Que memórias guardamos dos filmes de super-heróis em que a Terra está à beira da destruição, sendo necessário chamar algum herói (super, naturalmente) para garantir que o planeta ficará disponível para as obrigatórias sequelas? São memórias saturadas de muitas coisas a explodir, acompanhadas por sons ensurdecedores... Será possível partir de uma situação semelhante, recuperar o espírito clássico da ficção científica e, já agora, também o gosto de contar histórias fantásticas? A resposta é afirmativa: aí está o delicioso, inesperadamente poético, Projeto Hail Mary, com Ryan Gosling enredado em múltiplas atribulações para... salvar o planeta Terra!Pensamos em 2001: Odisseia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968) e na saga dos astronautas a caminho de Júpiter. Somos também levados a evocar o clima de inquietação da tripulação de Alien - O 8º Passageiro (o primeiro da série, realizado por Ridley Scott em 1979). Acontece que a personagem de Ryland Grace, o astronauta interpretado por um Ryand Gosling de sofisticado minimalismo, segue também numa nave, mas não se recorda da sua missão. Literalmente: vemo-lo a acordar de um sono induzido e muito prolongado (a longa barba é um sinal esclarecedor), não sabendo o que está ali a fazer, tanto mais que já não tem ninguém para o ajudar (os dois companheiros de viagem estão mortos).A enumeração de tais peripécias (com a prudência necessária para não impedir o prazer da descoberta por parte do leitor/espetador) está longe de ser suficiente para sugerir o clima narrativo de Projeto Hail Mary. Digamos que o nosso frágil herói é um astronauta relutante: as suas qualidades científicas fizeram com que fosse mobilizado para investigar umas misteriosas partículas cósmicas que estão a destruir lentamente o Sol... logo, a prazo, ameaçando a sobrevivência dos terráqueos. Digamos também que, na sua saga pelo infinito das galáxias, irá ter um “encontro imediato do terceiro grau” (a memória cinéfila é inevitável) com um alienígena cujo planeta enfrenta o mesmíssimo problema - para selar a sua colaboração, batiza-o com um nome carinhoso: Rocky.Nada disto é suficiente para dar conta do peculiar e fascinante ambiente em que tudo acontece - até porque, no limite, esta é mesmo uma história da procura de um ambiente para sobreviver. Convocando diversas matrizes da ficção científica - a começar, claro, pela dimensão mitológica da viagem, como no filme de Kubrick: “...mais além, o infinito” -, Projeto Hail Mary distingue-se pela sensualidade formal de uma verdadeira fábula. . A sucessão dos acontecimentos rege-se, assim, por uma lógica temporal bem diferente das normas correntes da ficção científica. O que mais conta é o tempo, ou melhor, a duração das ações do protagonista, em crescente cumplicidade com o seu Rocky. A consolidação dessa cumplicidade acontece, aliás, a partir de uma série de situações de delicadas emoções em que o astronauta Grace e o alien Rocky conseguem, cruzando tecnologia e intuição, construir uma inusitada linguagem de comunicação.Nostalgia do sagradoResponsáveis pela produção dos filmes de animação de Homem-Aranha: No Universo Aranha (o primeiro surgiu em 2018), Phil Lord e Christopher Miller, os dois realizadores de Projeto Hail Mary, conceberam uma aventura “à moda antiga” que se enraíza na criação de um universo alternativo, tanto em termos dramáticos como visuais - o ponto de partida, convém recordar, é o romance homónimo de Andy Weir (Ballantine Books, 2021). Este é mesmo um filme cuja complexidade técnica de fabricação não tem nada de ostensivo, já que, das texturas da direção fotográfica de Greig Fraser até à notável música original de Daniel Pemberton, prevalece o gosto ancestral do espetáculo, dos seus rituais celebrativos (agora com o complemento do gigantismo dos ecrãs IMAX).A maravilha de tudo isto envolve uma dimensão redentora - entenda-se: dimensão humana e cinematográfica - tocada pela nostalgia do sagrado. Atentemos, por isso, no apelido feminino de Ryland (Grace = graça). E lembremos que, sem escândalo, o filme poderia ter sido lançado com a tradução literal do seu título original: Projeto Avé Maria. .'Histórias do Vale Bom'. O gosto documental de José Luis Guerín.A Pequena Amélie'. Amélie à procura da sua identidade