O mais elementar pragmatismo crítico justifica que lembremos que os prémios ganhos pelos filmes não são “profecias” sobre as carreiras dos premiados. Ainda assim, os dois Césares do filme Nino reconheceram talentos do mais recente cinema francês sobre os quais não será arriscado esperar um futuro artístico muito especial. Estamos, de facto, perante duas proezas invulgares: a realização de Pauline Loquès (melhor primeira obra) e a interpretação de Théodore Pellerin (melhor revelação masculina). O rigor formal e a delicadeza emocional do filme sabem lidar com um ponto de partida que poderia “atrair” as mais vulgares variações dramáticas. Pellerin interpreta Nino, um jovem a quem é diagnosticado um cancro — a ligeira alteração da sua voz estava muito longe de o fazer antecipar a notícia que lhe é dada pela sua médica. E tanto mais quanto, antes de começar o seu tratamento, o aconselham a fazer uma recolha de esperma para garantir a sua descendência... Há todo um imaginário social (também cinematográfico e sobretudo televisivo) que tende a encenar a doença através de grosseiras formas de “piedade”, reduzindo o paciente a um condenado a “cumprir” um destino de vítima. O mínimo que se pode dizer é que Nino existe, em tudo e por tudo, como um objeto estranho a tais maniqueísmos. Através da mise en scène de Loquès e da composição de Pellerin, o filme consegue desenvolver-se através de um fundamental paradoxo dramático: o conhecimento do seu diagnóstico leva Nino, não apenas a repensar os mais variados aspectos da sua existência, mas também a reconhecer a variedade de pontos de vista que os outros formulam sobre essa existência. Uma cena fulcral pode ajudar a resumir tal dinâmica: a visita de Nino a sua mãe (Jeanne Balibar, magnífica), depois de ter conhecimento do seu estado de saúde. Ao contrário do que Nino pensou, talvez mesmo contra as expectativas do espectador, a sua vontade de informar a mãe é contrariada por um receio difícil de vencer, o que não impede que a cena se desenvolva de modo subtil, abrindo para uma singela troca de memórias, dir-se-ia “inadequada” naquele momento. Trata-se, afinal, de um belo exemplo de construção narrativa: a ação de um filme não avança apenas porque são “acrescentadas” novas informações sobre as personagens. Por vezes, o avanço resulta de uma suspensão da informação, ou até da reconversão daquilo que o espectador já sabia. À sua maneira, Nino é também um filme sobre a instabilidade das matérias que os humanos partilham ou conseguem partilhar — estranhamente ou não, há em tudo isso um humor feito de pudor. .'Nossa Terra'. Uma memória feita de factos e drones .'O Barqueiro'. Realismo e minimalismo em tom português