O Jack é um republicano eleito num estado azul. Quando conquistou o seu lugar por Long Island pelo Partido Republicano em 2022, isso foi um sinal de que, embora Nova Iorque continue a ser fortemente democrata, as coisas estão a mudar em algumas zonas?O meu distrito não é azul, nem vermelho. Eu fui eleito pela primeira vez em 2010. O meu antecessor era democrata. Saí em 2016 e o meu sucessor também era republicano, mas em 2018 perdeu para uma democrata. Ela fez dois mandatos e eu decidi concorrer de novo em 2022. Então é um daqueles assentos que pode alternar, tem muito a ver com a pessoa e com a política da pessoa, porque é um assento moderado. Uma grande percentagem das pessoas que votam neste distrito não são nem republicanas, nem democratas, são independentes. O Partido Republicano em Nova Iorque, quando eu fui eleito em 2010, tinha maioria no Senado estadual. Neste momento a maioria é democrata. Então, nos últimos 10 anos, o controlo das câmaras do Congresso estadual também foi mudando. E isso altera a forma como tomamos decisões a nível governamental. Em Nova Iorque tem mudado para a esquerda. Mas, por exemplo, nas eleições de 2024, houve zonas de Nova Iorque em que Donald Trump e os republicanos aumentaram bastante a sua votação…Depende das zonas. As zonas mais urbanas, a própria cidade de Nova Iorque, têm-se tornado mais azuis. Mas os subúrbios e as zonas rurais são mais conservadores, mais republicanos. Como em toda a América. E, na verdade, em todo o mundo.Falou da cidade de Nova Iorque e esta elegeu Zohan Mamdani como mayor há pouco mais de um ano. Como avalia o seu mandato até agora? Sei que tem sido um crítico das políticas do mayor democrata que se diz socialista…Acho que há pessoas que precisam de viver mais para poder exercer cargos políticos. O mayor Mamdani não tem experiência de vida suficiente para tomar as decisões que toma. Governar requer tomar decisões e assumir responsabilidades. O distrito pelo qual fui eleito faz fronteira com a cidade, o que eles fazem na cidade tem impacto para os nossos residentes. E eu tenho receio daquilo que estão a fazer. A ideia de aumentar os impostos [aos mais ricos e às grandes empresas] e usar o dinheiro para redistribuir pelo resto da população assusta-me. Vê nisso um certo populismo?É mais do que populismo. É a ideia que o que uma pessoa ganha não é dela. O que uma pessoa tem, seja terrenos ou bens, o Estado tem autoridade para tirar e dar a outros. Acho muito perigoso. Eu sou filho de imigrantes. Pessoas que apareceram num país sem nada e trabalharam para poder poupar e dar futuro aos filhos. Eu vejo a vida por essa perspetiva, do trabalho e da responsabilidade. E num país como os EUA e sobretudo num estado como Nova Iorque, em que temos a oportunidade de trabalhar e de ganhar dinheiro e de construir algo muitas vezes a partir do nada, a ideia que o Governo pode tirar-nos isso é assustadora. Já volto aos seus pais, mas os EUA celebram os 250 anos de independência. Esse sonho americano que moveu os seus pais e muitos outros imigrantes, ainda está bem vivo?Está, com certeza. Vê-se todos os dias. Nas nossas comunidades, portuguesas ou não, lusodescendentes ou não. Vê-se uma oportunidade que existe para qualquer pessoa, de qualquer parte do mundo, educados ou não educados, se tiverem vontade de trabalhar, têm oportunidade de ter sucesso. É difícil, mas ela existe. A diferença entre a imigração hoje e a imigração dos nossos pais e avós, é que quando os nossos pais e avós chegaram aos EUA, não entraram com a mão aberta, não pediram nada a ninguém, vieram com a expectativa de trabalhar e de poder ter sucesso. Acho que a imigração neste momento tornou-se um assunto político. Se queremos reformar a nossa política de imigração, é uma questão de mudar as leis, permitir que as pessoas entrem mas que as condições sejam bem claras. É uma questão de senso comum. Mesmo aqui em Portugal, se alguém aparece e diz: ‘estou cá, apareci sem convite e quero que me deem o que eu quero, ou o que eu preciso’, é um pouco difícil. Não sei se algum outro país, em qualquer parte do mundo, permitiria aquilo que nós vimos nos EUA. E não é uma crítica, é a realidade. Tem que haver regras, e nessas regras tem também de haver um respeito para com o país e a cultura em que estão a entrar. Vimos, neste momento, que há um esforço dos imigrantes recentes em impor a sua cultura no país que os recebe. E às vezes torna-se muito difícil ter esta conversa. Por exemplo, estamos aqui a falar em português, eu sei perfeitamente que as minhas raízes estão aqui em Portugal, mas também sei que sou americano.Os seus pais sempre fizeram esse esforço de equilíbrio - de integração, mas sem perder as raízes?Sempre. Mas sempre tiveram orgulho em estar nos EUA, nesse país que escolheram e que os acolheu, e isso é muito importante. Entraram com a ideia de se integrar e não de impor. Essa é uma diferença muito importante entre a imigração tradicional e o que está a acontecer hoje. Estamos a poucos meses das eleições intercalares nos EUA. O Jack tem-se manifestado abertamente a favor de uma maior cooperação entre republicanos e democratas - há alguma hipótese de que seja esse o caminho ou é cada vez mais difícil o diálogo e podemos esperar cada vez mais polarização?É mais difícil. No entanto, acho que a maior parte do povo americano encontra-se precisamente no centro. Pode ser centro-direita, pode ser centro-esquerda, mas no centro. Mas a maior parte também são pessoas que não vivem para a política. O seu esforço concentra-se em criar os filhos, trabalhar, enfrentar a vida. Então, o que vemos é que a parte da política mais agressiva e mais barulhenta são os dois extremos. Eles continuam a fazer mais barulho, mas a verdade é que o povo americano vive, e sempre viveu, no centro. O barulho vem dos extremos..Uma dessas vozes que faz muito barulho é a do próprio presidente Trump?Ele faz muito barulho. Mas temos de perguntar: quanto disso é ele a ser provocador? Eu conheço pessoas que têm contacto com ele, e o homem que vimos em público, esta figura pública que nós vimos, às vezes não é aquilo que acontece nos bastidores. Aí ele conversa com as pessoas e resolve problemas. Na verdade, há dois Donald Trump. Portanto, há muito barulho? Claro. Também podemos falar de Bernie Sanders, de Alexandria Ocasio-Cortez. Há muitas pessoas e personagens. E parte do problema é que muitas pessoas, neste momento, vivem a sua vida política à volta do Donald Trump. Se me perguntar quem é o líder do Partido Republicano, a minha resposta é Donald Trump. Ele é o presidente do país. Mas quem é o líder do Partido Democrata nos EUA neste momento? Eu até podia dizer que o líder do Partido Democrata, neste momento, também é Donald Trump. Para provocar um bocado. Os democratas vivem presos às palavras dele para responder àquilo que ele faz. Eles não têm uma identidade própria, nem um programa que estão a promover. Tudo no Partido Democrata tem a ver com responder ao Trump. O seu programa político é reagir ao presidente?Não há uma posição, há uma reação. E o país precisa de dois partidos independentes que não estejam a reagir, mas que estejam realmente a promover ideias. Neste momento, infelizmente, o Partido Democrata não está a promover ideias sem ser opor-se àquilo que o presidente faz. Umas vezes podemos concordar, outras não, mas eles vão sempre ao extremo. Se ele quer fechar as fronteiras nesta questão da imigração e quer mudar as leis, eles querem abrir as fronteiras. O que é um absurdo. Onde no mundo é que temos países que têm fronteiras totalmente abertas? Mas essa continua a ser uma política do Partido Democrata. E não acho que os membros do Partido Democrata achem esse ponto viável, que não é, mas é uma reação a Trump. Dizia há pouco que Trump é, sem dúvidas, o líder do Partido Republicano. Após dez anos e duas vitórias, o presidente moldou o partido à sua imagem ou ainda existe republicanismo para além do “trumpismo”?Há pessoas que dizem que o Trump nem é republicano. E que esta forma de trumpismo é na verdade um populismo, que tem a ver mais com a personalidade do presidente, do que com uma filosofia política comum. O Partido Republicano vai continuar a governar. E Trump vai continuar influente na política americana, mas eu acho que vai haver uma normalização do partido. Dos dois partidos, espero. Para poderem governar, mais ou menos, no centro. Dizem que há sempre uma ação que promove uma reação. Trump não apareceu sem mais nem menos, ele apareceu depois de Obama.É uma reação àquilo que existia nessa altura. Trump voltou em 2024, porquê? Por causa de Joe Biden e da viragem que este imprimiu à esquerda. Houve uma reação do país. E não podemos dizer que não é legítimo. Ele foi eleito, por margens enormes. Mas temos de saber que o povo, ao votar num, não quer dizer que abandonou o outro. Temos de respeitar a perspetiva do outro para chegarmos a uma conclusão e podermos encontrar soluções. Neste momento as pessoas não estão a conversar. Há 10, 20, 30 anos, podíamos ter essa conversa, e talvez chegar a um acordo. Toda a gente tinha que ceder um pouco, mas havia diálogo. Neste momento, não há diálogo. Há acusações, há política. Mas se olharmos para a geopolítica atual, o mundo precisa de uns EUA com uma voz comum. Seja no Médio Oriente, seja na Europa. Temos de procurar o centro.O Jack foi presidente da Câmara de Mineola, uma vila de 20 mil habitantes com uma forte comunidade portuguesa. Esta mantém laços fortes com Portugal? Agora em altura de Mundial, muitos estavam a torcer pela seleção e por Cristiano Ronaldo?Enorme. E o Cristiano Ronaldo é um grande exemplo, um bom exemplo para os nossos jovens. A forma que ele joga, a personalidade que tem, e o bem que ele tem feito. Quanto à comunidade portuguesa, o nosso núcleo em Nova Iorque é mais recente. No Massachusetts, no Connecticut, em Rhode Island ou mesmo Califórnia ou Havai, já vamos na quinta ou sexta geração. É uma imigração que começou há 100 anos ou mais. Em Nova Iorque, a nossa imigração é mais recente, é dos anos 1960, 1970, 1980. Estamos na segunda, talvez terceira geração. Portanto, sim, continua a haver laços fortes com Portugal. A língua e a cultura portuguesa continuam a ser uma prioridade para os pais. Um ponto que eu levanto quando posso com o governo português é manter esse esforço e prioridade em promover a língua portuguesa, especialmente na diáspora espalhada pelo mundo, porque depois de uma geração, ou duas, ou três, perde-se. As pessoas começam a identificar-se menos como portugueses. Então, é preciso promover a cultura, mas, mais importante, promover a língua. Em Mineola, a nossa comunidade é extraordinária. Numa geração, temos uma comunidade unida, com uma voz política. É raro numa comunidade imigrante recente esta integração, começar a eleger e promover elementos para a política, e, ao mesmo tempo, manter laços fortes com Portugal. Eu não conheço outra comunidade que tenha tido esse sucesso.A defesa da língua tem sido uma das suas prioridades. É difícil?Continuamos a ter escola portuguesa, mas torna-se difícil, porque é uma sobrecarga. Há 40, 50 anos, a prioridade era encontra professores para irem ensinar lá. Com o desenvolvimento do computador, da internet, temos de investir em meios de ensino que tornem tudo mais fácil. Se eu estou em Nova Iorque e quero que os meus filhos aprendam português, história de Portugal, mas não tenho tempo para as levar às aulas às terças e quintas-feiras ao fim da tarde e, ao mesmo tempo, os meus filhos estão a integrar-se com os seus amigos e não têm esse tempo, temos de dar oportunidade para eles aprenderem em casa, de uma forma que lhe convém e mais flexível.Os seus pais são da zona de Barcelos…Sim, freguesia de Alheira, concelho de Barcelos.Ainda lá tem família? Vem com frequência a Portugal?Sim, temos família em Barcelos, temos casa em Esposende. A família da minha mulher é de Leiria. Temos também família no Algarve, aqui em Lisboa, no Porto. Quando estamos cá, um dos grandes prazeres é visitar todos e voltar aos lugares de que gostamos. Jantar naquele restaurante onde já não íamos há vários anos, ver a diversidade cultural que temos em Portugal. Se vamos para o norte, paramos no Buçaco, ou em Aveiro, ou na Mealhada. Vamos a Barcelos, mas também a Viana de Castelo, ou a Valença. Há muito que ver, e cada sítio é diferente.Eventos como este Legislators’ Dialogue da FLAD, que este ano cumpriu o décimo aniversário, são também uma forma de manter o contacto, com Portugal, mas também com outros eleitos lusodescendentes de várias partes dos EUA?Estes convívios são muito importantes. Não só são uma oportunidade de podermos ter um diálogo entre nós, mas reforçam os nossos laços com Portugal..Um democrata e um republicano unidos pelas raízes açorianas e pela fé no sonho americano