'Macbeth’ de Pedro Penim evoca a história do D. Maria e põe a rainha em cena
O diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II (TNDM II) decidiu desafiar o destino ao escolher Macbeth para a reabertura do edifício, após o encerramento para obras. Era esta peça de William Shakespeare que estava em cena quando o teatro foi praticamente destruído por um incêndio na madrugada de 2 de dezembro de 1964.
“Acaba por ser uma provocação, reabrir com uma peça maldita, que fechou o teatro, que o deitou abaixo na sua quase totalidade, que ficou como uma espécie de tabu, porque a peça nunca mais voltou a ser produzida pelo Teatro Nacional D. Maria II, nunca mais. Fez-se, mas sempre em versões de acolhimento, mas da casa nunca mais se voltou a produzir”, diz Pedro Penim, o encenador de Macbeth que está em cena a partir de hoje e até 31 de outubro na Sala Garrett.
Mas a provocação vai ainda mais longe, com a encenação a convocar o edifício do TNDM II e a rainha que lhe dá nome. Essa ligação à história do teatro, que este ano celebra 180 anos, está presente na cenografia de Joana Sousa: o cenário onde decorre grande parte da ação reproduz a fachada do TNDM II, com as suas colunas e o frontão triangular, enquanto o fogo - controlado, sublinha o encenador - irrompe no palco em vários momentos.
Pedro Penim inclui também nesta encenação de Macbeth a personagem de Hécate, a rainha das bruxas, que não está na versão original escrita por Shakespeare, e que terá sido acrescentada mais tarde por Thomas Middleton (1580-1627), dramaturgo contemporâneo de Shakespeare.
“Muitas vezes estas partes da Hécate são cortadas da peça. Mas acho-as tão bonitas e deram tanto trabalho a traduzir, que tinha de as incluir, têm verso, é uma linguagem muito sofisticada. Então pensei: havendo uma relação com a história do próprio edifício, porque não a personificação da Hécate ser a própria D. Maria II, que dá nome ao teatro e tratá-la como a verdadeira rainha das bruxas? Porque é bruxaria também o que estamos a fazer aqui no palco. Essa relação é suposto ter alguma graça”, revela Pedro Penim.
Este Macbeth é uma tradução de Penim, que face à impossibilidade de adquirir os direitos da tradução do poeta brasileiro Manuel Bandeira, empreendeu ele a tarefa de traduzir o texto, com um objetivo claro. “A ideia seria encontrar um português que mantivesse o decassílabo, que é usado por Shakespeare, mas, ao mesmo tempo, fazê-lo de uma forma aproximada a um português, não necessariamente corrente - porque em Shakespeare nada é corrente e é preciso honrar e respeitar aquilo que é poesia, que é complexa e que deve continuar a sê-lo -, mas tentar procurar palavras que não fossem inacessíveis a um espetador médio português de 2026”.
O encenador quis também demonstrar todas as possibilidades técnicas atuais do Teatro Nacional da Maria Maria II, depois dos melhoramentos financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência. “Apetecia-me que, quando chegasse a esta sala, se ouvisse o som que foi altamente melhorado, e se visse esta maquinaria de cena que não era possível antes do edifício fechar. Durante muito tempo, por exemplo, o palco rotativo nem sequer estava disponível. Desde os anos 1990, que não era possível usar o palco nesta dimensão. E agora temos um Rolls-Royce em mãos. A tecnologia é absolutamente brilhante”, sublinha.
Nesta tragédia de William Shakespeare, Macbeth, um general do exército do rei escocês Duncan, encontra três bruxas que lhe dizem que um dia será rei da Escócia. A mulher, Lady Macbeth, instiga-o a agir e convence-o a matar o rei durante a noite. Macbeth assume o trono, mas nunca mais tem descanso. A culpa e o medo de perder o poder fazem-no entrar numa espiral de violência e paranóia. As bruxas vão alimentando a ideia de que ele é invencível, o que o torna cada vez mais cruel, ao ponto de matar o amigo Banquo. Lady Macbeth acaba por sucumbir à culpa e Macbeth torna-se vítima da sua própria ambição ao ser morto por Macduff, o nobre que se junta a Malcolm - o filho do rei Duncan e herdeiro do trono que fugiu para Inglaterra -, na resistência a Macbeth.
Para Pedro Penim, há neste drama duas dimensões relevantes. “Por um lado, a ideia de como o mal, neste momento, se exibe, se pavoneia na nossa sociedade, ele está presente na nossa vida. Ao ligarmos a televisão, ao olharmos para o nosso telemóvel, nas conversas das pessoas, o mal deixou de ter pudor em se mostrar”. Os Macbeth, considera Penim, “dois dos vilões mais conhecidos e icónicos da dramaturgia mundial”, traduzem bem essa relação shakespeariana com a ideia de que o mal também pode seduzir o público.
Por outro lado, acrescenta o encenador, “eu quis que essa interpretação ficasse para o público sem vincar em demasia aquilo que pode ser uma interpretação. Deixar a peça respirar, de alguma maneira. E a encenação, a tradução, a cenografia lembram-nos que estamos perante um objeto teatral e que devemos deixar que essa suspensão ficcional funcione para o público como bem entender.”
A peça é protagonizada por José Raposo, que é Macbeth, e Bárbara Branco, que é Lady Macbeth. Pedro Penim admite que a participação de José Raposo poderá “encantar” algum público. “José Raposo é provavelmente um dos atores mais amados deste país, e pô-lo a fazer de vilão-mor da dramaturgia mundial, tem também este intuito de perceber como é que nos podemos deixar seduzir por esta personagem, como muitas vezes nos deixamos seduzir, sem percebermos o que está a acontecer”.
Questionado sobre o aspeto mais desafiante desta interpretação, José Raposo responde: “Tudo! Falo que me desunho, mas está tudo tão bem estruturado que não chateia. A peça tem as camadas todas. Ele tanto está - e ela também - com uma atitude perfeitamente banal, normal, como de repente se passa da cabeça”.
Para Raposo, o texto de Shakespeare «é poesia, com uns rococós maravilhosos», e cabe às inflexões dos atores tornar claro para o público aquilo que está a ser dito. “Há uma parte do trabalho, um bocadinho invisível para quem está deste lado, mas o Pedro fez mesmo questão que nós respeitássemos as respirações do verso”, diz Bárbara Branco, que considera a participação nesta peça um “privilégio”. “A cada ensaio arranjamos sempre uma forma diferente de olhar para aquele verso, para aquela palavra. Não paramos de descobrir nunca novos sentidos e novas sensações”.
Um aspeto que salta à vista nesta dupla de atores é o gap geracional entre eles. “Em relação à nossa diferença de idades, o Pedro disse logo que para ele isso fazia sentido. Ela, sendo mais jovem, é mais fogosa, tem mais atitude, há uma inconsequência de juventude que serve a personagem”.
Do elenco de Macbeth fazem ainda parte Ana Coimbra, Ana Tang, Bernardo de Lacerda, Hugo van der Ding , João Grosso, José Neves, June João, Sandro Feliciano, Stela e Vítor Silva Costa.
Hoje, a partir das 21h30, no âmbito das celebrações de reabertura, haverá também um espetáculo de videomapping projetado na fachada do TNDM II.
