Michael Cimino é o cineasta em destaque este domingo (22 março) num dos canais TVCine (Edition). Falecido em 2016, contava 77 anos, Cimino protagonizou uma carreira épica que se pode resumir através de duas memórias tão breves quanto contundentes: primeiro, viveu a glória de ter assinado O Caçador, um dos primeiros grandes títulos dos estúdios de Hollywood a lidar com os traumas da guerra do Vietname, para mais consagrado com cinco Óscares referentes à produção de 1978, incluindo melhor filme e melhor realização; dois anos depois, com As Portas do Céu (Heaven’s Gate, no original), conseguiu a proeza de criar uma admirável recriação estética e crítica do western clássico que foi também um aparatoso desastre financeiro, capaz de abalar de forma irreversível a United Artists, um dos estúdios mais lendários do cinema americano (criado em 1919 por Charlie Chaplin, Mary Pickford e David W. Griffith).No seio do sistema de Hollywood, o exemplo de As Portas do Céu, tema mil vezes glosado na imprensa especializada (e também em vários livros), tornou-se mesmo aquilo que os especialistas gostam de designar como um case study. A saber: um exemplo do equilíbrio instável da própria indústria, em particular quando a gestão dos meios financeiros de produção é transferida para as mãos dos criadores artísticos. Consagrado com O Caçador, Cimino obteve, de facto, o controle total da produção de As Portas do Céu, inflacionando um orçamento que acabou por ultrapassar os 40 milhões de dólares (valor descomunal para a época) — estreado em novembro de 1980, o filme não chegou aos quatro milhões de receita nas bilheteiras.Além de As Portas do Céu, os TVCine programaram mais três títulos de Cimino, assim propondo um retrato sugestivo da sua filmografia, até porque ele realizou apenas sete filmes. É este o calendário do dia: .O SICILIANO (1987), às 14h25 — Depois de As Portas do Céu, Cimino realizou O Ano do Dragão (1985), uma tentativa de recuperar o prestígio perdido através de um registo de thriller, protagonizado por Mickey Rourke, com um argumento co-assinado por Oliver Stone. Seguiu-se O Siciliano, sobre a figura lendária do bandido Salvatore Giuliano, tendo como base a biografia romanceada escrita por Mario Puzo (autor do livro que serviu de base a Francis Ford Coppola para a trilogia de O Padrinho, iniciada em 1972). Com o papel central entregue a Christopher Lambert, ator em voga na época, os resultados são competentes, embora medianos quando comparados com outras produções do género. .AS PORTAS DO CÉU (1980), às 16h45 — A revisão crítica a que foi sujeito o universo dramático do western ao longo das décadas de 1960/70 (com filmes de John Huston, Sam Peckinpah, Arthur Penn, etc.) teve quase sempre como foco principal as representações dos conflitos entre colonos e índios — lembremos o exemplo modelar de O Vale do Fugitivo (1969), de Abraham Polonsky. Ao escrever o argumento e assinar a realização de Heaven’s Gate, Cimino não se afasta desse universo simbólico, embora explorando uma derivação temática pouco comum. Esta é, de facto, a saga de uma clivagem cultural, política, por fim bélica, entre brancos: de um lado, a chegada de imigrantes europeus ao Wyoming; do outro, a resistência dos barões das terras desse estado — resistência, entenda-se, a pouco e pouco expressa através de armas de fogo. Sujeito a várias remontagens, com durações diferentes, o filme vai ser apresentado no chamado director’s cut (isto é, a versão do próprio Cimino), com cerca de três horas e meia de duração. O seu tempo narrativo é, de facto, vital para entendermos a ousadia narrativa de Cimino, elaborando uma genuína epopeia cuja importância histórica os anos apenas reforçaram. Sem esquecer a energia de um elenco notável, incluindo, entre outros, Kris Kristofferson, Christopher Walken, Isabelle Huppert, John Hurt, Sam Waterston, Jeff Bridges, Brad Dourif e, numa das suas derradeiras composições, o veterano Joseph Cotten. .A NOITE DO DESESPERO (1990), às 20h15 — Obviamente conhecedor da herança clássica de Hollywood, Cimino apostou num remake de Horas de Desespero (1955), de William Wyler, tendo de novo como ponto de partida o romance de Joseph Hayes. Estamos perante uma subtil, também clássica, exploração ambiguamente teatral de um (quase) único cenário: tudo começa com a invasão de uma casa por um grupo de bandidos que vão ameaçando a sobrevivência de um casal e da sua filha... O fechamento do espaço intensifica a crueza dramática da situação, tudo devidamente espelhado nas interpretações de Mickey Rourke, Anthony Hopkins e Mimi Rogers. .A ÚLTIMA GOLPADA (1974), às 22h00 — A noite cinéfila termina com a primeira longa-metragem de Cimino, no original Thunderbolt and Lightfoot. Raramente exibido, será, por certo, para a maior parte dos espetadores, uma verdadeira revelação, até porque nele encontramos Clint Eastwood num dos papéis da sua primeira fase de glória, depois dos westerns italianos de Sergio Leone e também do lançamento da série de filmes Dirty Harry. Eastwood e Jeff Bridges interpretam dois especialistas em golpes mais ou menos arriscados, por vezes à beira do burlesco, numa espécie de Bonnie e Clyde em tom masculino (recorde-se que o filme de Arthur Penn, com Faye Dunaway e Warren Beatty, surgira em 1967). Enfim, o mínimo que se pode dizer é que Cimino começava a sua carreira de realizador afirmando-se como um legítimo herdeiro dos clássicos e também um talentoso explorador dos prazeres do espetáculo..'Projeto Hail Mary'. Avé Maria do cinema.'A Pequena Amélie'. Amélie à procura da sua identidade