Quando Jean Renoir filmou Boudu Sauvé des Eaux (cujo título português, Boudu Querido, omite o importante e literal “salvo das águas”), talvez não estivesse bem consciente da lição de liberdade contida nesta ave rara do cinema francês, décadas antes da Nouvelle Vague. Segundo revelou o cineasta na autobiografia, a intenção era sobretudo explorar as possibilidades de um ator espontâneo como Michel Simon, que nesse filme de 1932 interpreta o vagabundo Boudu, salvo das águas do Sena por um livreiro burguês que o leva para sua casa, sem medir o grau de anarquia de um corpo habituado à licença infinita do ar livre... Eis um dos títulos que podem ser (re)visitados esta sexta-feira, na Cinemateca, no âmbito do grande ciclo 50 Anos de Abril: Que Farei Eu com Esta Espada?, à luz do valor da liberdade. .Como se percebe pela escolha de integrar Boudu Querido no programa do cinquentenário do 25 de Abril, a Cinemateca decidiu este ano ir além da prática comum à volta dos aniversários redondos da revolução, que consistiu quase sempre num repescar dos filmes expressamente ligados à data histórica. “Ao preparar este aniversário ainda mais redondo, os 50 anos, a ideia desde o início foi: o que é que podemos fazer que não tenha sido feito nas programações anteriores? E sendo uma celebração que, em particular neste momento, sentimos ser ainda mais relevante - recordar os valores de Abril e aquilo que foi uma transformação profunda da sociedade portuguesa -, achámos por bem fazer com que o programa ressoasse ao longo de todo o ano”, esclarece ao DN Nuno Sena, da equipa de programação da Cinemateca, sublinhando que em todos os meses de 2024 “haverá ciclos que, de forma mais ou menos direta, revisitam o valor histórico e cultural da revolução, os seus antecedentes, etc. Ou seja, é uma ideia que permite, sob o signo dos quatro valores que chamámos para o ciclo de janeiro, resumir os eixos fundamentais da revolução portuguesa, com filmes que não são necessariamente produção nacional - não é um programa de cinema português, muito menos cinema em linha direta e exclusiva com o 25 de Abril, é um programa de cinema numa perspetiva muito aberta e internacional.” .Para além da referida liberdade, os outros três valores que compõem a abordagem temática do extenso ciclo de janeiro são a “revolução”, a “comunidade” e o “futuro”. Quatro braços de uma lógica comemorativa que ao correr do tempo envolverá outras ações, entre as quais, uma parceria com a Festa do Cinema Italiano: “Tentámos encontrar temas que tivessem alguma relação com este cinquentenário, sendo o caso mais evidente o facto de o nosso 25 de Abril ter um antecedente no 25 de Abril italiano [de 1945], que é também a data que marca o fim do fascismo em Itália. Portanto, a certa altura haverá uma iniciativa em torno dessa coincidência”, revela o programador. Que aponta ainda para um enfoque na questão colonial portuguesa e, nos meses de abril e maio, para “algo mais centrado na produção portuguesa e estrangeira desses anos: o que era o cinema feito cá entre 1974-75, e lá fora, que tenha influenciado o nosso.” .Perguntamos então se se trata de escrever uma história do cinema através do 25 de Abril. “Há sempre essa ambição. Se olhamos, neste caso, para a história política e social portuguesa, olhamos pelo prisma do cinema e pelo modo como ambas as coisas se iluminam mutuamente. Isto é, ao revisitar a história portuguesa, estamos a revisitá-la através da história do cinema. E remetendo para os quatro eixos de janeiro, aqui incluem-se filmes que vão desde o cinema mudo a filmes com dois, três anos. Portanto, há o Big Bang de 74-75, mas a energia desse Big Bang pode encontrar-se em produções cinematográficas muito anteriores ou muito posteriores a esses anos. É uma viagem pela história do cinema marcada por este ângulo”, diz Nuno Sena. .De resto, a palavra “revolução” surge, no contexto do cinema, indissociável da Revolução Russa enquanto vanguarda artística. Uma vanguarda que está na génese do próprio movimento do cinema português: “Quando se vê As Armas e o Povo [1975] é evidente a influência que tiveram filmes como Outubro [1927] e O Couraçado Potemkine [1925], mas também Dziga Vertov e outros realizadores, em que essa ideia de um cinema agitprop era muito contaminada pela questão forte da invenção formal. Não são filmes de propaganda no sentido oficial ou mais convencional, mas sim filmes que procuram provocar um choque intenso através das formas.” Não admira, como bem recorda Sena, que um dos primeiros filmes a estrear cá pouco depois do 25 de Abril tenha sido O Couraçado Potemkine, de Serguei Eisenstein, que durante muitos anos esteve proibido, chegando ao grande ecrã do antigo Cinema Império numa cópia que o produtor António da Cunha Telles tinha guardada em casa....Já a palavra “futuro” tem mais que se lhe diga: um sentido aberto que, em termos de programa, não oferece uma orientação temática concreta. “Acima de tudo, tenta-se fazer um pouco de justiça a um dos impulsos revolucionários que atravessou muito aqueles dias: a ideia de que o futuro podia ser diferente, estava por fazer e podia ser discutido. Daí que muitos dos filmes programados sejam sobre recomeços, com personagens que estão num impasse e precisam de seguir numa direção que rompe com o seu passado. Mas sim, esta secção do Futuro é a que provoca mais a pergunta “O que é que este filme está aqui a fazer?” E aí, o entendimento dos programadores foi não o fechar em nenhum conceito restritivo, de forma que haja várias interpretações”, reconhece Nuno Sena. .Na Cinemateca, janeiro faz assim o arranque, em tom revolucionário, de um ano de programação dinâmica que vai pensar o 25 de Abril no seu mais extenso simbolismo cultural. Desde logo, contemplando também uma retrospetiva de Fernando Matos Silva, realizador cuja produção cinematográfica dialoga com as questões de Abril. .4 valores, 4 sessões, pelo programador Nuno Sena.LIBERDADE Le Trou (1960), de Jacques Becker Dia 8, 21h30| dia 16, 15h30 “Um filme que fala da privação da liberdade, ou seja, aborda a liberdade pelo seu negativo. E é um dos filmes de prisão mais extraordinários da história do cinema, sobre a fuga de um grupo de reclusos, num ambiente de violência contida que faz deste um dos mais belos Beckers.” REVOLUÇÃO Sambizanga (1973), de Sarah Maldoror Dia 29, 19h “Nós tivemos há pouco tempo um grande ciclo dedicado a Maldoror, aqui na Cinemateca, mas voltar a este filme agora justifica-se tanto mais porque, ainda antes da revolução portuguesa, ele é feito sobre os acontecimentos em Angola, sobre a luta pela libertação. E, nesse sentido, antecipa a própria revolução portuguesa. Um filme notável de uma cineasta que felizmente está a ser redescoberta.” COMUNIDADE Belfast, Maine (1999), de Frederick Wiseman Dia 20, 16h “A vida e os rituais sociais de uma pequena cidade no estado do Maine. É uma observação no tempo daquilo que faz uma comunidade: o que a torna distinta, o que a mantém unida, os conflitos ou tensões que existem dentro dela... Está longe da utopia de uma ficção como Stars in My Crown [1950], e apresenta uma dimensão bastante pragmática e política do conceito de comunidade.” FUTURO Perigo Incerto (1992), de Paul Schrader Dia 15, 15h30| dia 25, 21h30 “É um dos inéditos na Cinemateca. Um filme sobre uma personagem que quer recomeçar a sua vida, libertar-se do trabalho de dealer e está preso num loop - não como o do Bill Murray no Feitiço do Tempo [também no programa] - em termos da dificuldade de romper com esse passado.”