Miriam Freitas apresenta 'Desafinada no Coração'.
Miriam Freitas apresenta 'Desafinada no Coração'.Foto: Leonardo Negrão

Quatro espetáculos para ver no Festival Try Better, Fail Better

A 19.ª edição do festival criado pela companhia Teatro da Garagem decorre no fim de semana de 26 e 27 de setembro no Teatro Taborda, em Lisboa. Apresenta quatro novos projetos nas áreas do teatro, 'performance' e criação multidisciplinar. 'Desafinada no Coração', 'dis-far-ce', 'Maria D. não sobe montanhas' e 'Paradoxo Molotof'.
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Foram à volta de cem as candidaturas a esta 19.ª edição do Festival Try Better, Fail Better, revela Carlos J. Pessoa, diretor artístico do Teatro da Garagem, a companhia que ocupa o Teatro Taborda, em Lisboa, e que promove esta iniciativa. A escolha dos quatro projetos que depois entraram em residência artística neste mês de setembro obedeceu a dois critérios.

“Há cada vez mais interdisciplinaridade e os projetos vêm com diferentes tendências, uns mais performativos, outros com acento mais no gesto, outros mais na imagem, e nós, em função disso, procuramos salvaguardar essa diversidade. É o primeiro critério”, diz Carlos J. Pessoa.

O segundo, explica, é “a consistência, a coerência, o modo como o projeto é apresentado. Portanto, foram estes dois critérios, a diversidade e a consistência, por forma a não estarmos sempre a apresentar o mesmo tipo de espetáculo”.

Este ano, exemplifica Carlos J. Pessoa, há uma apresentação de “palhaçaria”. “Um termo novo que eu nem conhecia. A palhaçaria que vem da arte do palhaço. É uma forma de arte e bem justificada, o projeto era bem interessante”.

Os projetos começam por ser “manifestos de intenções” e depois são desenvolvidos em residência artística durante cerca de um mês. O artistas selecionados beneficiam de apoio técnico e financeiro e também de mentoria da equipa do Teatro da Garagem. O festival nasceu há quase duas décadas com essa vocação.

“Quando iniciámos, o objetivo era proporcionar a criadores, a artistas em princípio de carreira, a oportunidade de não só apresentarem o seu trabalho, mas sobretudo terem tempo e condições para que essas apresentações públicas tivessem apoio logístico, financeiro – na medida do possível –, de promoção, de divulgação, com algum contraponto crítico, para que as obras tivessem uma gestação realmente acompanhada e significada. Sempre quisemos colocar a nossa experiência em favor dos criadores que estão a começar”, diz o diretor do Teatro da Garagem.

O que se procura é um espírito colaborativo e não competitivo, sublinha. Nesta edição, Miriam Freitas (Desafinada no coração), Mariana Magalhães (dis-far-ce), Gustavo Antunes (Maria D. não sobe montanhas) e Joana Resende, Bárbara Gomes, Mariana Sardinha e Zé Alves (Paradoxo Molotof), os criadores dos quatros projetos selecionados, puderam trocar experiências.

“São sobretudo primeiros projetos e são pessoas muito diferentes. Isso é um dos aspetos que nos interessa, que as pessoas saiam da sua bolha, da sua zona de trabalho habitual para conhecerem outras pessoas, com outras formações, com outros modos de pensar e de olhar para a cena. E a residência favorece exatamente isso”.

O trabalho desenvolvido é na base da tentativa e erro para o qual aponta o nome do festival, “sem receio de errar, porque o erro aqui representa uma oportunidade. Uma oportunidade de pensamento, de correção, de evolução”, sublinha Carlos J. Pessoa.

A maioria dos artistas são jovens, mas o que interessa é serem primeiras obras, mesmo que sejam de criadores mais velhos. “Não queremos fechar isto apenas nos jovens, as gerações devem também cruzar-se”. Para Carlos J. Pessoa, “a realidade das artes cénicas em Portugal é mais estimulante do que era há uns anos, e isso muito por força do trabalho destas novas gerações, mas também daquelas que estão e que continuam a batalhar por esta área”.

'Paradoxo Molotof’: Quatro criadores que são todos Alice, cada um à sua maneira

 Zé Alves, Joana Resende e Bárbara Gomes no espaço La Rage. Falta Mariana Sardinha, cocriadora da peça que não estava no ensaio.
Zé Alves, Joana Resende e Bárbara Gomes no espaço La Rage. Falta Mariana Sardinha, cocriadora da peça que não estava no ensaio.Foto: Leonardo Negrão

São quatro amigos que estudaram na Escola Superior de Teatro e Cinema. Queriam trabalhar juntos num projeto criado por eles e foi essa vontade que fez com que respondessem à open call do Festival Try Better, Fail Better com a peça Paradoxo Molotof. Eles são a Joana Resende, a Bárbara Gomes, a Mariana Sardinha e o Zé Alves e encontramo-los a ensaiar no espaço La Rage.

“Este espetáculo é sobre uma rapariga que decide isolar-se do mundo, ela chama-se Alice, e há logo uma referência à Alice no País das Maravilhas. Vamos fazer os quatro de Alice, é uma personagem que alberga as nossas inquietações individuais, e foi daqui que nós partimos”, diz Joana Resende. O espetáculo é variado, “não se alinha com nenhum género específico”. O texto foi escrito pelos quatro. “Não temos uma referência direta à Alice no País das Maravilhas. Pegamos no nome Alice e nesta personagem que se isola e começa a viver neste mundo imaginário, num mundo paralelo, que a dada altura se deteriora”, descreve Zé Alves.

Bárbara Gomes  a interpretar a palhaça em 'Paradoxo Molotof' durante um ensaio.
Bárbara Gomes a interpretar a palhaça em 'Paradoxo Molotof' durante um ensaio.Foto: Leonardo Negrão

Há mais personagens em Paradoxo Molotof: uma abelha, uma palhaça, uma noiva, os capacetes, uma italiana muito austera, um anjo, uma poeta, uma rainha de copas, uma vendedora de uma loja de congelados, uma senhora que come pão com manteiga, uma chorona e um velho baboso. A cenografia vai sendo manipulada ao longo do espetáculo, só no final revelando ao espetador o lugar onde se encontra e aquilo que está a acontecer. “Não se trata de um espetáculo de teatro convencional”, dizem.

“Somos quatro criadores, pelo que jamais seria possível que isto tivesse uma linha muito lógica e coerente. Isso vai passar para o espetador: vão notar-se as diferentes mãos, tanto nas palavras como na criação das cenas, o que favorece a nossa proposta e foi essa a intenção desde o início”, diz Zé Alves. Todos propuseram ideias sem saberem, à partida, como se iriam ligar umas às outras, mas, no final, tudo acabou por se encaixar, garantem.

‘Desafinada do Coração’: equilibrar o ritmo pessoal com o pulsar coletivo

Miriam Freitas interroga, através do humor, a obrigação  de nos alinharmos com o coletivo.  Há que “desafinar” e encontrar ritmo próprio.
Miriam Freitas interroga, através do humor, a obrigação de nos alinharmos com o coletivo. Há que “desafinar” e encontrar ritmo próprio. Foto: Leonardo Negrão

É luso-brasileira e está em Portugal há 12 anos. Veio fazer um mestrado e agora está a terminar um doutoramento em Ciências da Comunicação com uma abordagem à “palhaçaria”. Interessa-lhe investigar os dois lados, quem atua e quem assiste. O solo que vai apresentar entra nesse universo ‘clownesco’, diz Miriam Freitas, criadora de Desafinada do Coração, um mundo com o qual se apaixonou em 2017. “Precisamente por conta desse lugar que quebra a quarta parede e me coloca mais em contacto com o público do que eu ficar naquela ilusão de uma parede em que as pessoas estão a assistir pelo buraco da fechadura”.

O espetáculo nasceu da inquietação de “entender este mundo que está muito desafinado, a gente sente a obrigação de tentar caber em alguns espaços ou em alguns corações. E esquece que cada um tem o seu próprio ritmo. Parece-me que as pessoas tentam entrar num ritmo coletivo”. Quando fala em “desafinada” é pois em sentido rítmico, explica a artista, e o objetivo é explorar “como se equilibra o ritmo interno com o ritmo externo”.

A palhaça em diálogo com ela própria através da 'loop station'.
A palhaça em diálogo com ela própria através da 'loop station'.Foto: Leonardo Negrão

Escreveu o texto inspirada na obra Poème Symphonique com os seus 100 metrónomos acionados no mesmo andamento mas a ritmos distintos, e que a dado momento se alinham. “Temos que aceitar que a gente bate em ritmos diferentes, que não temos que nos alinhar, caber nos formatos sociais. Estou questionando um pouco isso por via da comicidade”, diz Miriam. É um espetáculo de humor e ela é a palhaça.

Miriam é a única personagem em cena, mas dialoga com ela própria através de uma loop station, que faz de eco ou fala por ela. “Eu gravo umas frases e ela responde-me”. Também há uma cadeira e muitos metrónomos, à vista e escondidos, e com eles a palhaça terá “uma conversa muito longa”.

Neste espetáculo, e fazendo jus ao nome do festival – Try Better, Fail Better –, o erro é permitido. “Porque não fazer com que a música entre na hora errada e a luz se apague quando não tem de apagar?”

‘Maria D. não sobe montanhas’: texto, canto e corpo para os vários lutos da vida

Gustavo Antunes faz dele próprio e de sua mãe nesta performance com texto de Júlia Medina, que parte de elementos biográficos do ator.
Gustavo Antunes faz dele próprio e de sua mãe nesta performance com texto de Júlia Medina, que parte de elementos biográficos do ator.Foto: Leonardo Negrão

Ator, performer, Gustavo Antunes dá vida a um texto escrito a partir da sua experiência de luto, com a morte do pai, em 2023, e poucos meses depois, do padrasto. “A performance é muito sobre o luto através dessa experiência autobiográfica, mas está muito ficcionalizada. Não é um relato sobre o que aconteceu”. O texto de Maria D. não sobe montanhas foi escrito por Júlia Medina, dramaturga, atriz e ex-mulher de Gustavo.

“Queremos falar não só sobre o luto da morte, mas das diversas mortes pelas quais a gente passa na vida. Passamos pelo luto quando mudamos de país, quando acabamos uma relação. E então estamos os dois a viver esse luto ainda, e é mais uma camada que entra”, explica Gustavo Antunes, que estará sozinho em palco mas interpretará duas personagens: ele próprio uma figura inspirada na sua mãe.

Gustavo Antunes, ator e performer em 'Maria D. não sobe montanhas'.
Gustavo Antunes, ator e performer em 'Maria D. não sobe montanhas'.Foto: Leonardo Negrão

Neste espetáculo há texto, canto e corpo. “Espero que seja divertido também, não só dramático”, diz o ator na Tasca das Artes onde está a ensaiar. Em palco tem uma cadeira e um microfone. Diz que está “mesmo no momento de tentar melhor e falhar melhor”, e daí ter-se candidatado ao festival. Brasileiro, chegou a Portugal em 2018 e tem trabalhado em teatro.

Para Júlia Medina tem sido interessante criar um texto que parte de elementos biográficos de outra pessoa. “Acredito que quando escrevemos dificilmente nos conseguimos desenvencilhar completamente do nosso próprio eu, por isso tenho esse desafio de escrever algo biográfico, mas que possivelmente carrega muito de mim também. Para além da relação próxima que eu já tive com o Gustavo. As biografias de alguma forma se misturam e se entrelaçam”, diz a autora.

“É preciso entregar o coração às ficções”, diz o texto a certa altura. “A ficção é também algo que nos ajuda a entender melhor a nossa própria vida”, sublinha Júlia Medina. O desafio maior, considera, foi conciliar a profundidade dos temas com a poesia e o humor.

‘dis-far-ce’: um espetáculo com três camadas em filme e no palco

Um mundo da fantasia inspirado nas fotografias d e Cindy Sherman, com figuras como o porco, o palhaço e a atriz solitária.
Um mundo da fantasia inspirado nas fotografias d e Cindy Sherman, com figuras como o porco, o palhaço e a atriz solitária. Foto: Leonardo Negrão

Éum projeto “que já foi muitas coisas”, diz Mariana Magalhães, a impulsionadora de dis-far-ce. E no dia em que a encontramos no Teatro Taborda, o espetáculo, que cruza várias áreas artísticas, ainda não estava fechado. Certo é que é uma produção multidisciplinar, com atuações em palco e a projeção de vários filmes.

Francisco Rolo, Hugo Olim, Ícaro Alves, Lúcia Pires, Maria Ribeiro Torres e Nuno Pinheiro são os interpretes dos filmes, sendo que apenas três elementos – Nuno Pinheiro, Hugo Olim e Lúcia Pires – estarão em palco com a Mariana.

Este espetáculo tem três frentes. “Temos a parte da ficção, o projeto propõe que se pense um filme biográfico inspirado em memórias minhas, fragmentadas, em que fazemos um percurso pela infância, vida adulta e o mundo da fantasia. São figuras muito inspiradas nas fotografias da fotógrafa Cindy Sherman”, diz Mariana Magalhães. Mais especificamente, na série Untitled Film Still que retrata “uma atriz que deseja ter uma vida luxuosa, mas ao mesmo tempo de uma grande solidão”. Há também a figura do palhaço (da série Clowns ) e a do porco, da série Fairy Tales. E aparece também uma criança. As personagens interpretadas pelos atores são todas projeções da própria Mariana.

Mariana Magalhães, criadora de 'dis-far-ce'.
Mariana Magalhães, criadora de 'dis-far-ce'.Foto: Leonardo Negrão

Esta parte desenrola-se toda em vídeo, que representa 80% do espetáculo. “Depois há uma outra camada, que é o comentário sobre o processo”, explica a artista. “A minha inexperiência a realizar filmes, a falta de indicações que eu dei aos atores, este pânico foi trazido para matéria de espetáculo”.

Finalmente, há uma terceira camada, “mais pessoal e biográfica”, que é a das cartas. “As cartas vão sendo ditas por mim e pelos atores. Cartas que lhes escrevi para estas personagens, cartas sobre memórias, cartas sobre coisas para eles fazerem em palco”.

O dis-far-ce é mesmo esse, afirma Mariana Magalhães: “As histórias que vamos contar são reais ou não? É essa a dúvida que fica.”

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