O extraordinário filme de Andres Veiel sobre a alemã Leni Riefenstahl (1902-2003), a partir de amanhã nas salas de cinema, tem um título austero: Riefenstahl. Dir-se-ia que o seu nome próprio deixou de lhe pertencer por inteiro, até porque “Leni” é uma abreviatura de Helene – sendo Helene Bertha Amalie o seu nome completo. Dir-se-ia também que o apelido Riefenstahl foi transfigurado pela voracidade de uma história que o transformou numa “marca” com um conteúdo imediato e inegável. Que conteúdo? O serviço que as suas imagens prestaram à propaganda do regime nazi.Como contar a história de Leni? Como compreender a transfiguração de Leni em “apenas” Riefenstahl? Veiel é um verdadeiro cineasta. Sabe que, ao contrário do cliché televisivo que domina o nosso quotidiano audiovisual, a verdade não resulta do simples facto de uma câmara começar a registar o que quer que seja – o que, bem entendido, é válido tanto para as imagens que herdamos como para aquelas que possamos produzir e difundir..Rever as imagensVeiel começa a sua pesquisa documental pelas imagens, justamente. Assim, vemos momentos da actividade de Riefenstahl como jovem actriz nos chamados “filmes de montanha”, sob a direção de Arnold Fanck, como A Montanha Sagrada (1926) e O Grande Salto (1927). A certa altura, já estamos perante O Triunfo da Vontade (1935), sobre o congresso do Partido Nazi na cidade de Nuremberga, em 1934, e Olympia (1938), celebrando os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936.Dizer que Veiel começa pelas imagens não significa apenas que ele acumula materiais de arquivo para construir uma biografia. Desde logo, porque não podemos ficar indiferentes ao contraste entre o lirismo dos “filmes de montanha” e o turbilhão de factos que liga as encenações do poder nazi com os seus crimes contra a humanidade. Depois, porque o filme nos dá a ver Riefenstahl a escolher fragmentos de película e, mais especificamente, a trabalhar na montagem dos seus filmes. Lembramo-nos, por isso, da sedutora ambiguidade da metáfora proposta por Jean Cocteau: “O cinema filma a morte no trabalho.” E perguntamo-nos se a elegância metafórica é suficiente para lidarmos com a herança de Riefenstahl..Há um silêncio incómodo que, desde o princípio, contamina as imagens e a nossa relação com elas. O silêncio, entenda-se, provém da própria Leni Riefenstahl. Vêmo-la durante uma entrevista, algumas décadas depois do fim da guerra, comentando a hipótese de voltar a viver “da mesma maneira” que viveu: “Isso não sei. Espero que não cometesse tantos erros, sim, mas...” A frase fica suspensa e o entrevistador pergunta: “Quais é que acha que foram os seus erros? Diria que um deles foi a sua relação próxima com Hitler?” Por um breve momento, a mão da entrevistada esconde a sua boca, a cabeça roda para o lado, como que à procura de um objecto seguro para fixar e a resposta fica, algures, em suspenso... Um pouco mais à frente, ouvimo-la dizer que, antes de conhecer Adolf Hitler, a primeira vez que o ouviu discursar, sentiu-se “como que capturada por uma força magnética”…Como esquecer?Não é fácil lidar com tudo isto. Por duas razões fundamentais: primeiro, porque Veiel recusa formular ou atrair generalizações automáticas sobre a relação das “massas” com a ditadura – trata-se de tentar, pelo menos, descrever as componentes materiais, ideológicas e simbólicas que colocaram Riefenstahl no interior, e ao serviço, do sistema de morte do nazismo; depois, porque não há no seu Riefenstahl qualquer tentativa de “actualização” temática, como se falar (ou fazer um filme) sobre uma ditadura pudesse ser o mesmo que abordar qualquer ditadura, em qualquer época histórica ou contexto específico.Veiel começou por fazer um estudo detalhado dos arquivos de Leni Riefenstahl, tarefa em que foi acompanhado pela produtora do seu filme, Sandra Maischberger, jornalista que entrevistou Riefenstahl em 2002, no centenário do seu nascimento. A abundância de materiais impôs-se tanto pela variedade como pelos aspectos contraditórios da sua organização, de alguma maneira cumprindo um perverso labor de memória e apagamento – a voz off sublinha: “Para que algo possa ser recordado, outras coisas têm de ser esquecidas.”Deparamos, assim, com os múltiplos reflexos da vida de Riefenstahl depois da guerra, de uma maneira ou de outra procurando reescrever a sua própria história. Ela o disse na sua autobiografia: “Não me é fácil virar as costas ao presente e mergulhar no passado, tentando compreender a minha vida em toda a sua estranheza. Sinto-me como se tivesse vivido muitas vidas, experimentado os altos e baixos de cada uma delas, como as vagas do oceano, sem nunca ter descanso. Através dos anos, procurei sempre o invulgar, o maravilhoso, os mistérios no coração da vida (ed. Picador, 1995).”.Há outro também notável documentário sobre Riefenstahl, realizado por Ray Müller em 1993, que condensa tudo isso num título emblemático que refere a sua vida “maravilhosa” e “horrível”. Ou seja: The Wonderful, Horrible Life of Leni Riefenstahl – sem esquecer que o original, Die Macht der Bilder, nos remete para o “poder das imagens”. Foi esse poder, tão decisivo há quase um século como nas nossas sociedades saturadas de ecrãs, que gerou O Triunfo da Vontade, celebrando a teatralidade do poder nazi, afinal um elemento fulcral de toda uma estratégia de manipulação dos seres humanos. E foi também através desse poder, alicerçado num sofisticado tratamento dos corpos e dos espaços, que as Olimpíadas de 1936 foram devolvidas ao mundo como uma concretização global da visão “redentora” do Führer.Arte e políticaRiefenstahl colocava-se no centro de um território, afinal, clássico em que um método de separação das acções humanas parece ter tanto de contagiante idealização como de impossibilidade prática e filosófica. Numa entrevista de 1980, no canal alemão SWR, ela diz mesmo: “A política é o oposto de tudo aquilo que me realizou e fascinou ao longo da vida.” Pergunta o entrevistador: “Qual é o oposto da política?” A resposta relança-nos nas contradições muito íntimas do génio humano: “A arte. Para mim, penso que é a arte: explorar coisas nas quais é preciso penetrar a um nível mais profundo. Se sentimos as coisas intensamente como um artista, e eu nasci assim, vivemos a vida de forma tão ardente, com tanta intensidade, tão apaixonadamente, que não existe espaço para o interesse pelas questões do mundo real.”.Se é verdade que semelhante esquematização da “arte” e da “política” nos pode surgir como pueril, no limite hipócrita, não é menos verdade que a história (depois de Riefenstahl) nos aconselha a alguma prudência intelectual. Não para rasurar o papel político que, precisamente, a sua arte desempenhou, antes para reconhecer que o tempo não diluiu os temas, e também os fantasmas, da sua herança – basta pensarmos na dimensão visceralmente política do populismo televisivo, presente no nosso dia a dia e, no entanto, ignorado por muitas entidades que o deviam enfrentar.As primeiras formas de recepção do trabalho cinematográfico de Riefenstahl fazem também parte da sua história “maravilhosa” e “horrível”. Lembremos apenas que O Triunfo da Vontade e Olympia foram ambos premiados na secção de filmes estrangeiros do Festival de Veneza, em 1935 e 1938, o primeiro como melhor documentário, o segundo como melhor filme. Escusado será dizer que nada consegue apaziguar a dimensão trágica de tão complexa herança. E tanto mais quanto a sua matéria essencial existe através da presença etérea, mas muito real, dos filmes – o documentário de Andres Veiel é um objecto pedagógico para lidarmos com a perturbação de tudo isso..'33 Fotos do Gheto'. O Holocausto revisto através de 33 imagens.Fassbinder. Sonhos e pesadelos do cinema alemão