Quando pensamos em cultura hip hop ou em canções rap, a Quinta Alegre é, provavelmente, o último lugar que nos vem à mente. Trata-se de uma quinta histórica de veraneio do século XVIII, situada na Charneca do Lumiar, que atualmente funciona como um centro cultural e polo de atração para a freguesia de Santa Clara, que sempre foi vista como uma das zonas limítrofes da cidade. O espaço integra o programa “Um Teatro em Cada Bairro” e conta com uma programação regular, feita em colaboração com a comunidade. A Oficina de Escrita de Canções decorreu ao longo de uma semana. A ideia era que os alunos, jovens residentes daquela zona da capital, compreendessem, através da escrita criativa e da prática da rima, como se criam canções e, sobretudo, como podem criar as suas próprias canções sobre temas que lhes dizem respeito. .Para Samantha Almeida, esta não é a primeira vez que se aventura nestes campos, mas poucos a conhecem pelo seu nome de batismo; aqui, é a Muleca XIII. Uma alcunha que nasceu de uma brincadeira com o avô e de uma aventura escolar, mas que ficou e a trouxe até ao Palácio do Marquês de Alegrete. Para a carioca, a música faz parte da sua vida há muito tempo. Rapper com créditos firmados e ligações à cena musical de Lisboa, com projetos de autores como Sam The Kid ou o projeto Guerrilla Girls Cypher, está na Quinta Alegre para ajudar os jovens a iniciarem-se na escrita de canções. .A ideia é bastante simples: através da criação de ligações entre palavras que fazem sentido para um grupo de alunos, vão-se estabelecendo relações num estilo de aula que estimula a participação e interação dos intervenientes. Não se trata de meros jogos de palavras, mas sim de uma troca pedagógica e crítica de ideias, com muitos devaneios, é certo, no meio das referências musicais de cada um. “Acho que a informalidade dentro da escola é fundamental, porque existe um bloqueio natural, já que este formato de escola só existe depois da fábrica. Antes da fábrica, aprendíamos de maneiras diferentes; éramos aprendizes”, explica Muleca, que acredita que estas iniciativas podem libertar os jovens da ideia de que estar na escola é apenas obedecer, numa espécie de “sufoco” em que acabam por perder a capacidade de pensamento crítico e se limitam a obedecer. Muitos dos jovens que não conseguem aceitar esta ideia de escola acabam por transferir essa frustração para um sentimento de revolta. Talvez por isso, aponta Muleca, seja tão importante existirem atividades fora da escola com preocupações pedagógicas que escutem o que os jovens têm para dizer: “A arte também é usada para estimular os estudantes a estarem na escola ou as pessoas a quererem ser estudantes”, conclui. . No mesmo sentido, Mafalda Amaral, professora na Escola Gustavo Eiffel, no Lumiar, acredita que os seus alunos, nesta oficina, usufruem do contacto direto com uma rapper conhecida e que, eventualmente, “acabam por desbravar preconceitos” e perceber que, para se ser artista, não basta ter talento; na maioria dos casos, é necessário trabalhar muito. Para a professora, é importante que os alunos compreendam que “um artista é também alguém que trabalha e desenvolve capacidades”, para que eles próprios tenham noção de que com trabalho se consegue alcançar mais. A cena do rap e do hip hop não é estranha aos alunos. Nas aulas da professora Mafalda existe uma lista de reprodução e foi assim que esta conheceu autores como Plutónio, Dillaz ou fenómenos como a Poesia Acústica, um estilo de rap que chegou a Portugal através do Brasil. Esta forma de poesia urbana cantada usa músicas longas (geralmente com uma duração entre os oito e os 12 minutos), que misturam rap, rhythm and blues e música popular brasileira. . Para Liliana Morais, de 18 anos, a experiência valeu a pena, mesmo que apenas para perceber que as canções “têm toda uma história por trás, têm a rima, temos de ver melhor as coisas e não se trata apenas de cantar ou falar”. Contudo, para outros alunos, o rap já faz parte das suas vidas: “Depois da escola, o meu tempo é passado no estúdio, a criar”, conta Nicolás Baiardi, técnico de intervenção local do Agrupamento de Escolas Pintor Almada Negreiros, a trabalhar no projeto da Escola Segunda Oportunidade. A maioria destes jovens já tem um percurso bastante irregular no sistema de ensino e este programa permite-lhes descobrir “talentos que nem sabem que existem dentro deles”. Para o técnico, este tipo de ateliers e workshops contribui para que os alunos descubram coisas novas e estimulem algumas competências. .Ao longo de uma semana de oficinas, os alunos vão desfilando muitas palavras, com grande preocupação em ligar assunto e rima no final de cada sessão. A partir dos exercícios dos alunos, a rapper tentará construir canções com recurso a batidas simples. Há sempre um misto de orgulho e surpresa quando aqueles jovens ouvem na voz de Muleca XIII canções que saíram de um papel onde alinharam palavras, rimas e versos. . No final da semana, muitos dos jovens fizeram questão de assistir à apresentação da rapper na Quinta Alegre, com a DJ e beatmaker Trafulha. Para a dupla, após uma semana de ateliers, esta foi a oportunidade de a Muleca se apresentar aos seus alunos. Foi um concerto intenso, focado na questão dos direitos das mulheres e na forma como se sente a cidade e o bairro. Para a autodenominada “ambulante cultural”, aliar educação e fusão cultural é o seu propósito e com a chegada de povos de todos os continentes a Lisboa, de ritmos e histórias, contextos e músicas diferentes, estamos a assistir ao nascimento de um “novo rap tuga”. Quem sabe se estes meninos serão os novos protagonistas?As reportagens #LisboaEscuta foram produzidas no âmbito do projeto “Lisboa Cultura e Media” da Egeac.Reportagem #Lisboa Escuta: Da horta para o coro, vozes ao alto!.Reportagem #Lisboa Escuta: O Caos do heavy metal está à solta em Lisboa