Descobrimos a cineasta argentina Lucrecia Martel (nascida na cidade de Salta, em 1966) através de alguns dramas, tão sedutores quanto intrigantes, como O Pântano (2001) e A Rapariga Santa (2009). São filmes que tendem para uma dimensão insólita, à beira do surreal, e tanto mais quanto se constroem a partir de um realismo muito cru dos espaços e dos corpos. Dito de outro modo: não surpreende que ela se interesse também pelas hipóteses criativas do registo documental. Assim aconteceu na média metragem Terminal Norte (2021), rodada durante a pandemia e evocando algumas tradições musicais do seu país; assim volta a acontecer em Nossa Terra, revelado no Festival de Veneza em agosto de 2025 e, dois meses mais tarde, vencedor do Festival de Londres. O primeiro e fundamental valor da proposta de Martel é, justamente, de natureza documental. Trata-se de evocar uma tragédia vivida na comunidade indígena de Chuschagasta, no norte da Argentina: em 2009, três homens armados entraram nas terras da comunidade, reclamando-as como sua propriedade legal; na discussão que se gerou, Javier Chocobar, líder dos Chuschagasta, foi morto a tiro por um dos homens. Apesar do homicídio ter sido registado em video (que o filme dá a ver), só em 2018 o crime foi levado a tribunal... Escusado será dizer que a visão de Martel é estranha ao estilo de “fait divers” feito para preencher nas rotinas de um qualquer “talk show”. Desde logo, porque, através de detalhados registos do próprio julgamento, vamos descobrindo as vivências específicas da comunidade, a par das tentativas da defesa para banalizar a gravidade daquilo que aconteceu. Depois, porque Martel vai criando uma textura narrativa em que os materiais de arquivo (em particular, as espantosas fotografias dos Chuschagasta) surgem como preciosa reconstrução de memórias ao longo de mais de um século — estamos, realmente, perante a celebração da “nossa terra” citada no título. Daí a importância de uma componente visual que está longe de se esgotar numa banal ostentação técnica. A saber: a notável utilização de drones para filmar a matéria fulcral desta história, ou seja, a terra dos Chuschagasta. Na verdade, muito para lá da vulgaridade “descritiva” de tantas formas de informação televisiva, a visão aérea da terra corresponde, aqui, a um elemento genuinamente dramático. Não são imagens pitorescas para mudar de um cenário para outro, antes elementos iconográficos que nos permitem conhecer os contrastes do espaço em que vive aquela comunidade — em termos simples, documentar é dar a ver. .'Nino'. Uma dupla revelação do cinema francês.'O Barqueiro'. Realismo e minimalismo em tom português