O ambiente é animado e informal, mas todos sabem o que devem fazer. Enquanto os músicos sobem ao primeiro andar, Marco Assunção, presidente da Banda Musical e Artística da Charneca, distribui pautas para um repertório muito específico: uma procissão. Ele nasceu e cresceu no extinto bairro da Quinta do Louro, que desapareceu no início dos anos 2000 para dar lugar a uma das novas vias que cruzam a cidade, junto ao extremo norte do aeroporto. Na coletividade a que agora preside começou a estudar música com apenas cinco anos. Perante a nossa insistência para conversar connosco, explica de forma tímida: “Gosto mais de estar nos bastidores”, mas conta-nos que esta coletividade nasceu nos anos 80 do século passado, num bairro muito pobre numa das periferias da capital. O principal intuito era fornecer formação musical à população, mas foi também uma forma de combater as “grandes desigualdades” e evitar que muitos jovens deste meio desfavorecido se envolvessem em atividades ilícitas, como o consumo de drogas e a criminalidade. Quando Marco vivia na Quinta do Louro, este era um bairro de habitações muito precárias, habitado por gente muito jovem; no entanto, cerca de 20 músicos formados na escola de música da banda já aqui andavam. Como nos explica: “Eu costumava dizer que não ia para o café do meu bairro; eu vinha para a banda. Isto é a minha segunda casa, por vezes a primeira, e quando queríamos sair ou combinar uma ida ao cinema, vínhamos para aqui, todos vínhamos sempre para aqui”. Mesmo após o desaparecimento do bairro, a banda mantém um certo caráter familiar. . Muitos dos músicos tocam aqui por causa duma amizade, de um irmão, de um pai ou de um filho, como é o caso de Teresa Freitas, que anda por aqui desde os quinze anos por causa de uma irmã, e que, aos vinte e três anos, regressou após um período de dois anos sem tocar. Para esta clarinetista, abdicar de uma noite de convívio com amigos da sua idade para vir tocar na banda filarmónica já é uma “coisa normal, além de que é um compromisso”. . Muitas vezes, quando o ensaio termina, continuam a tocar entre amigos, só para se divertirem, mesmo quando o repertório é sério, como o de hoje. Outras vezes, descem ao piso inferior e começa um torneio de matraquilhos. Do lado do bar, contam-se histórias sobre o ensaio ou o dia a dia. Enquanto se petisca ou se assa um chouriço. Ao longo da noite, a conversa parece fluir melhor entre aqueles que, até há pouco tempo, partilhavam pautas durante a marcha fúnebre de Chopin. Para o maestro Ricardo Torres, este aspeto de tornar o repertório um pouco mais erudito faz parte do desafio que aceitou há seis meses: “As bandas amadoras são grandes escolas de valores. Eu próprio comecei numa banda filarmónica na minha terra, na Figueira da Foz, aos nove anos de idade”. Clarinetista de méritos reconhecidos, é atualmente chefe da banda sinfónica da Guarda Nacional Republicana. Apesar de aqui trabalhar num contexto de músicos amadores, destaca que existe um “gosto pela música” que vem muito da partilha de experiências e de conhecimentos entre as várias gerações. Descreve este projeto como enriquecedor para ele como maestro e para os músicos, em grande parte devido ao tipo de “valores que se ganham nestas instituições”, e garante que “só quem vive por dentro é que os percebe”. . A banda tem também em funcionamento uma escola de música , que fortalece esses laços de comunhão e partilha. Se outrora as bandas filarmónicas eram uma espécie de “conservatório dos pobres”, hoje já não é bem assim. Quem o afirma é José Silva, professor de instrumentos de metal na escola de música da Banda Musical e Artística da Charneca. A criação de múltiplos conservatórios por todo o país permitiu um acesso mais fácil à aprendizagem e ao conhecimento de um instrumento. Contudo, esta pequena escola, que funciona em duas salas da associação, permite a formação constante de muitos aprendizes e o aperfeiçoamento destes músicos amadores, que genuinamente correm pelo ‘amor à camisola’. .No dia anterior à participação numa procissão em Alcântara, o ensaio é exigente, mas ninguém desiste. Nem mesmo Jorge Almeida, um saxofonista de 79 anos que só começou a tocar após a reforma e que é o músico mais velho da banda. A ideia de “aprender um instrumento” acompanha-o desde há muito tempo e foi o desejo de não ficar parado em casa que a alimentou. O amor pela música levou-o aos bancos da escola aos 67 anos e a ingressar posteriormente na Banda da Charneca. É o mais velho a tocar nestas andanças, mas não falta a nenhum ensaio nem à habitual cavaqueira que reúne músicos de todas as idades após os ensaios. No dia seguinte, a banda segue na procissão que sobe a Calçada da Tapada ao som da marcha Cristo del Perdón. O maestro Ricardo Torres, que encabeça o grupo de músicos, não olha para trás, mantém a postura e vai indicando quando devem tocar ou parar, conforme o rito exige. No entanto, nota-se que está atento a cada uma das notas que, esta tarde, enquanto subimos, ecoam nas ruas de Alcântara. Ao observarmos esta formação heterogénea de jovens e menos jovens, de diferentes estratos sociais e profissões, não podemos deixar de recordar as palavras do maestro: “Aqui existe um convívio entre as várias gerações, desde os mais antigos até aos mais novos. E é essa partilha de experiências e de conhecimentos entre as várias gerações, bem como o gosto pela música, que nos faz continuar”.As reportagens #LisboaEscuta foram produzidas no âmbito do projeto “Lisboa, Cultura e Media” da Egeac. .Reportagem #LisboaEscuta: A Escola do Rap, o futuro é 'Tuga'!.#LisboaEscuta. Da horta para o coro, vozes ao alto!