A T-shirt cinzenta que enverga mostra os ex-libris do Porto, mas é de Lisboa que Brian Evenson começa por fazer o elogio. “É importante que os escritores sejam colocados em situações em que o que pensam saber comece a parecer incerto. Há algo na sensação de inquietação ou desconforto que é muito produtivo para a arte. E acredito que há algo nesta cidade que me coloca num estado de espírito que o permite”, afirma o escritor, sentado numa sala do Centro Nacional de Cultura (CNC). É ali que decorrem algumas das sessões do Disquiet, um programa literário que traz a Lisboa escritores americanos como Brian Evenson, mas também Erica Dawson e Dannie Liontas. Os três aceitaram falar ao DN sobre este desassossego que o programa quer causar, mas também sobre o seu trabalho e sobre os 250 anos da América. Dannie admite que “há algo nas nossas experiências diárias que é tão redutor”. Autor transgénero que ganhou fama com o seu livro de memórias Sex with a Brain Injury: on Concussion and Recovery, no qual aborda a saúde mental e as lesões cerebrais, acredita que é preciso “ter esse espaço para fazer perguntas difíceis, mais espirituais e existenciais. E há bastante espaço para isso no Disquiet”Já Erica confirma que “estar num ambiente diferente, é muito bom para os escritores, sobretudo os mais jovens, porque começam a ter uma perspetiva diferente deles próprios. E acho que essa é a essência do desassossego”. Todos eles são repetentes no Disquiet, um evento lançado em parceria pelo CNC e pela editora independente americana Dzanc Books. Brian esteve na primeira edição, em 2011 e voltou agora. Questionado sobre o que o levou a aceitar o convite original para vir a Lisboa, o autor de obras de ficção como Last Days ou A Collapse of Horses garante que nunca recusa um desafio. Mas admite que pouco sabia sobre Portugal, apesar de já ter feito uma recensão de O Livro do Desassossego quando a obra de Fernando Pessoa foi traduzida para inglês em 1991 e conhecer um pouco da obra de José Saramago, o único Nobel da Literatura português. O que encontrou em Lisboa não deixou de o surpreender: “Era uma cidade realmente interessante. Parecia que havia sempre algo a acontecer”. A veterana dos três é Erica, que já vai na sua décima participação no Disquiet. A poetisa garante que é a comunidade que a traz de volta, “isso e o facto de adorar Lisboa”. Amiga desde a infância de Jeff Parker, o co-fundador e diretor do programa, Erica não resistiu ao desafio do amigo para vir dar umas aulas em 2014. Foi também nesse ano que Dannie se estreou. Terminada a licenciatura, procurava “uma forma de sair do meu próprio modelo de escrita e experimentar algo novo”. E se admite que pouco sabia sobre literatura portuguesa antes, apesar de ter lido Ensaio sobre a Cegueira por recomendação de um amigo brasileiro, não esconde o espanto que sentiu a primeira vez que viu a estátua de Camões, no largo a que o autor de Os Lusíadas dá nome, ali bem perto do CNC, no Chiado. “Não temos isso na América, esse culto aos escritores. Não temos um dia dedicado a Walt Whitman, por exemplo!”Para Erica essa vinda a Lisboa foi também a primeira vez que saiu dos EUA. Mas já tinha ouvido falar de Saramago e até já tinha lido o Livro do Desassossego de Pessoa. “Havia algo nele que era muito emocional para mim, e tinha de estar sempre a parar de o ler. Lia um bocadinho e pensava: ‘não, preciso de tempo’. Depois lia um pouco mais. Levei muito tempo. Fiquei realmente cativada pela natureza daquele livro”, recorda. Antes de recordar: “fiquei encantada quando aqui cheguei. Era tão bonito. E vibrante. Mas não como Nova Iorque ou Los Angeles”. E para a autora de When Rap Spoke Straight to God, também a ligação que este programa permite desenvolver com autores portugueses e de língua portuguesa é muito importante. Mas o que é afinal o Disquiet? “Este diálogo de mais de década e meia entre escritores portugueses e norte-americanos tem revelado que o Atlântico é uma ligação mais forte do que todas as questões de curto prazo que possam surgir. A literatura é um fator de paz e liberdade”, explica ao DN Guilherme d’Oliveira Martins, membro da Direção do Centro Nacional de Cultura, que co-organiza o programa desde a sua primeira edição. Para Jeff Parker e Scott Laughlin, também cofundador e diretor associado do programa, esta 14.ª edição do Disquiet “foi um sucesso retumbante, com muitos escritores de língua inglesa a reunirem-se, mais uma vez, a conversarem e a aprenderem com as ideias e as palavras dos nossos generosos convidados e escritores lusófonos. E a cidade de Lisboa é, como sempre, a anfitriã mais inspiradora de todas.”Com tantos escritores americanos na capital portuguesa, vindos de geografias e antecedentes muito diversos, esta é também a ocasião para os portugueses ficarem com uma imagem diferente do panorama literário americano. Erica concorda que o Disquiet “é uma oportunidade fantástica para dar uma ideia de como é a literatura americana.” E, sobretudo, “dar às pessoas uma perspetiva diferente do que estamos a tentar fazer na América em termos de artes e humanidades, no geral”. Dannie, por seu lado, destaca “o tipo de censura que está a acontecer nos EUA”, explicando que “é algo implícito, subtil.” Uma ideia que Brian subscreve, afirmando que “é como se os editores estivessem a tomar decisões para tentar evitar chamar a atenção sobre eles”. E admite: “é estranho ser um escritor americano neste momento, porque pensamos: ‘eu represento os EUA, mas sinto que represento uma América muito diferente da que vejo nos noticiários’. Portanto, tentar mostrar às pessoas quem somos, quais os nossos valores, acho que é algo crucial.”As próprias histórias pessoais de Brian, Dannie e Erica são muito diversas. O autor e académico nasceu no Iowa, mas cresceu no Utah. E na juventude passou dois anos em França e na Suíça em missão para a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Mas quando lhe perguntamos se a fé ainda é importante para ele, explica: “Sou um mórmon excomungado. Fui criado na fé mórmon e depois excomungado por causa dos meus escritos”. Brian admite que nunca foi muito praticante, mas a experiência da excomunhão acabou por ser interessante para ele do ponto de vista literário porque “fez-me perceber que tudo o que fazia poderia importar, ter um grande impacto na minha vida. E acho que muitos escritores nunca têm essa sensação.”Agora a viver em Los Angeles, Brian diz adorar LA, uma “cidade enorme” com “todo o tipo de pessoas do mundo inteiro”. E questionado se existem muitos EUA dentro dos EUA, garante: “Não se trata de todos acreditarem na mesma coisa ou de ser uniforme. Mas sim de que as pessoas tiveram de aprender a conviver e a encontrar formas de se entenderem.”.Apesar de ter nascido na América, Dannie passou parte da infância na Grécia. “Os meus pais eram imigrantes. Tiveram um casamento arranjado que acabou por não dar certo”, explica. Ora se as suas primeiras experiências foram gregas, aos seis anos voltou aos EUA e hoje vive em Filadélfia. Mas admite que já lhe passou pela cabeça deixar o país. “Eu falo com a minha mulher a toda a hora, devemos ficar ou devemos sair do país?”, continua, mesmo se “acho que no final de contas não vou embora”, confessando a ligação ao seu país. Erica, por seu lado, nasceu em Columbia, no Maryland, e vive hoje não muito longe dali, em Baltimore. Mas pelo meio teve uma experiência na Florida que não correu muito bem. “Baltimore é uma coisa e Washington é outra completamente diferente. Por isso, estar mesmo no meio de uma Baltimore tão predominantemente democrata e daquele ambiente burocrático e republicano de Washington é, por vezes, um bocado confuso”, conta. Quanto à Florida, viver naquele estado foi “francamente assustador em muitos aspetos”, para Erica. “A cidade em que eu vivia era Tampa, predominantemente democrata, mas tinha pequenas bolsas de republicanos. Tampa era um bom exemplo de países diferentes num espaço muito pequeno. E passei por várias situações em que sofri discriminação, assédio e coisas do género. Depois, tive um problema de saúde que me obrigou a regressar ao Maryland. Foi assim que as coisas aconteceram”, recorda. A hora da resistênciaEm ano em que se celebram os 250 anos da independência dos EUA, questionamos Erica, Dannie e Brian sobre o que os deixa orgulhosos de serem americanos. Após uma ligeira hesitação, a poetisa explica: “O que me orgulha de ser americana é a forma como as diferentes comunidades se unem para lutar, nesta época em particular, contra a liderança do país, e como as pessoas se esforçam para se protegerem, protegerem as suas famílias, protegerem pessoas como elas, usando as suas vozes de uma forma arriscada e que coloca as suas vidas em risco. É a força destas comunidades que me orgulha.”Dannie não podia concordar mais, exclamando: “é uma resposta maravilhosa”. À qual apenas acrescentou: “há algo de genuíno no engenho, na garra e criatividade americanas. Por mais egocêntricos e egoístas que sejamos, preocupamo-nos com a justiça e a democracia, e as pessoas farão os sacrifícios necessários para as proteger.” E dá o exemplo de Minneapolis, em que “as pessoas se levantaram” contra as operações do ICE contra imigrantes.Recordando como viu da Alemanha, onde estava a viver na altura, a segunda eleição de Donald Trump, em 2024, com as pessoas à sua volta a perguntar-lhe “o que está a acontecer”, Brian conta que foi “muito difícil” para ele “refletir sobre a minha ligação à América nesse período”. Mas hoje garante que o que lhe dá esperança é “a ideia de que ainda nos podemos unir, de que há resistência que recusa ser esmagada”. .“O povo americano vive, e sempre viveu, no centro. O barulho vem dos extremos”