No cinema, como diria David Mamet, as coisas mudam. Talvez não muito, mas mudam. O suficiente para sentirmos que há uma diferença a ter em conta. Assim, na atual primavera cinéfila, chegámos à altura de proclamar o sugestivo paradoxo comercial: começou a “temporada de Verão”. O que muda é o facto de a sua abertura não ser uma sequela de um qualquer super-herói, mas sim O Diabo Veste Prada 2 — ainda uma sequela, mas em tom diferente. O primeiro filme, recorde-se, está a fazer 20 anos e entrou no imaginário popular garças à exuberância da “má da fita” - Miranda Priestly, diretora da revista de moda Runway —, permitindo a Meryl Streep uma das suas composições de mais contagiante humor e também, convenhamos, de maior esquematismo dramático. A personagem está de volta, refazendo um “ensemble” completado por Andy, a sua ex-assistente, Emily, braço direito de Miranda, e Nigel, diretor artístico da Runway - regressam também os respetivos intérpretes, ou seja, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci. Também realizador do primeiro filme, David Frankel encena tudo com aquela aceleração postiça de quem receia que, perante um plano que dure mais de cinco segundos, o espectador perca o interesse - a incapacidade de concentração tornou-se mesmo uma mercadoria audiovisual... O que, enfim, não impede que o argumento de Aline Brosh McKenna (também repetente) proponha um ligeiro desvio temático que, para todos os efeitos, contamina os ziguezagues da estrutura dramática de O Diabo Veste Prada 2. Há mesmo o cuidado de valorizar a (breve) participação de Lady Gaga de forma consistente e verosímil. Acontece que a Runway enfrenta uma crise grave - o céu da moda está ameaçado pelo inferno financeiro. Sobressaltos do destino fazem com que Andy regresse à casa mãe, agora com responsabilidades editoriais. A situação não colhe o agrado de Miranda que, em qualquer caso, para garantir a sobrevivência económica da revista, se vê compelida a prestar “vassalagem” a Emily, agora a gerir o sector comercial de uma célebre marca de cosméticos... O Diabo Veste Prada 2 parece querer impor as suas personagens, não apenas através de memórias do primeiro filme, mas também reforçando uma dimensão caricatural sustentada por frases mais ou menos breves, umas mais inventivas que outras. Seja como for, isso não anula a emergência de um desencanto amargo face ao atual mundo do jornalismo (dos EUA, bem entendido) em que as cedências comerciais vão minando a sua implantação social — e também, inevitavelmente, as suas qualidades intrínsecas. E tanto mais quanto a cena de abertura nos mostra Andy a receber um prémio de jornalismo, poucos segundos depois de ela e vários colegas serem despedidos... por telemóvel. Na prática, mesmo através de uma “agitação” visual a que muitas vezes falta um mínimo de depuração narrativa, encontramos aqui uma “mensagem” que, como é óbvio, não pode ser dissociada das convulsões políticas e jornalísticas da América de Donald Trump. Não desistindo de afirmar o seu empenho profissional e fidelidade moral, Andy surge mesmo como uma “Joana d’Arc” nova-iorquina apostada em enfrentar as injustiças do mundo da moda - para ela, o “inimigo principal” é um sistema pervertido pelo dinheiro e por formas de gestão estranhas às necessidades e especificidades do trabalho jornalístico. “Comédia de costumes” Apesar das suas limitações, O Diabo Veste Prada 2 consegue jogar com todos esses elementos de modo a preservar o tom de uma tradicional “comédia de costumes”. Eis um género que, atento aos contrastes do tecido social que retrata, tem feito falta a um cinema americano dominado pelos investimentos em muitos efeitos visuais e poucas histórias consistentes. Semelhante postura favorece o trabalho dos atores, ainda que Anne Hathaway e, sobretudo, Emily Blunt lutem com o esquematismo das suas personagens. Stanley Tucci, com a bonomia de uma velha personagem de um melodrama de Leo McCarey, é a presença mais sofisticada. Quanto a Meryl Streep, tudo acontece com a precisão de uma serena ginástica de manutenção. .Jessica Chastain desafia os valores românticos