Fãs dos concertos ao vivo vão ter um clube. E a invenção é portuguesa

Começaram as subscrições para o Gig Club, um serviço online de música ao vivo criado por portugueses e que promete revolucionar a indústria dos concertos. Existe em Lisboa e Porto, segue-se Londres, Madrid e Barcelona.

É um "verdadeiro ovo de Colombo", que num futuro mais ou menos próximo poderá mudar o negócio da música ao vivo como o conhecemos. Pelo menos é isto que espera João Afonso, 41 anos, o fundador, CEO e programador do recém-criado Gig Club, que esta semana iniciou as subscrições online.

Por 50 euros anuais, os sócios do clube terão acesso a um concerto gratuito à escolha, prioridade na compra de bilhetes e outras experiências exclusivas, como espetáculos privados ou sessões de escuta de discos, antes do lançamento oficial dos mesmos. "Não há nada igual no mundo inteiro", garante João, que, com outros dois sócios, arrancou com o Gig Club no final do ano passado.

"Há uma empresa semelhante, a Jukely, a operar nos Estados Unidos e em Inglaterra, mas funciona num registo mais de concurso, em que os subscritores, a troco de 25 dólares por mês, podem concorrer a bilhetes para concertos. Não são promotores dos seus próprios concertos, como acontece com o Gig Club", explica. É precisamente esta grande diferença que pode tornar-se a referência, num negócio claramente em alta, como o dos concertos, em que os bilhetes esgotam cada vez mais depressa. Ou seja, "os sócios do Gig Club terão sempre preferência na aquisição dos bilhetes" e pode até acontecer não sobrarem mais para o público em geral.

O serviço vai para já iniciar a atividade em Lisboa no Porto, com concertos em espaços como Lux, MusicBox, Hard Club ou Pérola Negra e o objetivo passa por "conseguir esgotar estas salas só com os associados". E esse dia poderá até nem estar assim tão longe, pois antes das subscrições arrancarem, no início desta semana, já havia quase mil pré-inscrições. Para isso terá também contribuído o anúncio do concerto do saxofonista americano Kamasi Washington, autor de um dos mais aclamados álbuns do ano passado, Heaven & Earth, que atua no Porto e em Lisboa nos dias 10 e 11 de maio.

"Esse é um dos concertos que vai de certeza esgotar", adianta João Afonso. Mas há mais atuações já marcadas como a da canadiana Jessy Lanza (23 e 24 de Janeiro), a dos americanos e islandeses Low Roar (12 e 13 de Fevereiro) ou a do produtor americano de música eletrónica Toro y Moi, a última aquisição da Gig Club, cujos espetáculos, a 22 e 23 de maio, deverão ser em breve confirmados oficialmente.

"Para nós, a música é sempre o mais importante. Queremos apostar numa programação de qualidade, que fidelize os nossos sócios e atraia muitos mais", sublinha o promotor. E não tem sido só o público a aderir à ideia, a própria indústria tem apoiado o projeto desde o início, como recorda João: "As salas ficaram muito entusiasmadas com a possibilidade de mais espetáculos, mas as editoras, os agentes e os artistas também ficaram muito admirados e recetivos com o Gig Club".

Uma das atividades em que o clube quer apostar, por exemplo, é permitir aos sócios a escuta em primeira mão de discos, como aconteceu em Lisboa, na Casa Independente, no passado dia 10, onde dezenas de pessoas se juntaram para ouvir o novo álbum de Sharon Van Etten, Remind Me Tomorrow, com direito a um vídeo da cantora americana, no qual agradecia aos fãs portugueses. E no final do mês, a 30 e 31, haverá nova sessão de escuta, na Casa do Livro (Porto) e na Casa Independente (Lisboa), respetivamente, onde será passado o novo álbum dos Mercury Rev, Bobbie Gentry's 'The Delta Sweete' Revisited, com edição prevista para 8 de fevereiro. "O nosso foco é usar a tecnologia para juntar as pessoas à volta da música. Trata-se de uma experiência coletiva e não individual", explica o responsável.

Os sócios podem escolher duas modalidades de inscrição: a City, com a anuidade de 50 euros, que dá direito a um concerto gratuito à escolha e "descontos de cerca de 20 por cento" na compra dos bilhetes dos restantes numa única cidade à escolha, além da entrada nos restantes eventos exclusivos, como a escuta de discos ou concertos surpresa; ou a Global, exatamente com as mesmas vantagens, mas neste caso disponíveis em todas as cidades onde o Gig Club está presente. Sim, porque depois de Lisboa e do Porto a ideia é expandir o conceito além-fronteiras.

"Esperamos arrancar em Londres ainda neste primeiro semestre e até ao final do ano também em Barcelona e Madrid, onde já estamos em contacto com alguns parceiros locais", desvenda João, sem recear eventuais imitadores que possam surgir. "Estou certo que, mais tarde ou mais cedo, os gigantes da indústria da música ao vivo, como a Live Nation, por exemplo, vão adotar um sistema similar, mas nós não queremos competir no campeonato mais mainstream", admite. Por agora, "o Gig Club pretende manter-se no universo mais indie" das pequenas salas e dos artistas de nicho, "mas fazendo um trabalho tão bom, que, quando alguém quiser avançar com algo parecido, terá de nos procurar".

Concertos Gig Club já programados

Jessy Lanza

O primeiro concerto organizado pelo Gig Club marca também a estreia em Portugal desta artista canadiana de pop eletrónica, que em 2016 editou o muito elogiado disco Oh No. Nesta dupla atuação no Porto e em Lisboa deverá já apresentar alguns dos novos temas resultantes da residência artística que realizou no ano passado a convite da estação de rádio inglesa BBC Radio One. Pérola Negra Club, Porto. 23 de janeiro e a 24 no Lux Frágil. 16 euros (sócios) e 20 (público)

Low Roar

Outra estreia em palcos portugueses, a deste projeto liderado pelo músico e produtor Ryan Karazija, um músico e produtor americano radicado na Islândia, que vem apresentar o último trabalho Once in a Long, Long While, editado em 2017. Ambos os concertos em Portugal acontecem em formato solo, com especial foco na guitarra acústica e na veia cantautora de Karazija e não tanto na eletrónica que também marca a sonoridade do seu trabalho em disco. Musicbox, Lisboa. 12 de fevereiro e a 13 na Sala 2 do hard Club, Porto. 10 euros (sócios) e 15 (público)

Kamasi Washington

É o nome mais sonante dos quatro concertos já anunciados pelo Gig Club. Apontado como o responsável pelo revitalizar, em pleno século XXI, do formato Big Band sob uma nova perspetiva, o saxofonista americano abriu o jazz a novos públicos, em especial com o último disco Heaven and Earth, unanimemente considerado um dos melhores do ano passado. Hard Club, Porto, 10 de maio, e no Lsboa Ao Vivo, Lisboa no dia 11. 30 euros (sócios) e 35 (público).

Toro y Moi

O regresso do músico e produtor americano a Portugal, onde já atuou por diversas ocasiões, deverá ser anunciado oficialmente ainda esta semana. Conhecido pela sua camaleónica música, sempre em mutação, o artista da Carolina do Sul edita também esta semana o novo disco Outer Peace, que serve de pretexto a mais esta visita aos palcos nacionais. No Lisboa ao Vivo a 22 de maio e no Hard Club a 23. 20 euros (sócios) e 25 (público).

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