Continua a estar na moda denegrir os Óscares de Hollywood apenas porque são... os Óscares de Hollywood. Seja como for, e sem favorecer semelhante preconceito, é verdade que, por vezes, para lá da celebração dos premiados, os Óscares geram o “apagamento” de alguns dos que não receberam qualquer distinção. Seria uma pena que isso acontecesse com A Pequena Amélie, coprodução entre França e Bélgica, realizada pela dupla francesa formada por Maïlys Vallade e Liane-Cho Han - o filme obteve uma nomeação para melhor longa-metragem de animação, categoria que consagrou Guerreiras do K-Pop.O título original, Amélie et la Méthaphysique des Tubes, remete para o livro da escritora belga Amélie Nothomb (salvo erro, teve uma única edição portuguesa, em 2001, com chancela da Bizâncio, intitulada Metafísica dos Tubos). Os “tubos” servem de designação simbólica dos seres humanos que nascem com grandes limitações orgânicas, a ponto de serem descritos como entidades que não passam de uma existência vegetal feita de “tubos” por onde circulam os alimentos.Assim é a pequena Amélie, nascida no seio de uma família belga a viver na cidade de Kobe, no Japão - muitas análises do livro de Nothomb recordam o facto de a escritora, filha de um diplomata belga, ter vivido uma parte da sua infância em diversos países asiáticos, incluindo o Japão e a China. Seja como for, Amélie não é uma personagem inerte. Bem pelo contrário, é ela que, em off, vai narrando a sua história (com a voz de Loïse Charpentier).Com fascinante precocidade, a narradora acaba por desenvolver uma peculiar noção de Deus. Dito de outro modo: a divindade seria alguém que se comporta (e é encarado pelos outros) como um “tubo”. O que a conduz a uma conclusão de lógica desarmante: ela própria, Amélie, situa-se muito acima das capacidades daqueles que lhe prestam constantes atenções, pelo que só pode ser... Deus! Estamos, obviamente, perante um dispositivo clássico de fábula. E com uma das suas matrizes mais universais: esta é a aventura, terna e atribulada, de alguém que, através das experiências do seu crescimento, vai encontrar a sua genuína identidade.Servido por um desenho de clássica sobriedade formal, capaz de sugerir a textura de uma também clássica aguarela, A Pequena Amélie é um filme que sabe evitar os moralismos que, por vezes, contaminam narrativas deste género, acabando por se impor como um verdadeiro conto moral. Não ganhou um Óscar, mas merece ser descoberto. .'Projeto Hail Mary'. Avé Maria do cinema.'Histórias do Vale Bom'. O gosto documental de José Luis Guerín