Chengdu, a capital de Sichuan, tem há séculos um apelido poético: “Cidade do Brocado”. O rio Min, que contorna a cidade, é também conhecido como o “Rio do Brocado”. Ambos os nomes nasceram da fama do brocado Shu, tão celebrado que acabou por marcar a própria geografia urbana.A tradição local remonta, na memória cultural chinesa, a Cancong, rei fundador do antigo Reino de Shu, a quem se atribui a promoção do cultivo de amoreiras, da criação do bicho-da-seda e da tecelagem. Com isso, Sichuan consolidou-se como um dos núcleos históricos da sericicultura e da produção de seda na China.Desta terra onde a seda nasceu emergiram duas artes muitas vezes descritas como as “duas joias de Shu”. Em 2006, ambas entraram na Primeira Lista Nacional do Património Cultural Imaterial da China; e, em 2009, a técnica de tecelagem do brocado Shu foi ainda integrada, como parte das técnicas tradicionais chinesas de seda, na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.De fabrico complexo e produção limitada, o brocado representa o mais alto nível da arte têxtil chinesa, que, condensando a sabedoria artesanal dos antigos chineses, se trata desde a Antiguidade de um valioso produto de luxo da mais alta categoria. . Para um leitor não-especializado, é fácil confundir brocado e bordado. A diferença está no modo como nasce o desenho. No brocado, o motivo é tecido: forma-se no tear pela interligação dos fios da urdidura e da trama, e as cores “aparecem” de uma vez durante a própria tecelagem, ficando o padrão estruturalmente unido ao tecido. No bordado, o motivo é cosido sobre um tecido já pronto, acrescentando-se o desenho com agulha e linha de seda, ponto a ponto, como uma camada artística posterior.Não é por acaso que, na cultura chinesa, a expressão “brocados e bordados” se tornou sinónimo de beleza e prosperidade, falando-se de “um futuro como brocado” e de “um texto tão belo como brocado”, imagens que traduzem o anseio das pessoas por tudo o que é belo.É precisamente essa perfeição que o brocado e o bordado Shu representam, cada um à sua maneira. O brocado Shu designa, em sentido estrito, os brocados de seda produzidos na região de Chengdu com padrões tecidos no tear. Com mais de dois mil anos de história, já durante a Dinastia Han seguia pela antiga Rota da Seda até à Ásia Central e ao subcontinente indiano.No seu núcleo técnico está um processo que lembra, de forma surpreendente, a lógica de um “programa” aplicado ao tear. Primeiro, o artesão desenha motivos auspiciosos: flores, animais e figuras de bom augúrio. Depois traduz o desenho para uma espécie de “mapa” de tecelagem. Em seguida, essa informação é fixada num modelo reutilizável (tradicionalmente chamado huaben), que funciona como um molde de controlo: ao levantar determinados fios e ao passar a trama conforme esse modelo, o tear consegue reproduzir o mesmo padrão de forma consistente, como se seguisse um conjunto de instruções codificadas, revelando o engenho têxtil dos antigos. Daí nasce um tecido de toque firme e resistente, de cores vivas e contrastadas, capaz de criar efeitos de luz e brilho que mudam conforme a incidência da luz. Trata-se de uma peça ao mesmo tempo utilitária e deslumbrante.. Já o bordado Shu não procura a repetição “em série”, valorizando antes a mestria técnica individual. Ao longo dos séculos, desenvolveu um repertório vastíssimo de pontos, com mais de 100 variações e uma estética própria, marcada por rigor, delicadeza, com superfícies lisas e luminosas, bem como cores claras e bem definidas. Entre os temas preferidos estão motivos associados a Sichuan, como o hibisco, a carpa ornamental e o panda, mas também paisagens de grande fôlego, em que o fio procura captar a escala e a essência da natureza.Há, ainda, uma técnica particularmente célebre, muitas vezes considerada o auge desta tradição: um tipo de bordado de dupla face, em que a mesma peça apresenta imagens diferentes de um lado e do outro, com cores e técnicas de bordado distintas, sem que o avesso revele nós ou costuras visíveis. O resultado é uma obra de linhas fluidas e camadas bem definidas, capaz de conciliar uma elegância próxima da pintura a tinta-da-china com uma sensação de realismo tátil. É simultaneamente um adorno e uma peça artística digna de coleção.Na China, existe a expressão “voltar à terra natal vestido de brocado”, isto é, regressar triunfante, com sucesso e reconhecimento. Se visitar Sichuan, vale a pena trazer uma peça de brocado ou bordado Shu, um fragmento desta herança cultural que carrega milénios de saber artesanal..Iniciativa do "MACAO DAILY NEWS"