Este projeto teatral começou com a leitura do livro Paradise Found, the Cradle of the Human Race - A Study of the Primitive World, escrito em 1885 pelo primeiro presidente da Universidade de Boston, William Fairfield Warren, académico que era também ministro da igreja Metodista. A obra avança com a tese de que o Paraíso de Adão e Eva não desapareceu após a expulsão do casal do Jardim do Éden, permanecendo intacto sob o gelo do Ártico. Partindo desta ideia, a peça Polo Norte imagina o aquecimento global e o degelo como um caminho de regresso ao Paraíso primordial. Quem leu este livro do final do século XIX foi Jorge Andrade da companhia de teatro Mala Voadora, que é o encenador do espetáculo que será apresentado na Culturgest, em Lisboa, de 26 de junho a 4 de julho, e que pediu ao dramaturgo norte-americano Seth Bockley para o adaptar para teatro.William Fairfield Warren muniu-se de um conjunto de estudos de botânica, geologia, climatologia, astronomia e antropologia4 para concluir que os primeiros humanos apareceram na terra no Polo Norte, explica Jorge Andrade. “Li o livro há bastantes anos, e o que ficou na minha memória foi que quando Deus expulsou Adão e Eva do Paraíso, congelou-o, para que a humanidade não pudesse lá mais voltar”. .Avançando no tempo e na trama de Polo Norte, “como Deus é misericordioso, o aquecimento global é uma espécie de oportunidade que Ele nos dá de voltarmos a casa. De derreter o gelo para que fique acessível o Polo Norte, o nosso berço, e podermos voltar e viver em paz”, enquadra o encenador.Através desta teoria, Jorge Andrade explora “a manipulação de factos para contar histórias. Faço isso enquanto produtor de teatro, interessa-me essa especulação, possibilita criar uma espécie de laboratório onde podemos fazer experiências engraçadas para não termos que experimentar ao vivo. Quando isso é feito por políticos em contexto real, essa manipulação já merece outro tipo de opinião.”William Fairfield Warren apresenta dados como sendo “incontestáveis do ponto de vista científico”, mas contamina-os com questões de fé. “Ele mistura ciência com fé. Fez-me lembrar muito o contexto, não só nacional, mas internacional que nós vivemos, com a forma como se faz política hoje em dia: a verdade como dependendo da perspetiva de cada um. A verdade não é uma coisa imutável, os factos não são imutáveis, e foi isso que me interessou”.Em Polo Norte o degelo torna acessível à humanidade o petróleo que existente naquela parte do globo. “Há aqui também alguma ironia, quando o resto do planeta estiver a arder, aqueles poderão ser os sítios habitáveis. Mas que nós rapidamente trataremos, acredito eu, de tornar inabitáveis.”A peça conta com as interpretações de Albano Jerónimo, David Pereira Bastos, Hoji Fortuna, Jani Zhao, Jorge Andrade, José Mata, Maria Jorge e Sílvia Filipe. As personagens são um grupo de académicos que todos os anos se reúnem no Polo Norte para ler textos científicos, acreditando que isso irá contribuir para o descongelamento e ter acesso ao Paraíso. . O cineasta Ivo M. Ferreira - que lançou em abril o filme Projeto Global - também participa nesta coprodução da Mala Voadora com o Teatro Municipal do Porto - Rivoli e o Centro Cultural de Lagos. “Eu precisava de ter um vídeo, porque queria misturar a realidade com a ficção. Temos uma representação em termos cenográficos do Polo Norte, mas também temos uma filmagem. E interessava-me esta parte mais real que o cinema mais facilmente consegue captar, através de um registo mais documental”, diz Jorge Andrade, que concebeu o cenário em conjunto com o cofundador da Mala Voadora, José Capela (também o criador dos figurinos). Depois da apresentação na Culturgest, em Lisboa, a partir da próxima sexta-feira, a peça poderá ser vista no Porto, em fevereiro do próximo ano, e em Lagos, no Algarve, no mês seguinte. .Um homem e três mulheres numa caravana que é refúgio, palco e confessionário .Sucesso de 'Clube dos Poetas Mortos' superou expectativas e poderá ter terceira temporada no Trindade