Tudo começa num salão “com uma espécie de conversa que ganha outros rumos”. Sem querer levantar demasiado o véu, é assim que Miguel Thiré, um dos criadores da experiência teatral imersiva O Algoritmo, descreve o início do espetáculo que pode ser visto - ou experimentado, porque o público integra a narrativa - durante um mês, de 22 de janeiro a 22 de fevereiro, no Beato Innovation District, em Lisboa. No meio de tudo isto só há uma única advertência: os telemóveis ficam guardados num armário à entrada.N’O Algoritmo, o público vai assumir um papel e será “personagem ativa, convocado a participar” neste espetáculo em que “cada resposta e cada comentário” feito integra “parte do desenvolvimento de por onde a coisa vai”, explica o ator, acrescentando que as pessoas que forem assistir ao espetáculo serão mesmo chamadas “inúmeras vezes a operar”. No entanto, quem assim o desejar, pode apenas ter uma participação passiva, sendo tudo opcional.A premissa desta experiência é simples e desafiante em simultâneo: “Comprovar como os algoritmos, através de um processo de nos ajudar, de nos facilitar a vida, acabam a induzir-nos a uma série de coisas. Nós demonstramos isso na prática com o público”, promete Miguel Thiré, que lembra também, no período que atravessamos, “como o processo eleitoral” é condicionado pelos algoritmos que nos dizem “como devemos relacionar-nos, como votar”, mesmo não sendo “uma entidade, mas um mecanismo”.O ator brasileiro, que já já vive em Portugal há mais de dez anos, assume que sempre quis “trabalhar com manipulação”. Além disso, tem recorrido a “uma técnica chamada jogos de escuta, uma técnica de improviso” que “é sempre uma resposta”. E é precisamente isso que convoca para este espetáculo.“Nós propomos um tipo de jogo e um treinamento muito continuado para considerar o público mesmo parte da trama”, adianta Miguel Thiré, desconstruindo a ideia por trás de um espetáculo imersivo, que, ao contrário de outras experiências que o criador evoca como bons exemplos do que esta forma teatral deve ser - como aconteceu com a peça Sleep No More, que esteve em cena em Nova Iorque durante mais de uma década -, não tem um percurso que o público deve seguir. Por outro lado, o público também não é um mero “voyeur”, mas um participante ativo que terá de fazer escolhas, caso aceite a convocação que será apresentada no momento oportuno. O Algoritmo também não é uma experiência de terror, assegura Michel Simeão, o outro criador desta experiência, que está muito habituado a criar peças de teatro imersivo, principalmente tenebrosas, como a DIE - Dark Immersive Experience (que, numa tradução livre pode ser entendida como uma Experiência Imersiva Escura).Desta vez, os conceitos são outros, mas não envolvem medo primário. Quanto muito, “obriga-nos a refletir e, às vezes, a ir a sítios que podem ser desconfortáveis, principalmente se tivermos de os partilhar, de olhar nos olhos de outros, porque fomos perdendo um bocadinho esta habilidade”, destaca Michel Simeão, enquanto considera que “o excesso de uso de telemóvel” já “começa a inquinar a forma como nos relacionamos com os outros”, porque “agora estamos fechados num ecrã”.Esta ideia torna-se mais intensa com o caráter “revolucionário” que Michel Simeão diz ter sido proposto por Miguel Thiré: são 100 pessoas ao mesmo tempo a participar na peça.“Não tentamos moralizar nada, pelo contrário”, avisa Michel Simeão, deixando claro que as perspetivas sobre o uso de tecnologias e redes sociais “estão bem defendidas”. “Tentamos que [o espetáculo] seja neutro, nesse sentido, e cada um de nós leva consigo depois o que tiver de levar. Acho que a experiência da comunicação é a mais importante de todas aqui”, conclui..Albano Jerónimo dá o corpo em ‘carne.exe’ para repensar o humano .São Carlos apresenta ‘Johnny Johnson’ e a “estupidez” de “nos matarmos uns aos outros”