é o sítio”, uma espécie de boas-vindas, próximo da sede do Kriativu. Este espaço nasceu da vontade de vários agentes locais das áreas da cultura e do associativismo de unirem a comunidade e de combaterem o estigma social associado à zona, promovendo oportunidades e uma imagem mais positiva do território. Ou seja, estamos perante uma ideia que usa a arte com preocupações sociais e como forma de fortalecer o bairro, como nos conta Nuno Varela, uma das figuras mais dinâmicas nesta causa e que explica: “Estamos num espaço de desenvolvimento da criatividade” da comunidade.O Kriativu está hoje sediado em duas lojas no meio de muitas outras fechadas, num bairro de habitação social, o Armador. Apesar de modesto, o espaço parece esticar à imaginação de quem por aqui trabalha. Os jovens do bairro do Armador podem aqui gravar músicas da sua autoria, ou só aprender a produzi-las e masterizá-las. Além disso, podem participar em diversos workshops sobre vídeo, fotografia ou gravação de podcasts, bem como aprender a personalizar, limpar e recuperar ténis ou andar de bicicleta de forma gratuita. O espaço tornou-se num ponto de encontro de jovens e menos jovens. De pessoas com ideias ou que apenas querem sonhar com um futuro melhor. .A questão dos ténis, por exemplo, não é secundária. A forma de vestir segue os códigos próprios da cultura do hip-hop e o vestuário é uma parte importante disso. Aqui, o movimento Bringing New Colours (BNC), que se dedica à limpeza, restauro e personalização de sapatilhas, faz o seu melhor para dar “nova vida” ao calçado deixado por quem frequenta este espaço, mas é sobretudo mais uma forma de atrair jovens. A ideia é simples: um jovem participa num workshop de limpeza de ténis e vê artistas a entrar e a sair do estúdio de gravação, o que pode despertar o seu interesse pela música e levá-lo a descobrir uma nova vocação. Cada uma das muitas valências que o Kriativu vai criando tenta captar pessoas através de vários focos de interesse, estimulando-as a afastarem-se de círculos negativos. A música é o sonho de muitos e, tal como no desporto, onde muitos atletas de alta competição saem de bairros sociais, também existem muitos artistas que nascem em Chelas e alimentam o sonho de outros tantos. “A música continua a ser um sonho e continua a dar um caminho, um seguimento a muitos destes jovens”, explica Nuno Varela. .Para David Cunha, este sonho é muito real, em parte devido ao espírito que impera no bairro. Natural de Chelas, sente o bairro e ainda vive no apartamento onde cresceu com o irmão e a avó, quando este era um dos poucos edifícios que existiam numa paisagem dominada por casas precárias e muitas barracas. Antes de se tornar o Bairro do Marquês de Abrantes, esta zona de Chelas era conhecida como o Bairro Chinês. Albergava famílias de muitas etnias diferentes e é ainda apontado por alguns especialistas como o maior bairro de barracas que existiu na capital. David ganhou o seu nome no rap graças ao beatbox que praticava com os amigos à porta da escola e ao bairro que o viu nascer: Rato Chinês. Para ele, esta mistura de culturas é normal: “Várias raças misturadas, sempre fomos habituados a isso, mesmo no tempo das barracas, sempre nos demos todos como iguais”. Aliás, esta realidade fez parte da sua vida: “O sítio onde eu nasci e a escola que eu frequentei têm muito a ver com aquilo de que gosto e com o que escolhi para gravar”. Para este homem, casado, pai de dois filhos pequenos e que trabalha muitas horas seguidas numa empresa de logística, este sonho da música vive muito graças à insistência de pessoas como Nuno Varela e às condições proporcionadas pelo Kriativu, onde é possível contactar com artistas consagrados, chegar a palcos como o do Festival Kalorama ou produzir um álbum de músicas originais – como aquele que está agora a gravar com Rodrigo Antunes, o técnico de som residente, por aqui conhecido como Milly. Fã de rap desde pequeno, produzir música sempre foi um sonho. Desde o beatbox, até aos estudos para técnico de som, tudo parece que o conduziu a este local onde confessa ter especial prazer em dar o seu ‘toque’ a algumas das músicas que são produzidas neste estúdio. . Importa ouvir o que estes jovens têm para dizer, explica Nuno Valera. Apesar de o rap ser, por natureza, uma música de intervenção, não deve na sua opinião abordar exclusivamente “momentos de tensão, de violência policial, de discriminação; também temos momentos bons e também deveríamos escrever sobre isso”, defende. Casos como a morte de Odair Moniz no bairro do Zambujal, que deixou Lisboa a ferro e fogo durante vários dias, encontram eco no rap e no que os jovens querem expor, pois “algo no Zambujal é facilmente sentido aqui em Chelas ou num bairro da Margem Sul, porque as realidades são bastante parecidas e os problemas acabam por ser os mesmos”. No entanto, para Varela, o rap também deve surgir como elemento de motivação e empoderamento para estes jovens, pois há muitas histórias de sucesso que surgem através do rap, sendo necessário que todo este rap de intervenção não seja voz única nos bairros. É necessária uma canção que motive e tente “quebrar as barreiras invisíveis que ainda não conseguimos derrubar”. Nas palavras de Nuno Varela, o Kriativu está aqui para “motivar para estarmos noutro patamar, como comunidade e como indivíduos na sociedade”.As reportagens #LisboaEscuta foram produzidas no âmbito do projeto “Lisboa, Cultura e Media” da Egeac.#LisboaEscuta. Na Escola do Rap, o futuro é “tuga”! .#LisboaEscuta. A festa da filarmónica da Charneca