Há couves, nabiças, espinafres e outras verduras espalhadas por socalcos. Um moinho de vento, uma lagoa com duas rãs (que são difíceis de avistar), painéis solares, uma sala de aulas feita de materiais reciclados, um forno a lenha e muita gente a trabalhar, bem como um coro de vozes. Estamos na Horta do Alto da Eira, na freguesia da Penha de França, e num projeto de horta comunitária, mas mesmo comunitária, como nos diz Paulo Torres, um dos fundadores da Associação Regador e um dos motores deste projeto. A ideia, com pouco mais de quatro anos, começou por reclamar um pedaço de terra que era, na verdade, um aterro de materiais de construção, restos dos prédios que foram surgindo em redor da Avenida General Roçadas e que ali se foram acumulando, mesmo ao lado da Vila Cândida. O antigo bairro operário resiste à construção de prédios altos e, nos últimos anos, assistiu ao aparecimento de uma mão cheia de voluntários que transformaram toneladas de entulho numa horta que se enche de pessoas todos os sábados de manhã. As pessoas vêm ajudar, arranjar, podar, semear e cantar. Para os voluntários da associação, este é um trabalho que se faz sem esperar colher os frutos do que se semeia, mas sim para estarem juntos e fazerem parte da comunidade. Paulo lembra-nos a célebre expressão de Bordallo Pinheiro, observador mordaz do final do século XIX, quando nos diz que “ir às hortas” era um pretexto para, aos domingos, se visitarem os campos em redor da capital e conviver, comer, beber e cantar. . Desde há muito que se sabe que o canto coral atua como um poderoso fator de união e coesão social. Vários estudos sugerem que, na prática do canto coral, são ativados mecanismos biológicos que permitem aos participantes sincronizar não só a respiração, mas também os batimentos cardíacos, ao mesmo tempo que são libertadas hormonas que proporcionam uma sensação de bem-estar. Este fenómeno de corpo único, no qual os coralistas normalmente se envolvem, reforça a sensação de pertença a um grupo. Do ponto de vista da saúde mental, vários clínicos salientam o sentimento de empatia que resulta da escuta ativa e do autocontrole necessário para ajustar a nossa voz e harmonizá-la com a do grupo. Tal como “ir às hortas”, a que Bordallo Pinheiro se referia, era um fator de comunhão para os lisboetas no final do século XIX, também o canto coral promove a inclusão social e combate o isolamento, tão comum nas nossas cidades modernas. Projetos como a Horta do Alto da Eira e o Coro do Regador têm igualmente recebido muitas pessoas ao abrigo da prescrição social. Trata-se de uma abordagem inovadora à saúde, que coloca os utentes do Serviço Nacional de Saúde em contacto com recursos comunitários, como atividades culturais ou grupos de apoio social, de forma a responder a necessidades sociais ou emocionais, servindo essencialmente como forma de complementar o tratamento clínico. Enquanto trabalha e conversa com as pessoas que se aproximam na rua adjacente à horta, Paulo Torres explica o alcance deste tipo de prescrição: “Recebemos pessoas que, no fundo, precisam de ajuda para se integrarem na sociedade e que, por vezes, só estão a atravessar uma fase menos boa e precisam de conversar e apanhar um pouco de sol”. O mesmo acontece em relação ao Coro do Regador: “Cantamos em círculo e as pessoas sentem que estão num grupo”. . O coro nasceu há pouco mais de um ano, no meio das muitas ideias que a associação tem vindo a concretizar, e Inês Proença, que ajuda na horta aos sábados e trabalha como música profissional, foi escolhida para ser a sua maestrina. “A ideia é pôr as pessoas a cantar umas para as outras”, explica. Os ensaios decorrem na própria horta, desde que as condições climatéricas o permitam. Durante o inverno, os ensaios têm lugar numa das salas da Escola Básica 2+3 Nuno Gonçalves, a cerca de uma centena de metros da horta. Os ensaios decorrem sempre em círculo, pois o mais importante é que as pessoas cantem umas para as outras, criando uma “vibração física” que as ajuda a ganhar confiança, num processo muito enriquecedor para todo o coro, mesmo para aqueles que, até há pouco tempo, afirmavam que só cantavam no banho, explica a rir a maestrina. .Para Maria Freitas, uma das fundadoras, juntamente com Paulo, destes projetos em torno da horta do Alto da Eira e que servem de base para uma série de atividades: a horta, uma sala de aula, um forno comunitário, um bosque, painéis solares, uma estufa e, claro, o coro, pois o mais importante é que as pessoas cantem umas para as outras. Estes muitos projetos são uma oportunidade para as pessoas se ligarem umas às outras através do contacto com a terra e para desenvolverem a ideia de “comer aquilo que plantámos”. Por outro lado, a ideia do coro nasceu durante uma atividade na sala de aula na horta e foi uma oportunidade para ligar aquilo que já faziam: “Cantamos músicas que têm a ver com a terra ou com comunidades, tal como fazemos aqui na horta”.Durante os ensaios do Coro do Regador é notório um sentido de comunhão. Para Maria, é sobretudo uma forma “bonita” de juntar pessoas para cantar músicas icónicas como Acordai, de Lopes Graça, ou Traz Outro Amigo Também, de Zeca Afonso. Salienta ainda que o mais importante para o Coro Regador é manter a ligação entre a terra e o que canta, bem como a coerência entre as várias vertentes deste universo, “para mantermos aquilo que somos e o motivo pelo qual estamos a fazer isto”.. As reportagens #LisboaEscuta foram produzidas no âmbito do projeto “Lisboa Cultura e Media” da Egeac .#LisboaEscuta: O caos do heavy metal está à solta em Lisboa.#LisboaEscuta. Marvila tem Samba