Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos terão colocado na Base das Lajes, nos Açores, 32 armas nucleares. A morna mais conhecida de Cabo Verde, Sodade, popularizada pelo mundo inteiro por Cesária Évora, foi escrita em 1954 pelo violonista Armando Soares, um dos músicos de morna mais conhecidos de São Nicolau, e não por Armando Cabral e Luís Morais. A autoria foi-lhe reconhecida por um tribunal em 2006, mas o músico morreria quatro meses depois, aos 77 anos, sem receber dinheiro nenhum de direitos de autor. Em 2017, Nicolás Maduro decidiu oferecer aos venezuelanos pernil de porco para o Natal, mas a empresa portuguesa a quem foi feita a encomenda recusou-se a fornecer a mercadoria se o pagamento não fosse efetuado antecipadamente e saldada uma dívida anterior. Quem sofreu as consequências foram os emigrantes portugueses em Caracas, donos de supermercados. Estas histórias controversas são abordadas no livro Saudade que o autor, Henrik Brandão Jönsson, acaba de lançar em Portugal (Penguin) e que ele considera que podem interessar ao leitor português. Mas elas são apenas pequenos episódios da história maior, escrita originalmente em sueco pelo jornalista, que é perceber a palavra portuguesa “saudade” relacionada com a emigração. “Eu sempre tive curiosidade sobre essa palavra, porque é tão bonita e tão única. Não tem outra palavra no mundo que tenha dois sentidos ambíguos. Tristeza e alegria juntos. Sempre tive curiosidade, mas não sabia pessoalmente o que é saudade, até que durante a pandemia estava no Brasil e fiquei com saudades da Suécia. Não podia ir à Suécia. Comecei a fazer comida sueca no Rio, a escutar música sueca, estava com muita saudade. Então pensei, tenho que escrever sobre saudade e divulgar essa palavra bonita aos suecos, para eles entenderem o que é saudade”. A Penguin volta a editar um livro de Henrik Brandão Jönsson –em 2022 lançou Viagem pelos Sete Pecados da Colonização Portuguesa –, também por Saudade tocar num tema que se discute muito nesta altura em Portugal, explica Henrik Brandão Jönsson. “O livro fala muito de migração. Hoje em dia é um tema aqui em Portugal. Muita gente fala mal da imigração. Na Suécia e aqui. Mas o que eu acho estranho é que Portugal é um país de emigrantes. Agora tem pessoas chegando aqui e eu acho que Portugal podia falar melhor da imigração. E são muito criticados, os imigrantes. Então eu espero que o meu livro possa também contribuir para entender o que é a imigração. Não são ladrões que vão de um país para o outro. É para melhorar a vida”. Ao longo desta investigação em torno da “saudade”, que levou o jornalista a viajar para os Açores, Madeira, Cabo Verde, Venezuela e Estados Unidos, surgiram outras histórias que surpreenderam Henrik Brandão Jönsson – Brandão por via do casamento com uma brasileira –, correspondente na América Latina do principal jornal sueco (Dagens Nyheter) e que vive no Rio de Janeiro, Brasil, há 25 anos (ver entrevista ao lado). É o caso, por exemplo, da emigração açoriana para Central Valley, na Califórnia, para onde levaram uma atividade que conheciam bem na sua terra natal – as vacarias. Descobriu que quando os açorianos chegaram àquele grande vale separado da costa californiana pelas Cordilheiras Costeiras, os suecos já lá estavam. “Eu não sabia dessa história. Quando eu cheguei lá havia uma cidade ao lado de Turlock que se chama Hilmar. E Hilmar é uma palavra sueca, o nome é sueco. E as pessoas disseram, há uma colónia sueca aqui. O quê? E eles contaram-me toda essa história, que os suecos chegaram antes dos açorianos. Eram suecos que moravam em Minnesota, nesses lugares frios. E foram enganados, compraram terra em Central Valley e não tinham água. Depois chegaram os açorianos e eles não se entenderam bem, porque os suecos eram protestantes e os açorianos são católicos. Eles não casaram entre si.”Os açorianos levaram para a Califórnia a Festa do Espírito Santo (Holy Ghost Festa) que ainda hoje é uma grande celebração por aquelas terras – como aliás as touradas, embora “sem sangue” (Portuguese Bloodless Bullfights). Henrik Brandão Jönsson falou com muitos dos portugueses daquela região agrícola, mostrando como os emigrantes sentem a saudade, numa espécie de grande reportagem pintada pelas suas próprias angústias. “Retratando, explorando a saudade deles, também para entender a minha saudade. Entrevistei pessoas, migrantes, porque todo o mundo que emigrou tem saudades”, conta ao DN. . Há emigrantes portugueses espalhados por muitas partes do mundo, mas o ângulo do jornalista ficou bem definido à partida: os que vieram de ilhas. Por isso temos a emigração dos açorianos para a Califórnia, a dos madeirenses para Caracas, e a dos cabo-verdianos para Nova Inglaterra, nos Estados Unidos.“Os que são das ilhas, têm mais saudade. Todo o mundo que muda de um lugar para outro tem saudade. Mas se você vem de uma ilha, sente mais, porque tem saudade do mar. E há essa coisa também de uma ilha ser uma área restrita, você pode ver de um lado para o outro”. Alguns dos ‘personagens’ desta história são Daniel Martiniano, antigo caçador de baleias açoriano, Elda Medeiros, cujos pais emigraram para Turlock quando o vulcão Capelinhos entrou em erupção no Faial, era ela criança, ou o padre Isaque que aos oito anos, na década de 1980, também chegou a Central Valley. Também conhecemos a história de José Viveiros, que emigrou para Caracas com o padrasto e a mãe aos 13 anos, singrou e vendeu o posto de combustível antes que Chávez se apropriasse dele; ou de Dionísio Pereira, que partiu do Funchal para a Venezuela para fugir ao serviço militar, criou a sua própria empresa, vendeu-a, mas com a hiperinflação, perdeu todo o seu património; ou ainda de Fernando Campos, gerente dos supermercados Gama em Caracas que, na altura da polémica do pernil de porco, viu a Guarda Nacional invadir-lhe o escritório. A primeira vez que Henrik Brandão Jönsson entrou em contacto com a palavra “saudade” foi numa loja de discos em Lisboa, em 1993, ao ver o álbum de Cesária Verde com a canção Sodade. E para este livro ele viajou até Cabo Verde e falou com Sónia e Irineu Soares, os filhos de Armando Soares, reconhecido pela justiça como o autor da letra e música da mais famosa morna do mundo, e que também foi emigrante. Os cabo-verdianos são também um povo de emigrantes e neste livro ficamos a conhecer histórias de vida como a de João Cardoso Corrêa, 77 anos, originário da ilha do Fogo, que está há 25 anos em Brockton, Nova Inglaterra, e que não vê a mulher, Josefa, há 24 anos, por lhe ter sido recusado o visto. Mas este livro é também uma viagem pessoal de um emigrante sueco a viver no Brasil há um quarto de século. Nas conversas que foi tendo com os emigrantes com quem se cruzou, levantou-se a questão: onde morrer e onde ser enterrado? Morrer no país de acolhimento mas ter a morada eterna onde se nasceu? “Todos os imigrantes lutam com essa questão. Eles vão voltar para morrer? Algumas pessoas querem isso. E outras pensam, não, porque tenho aqui os meus filhos, os meus netos. Mas a maioria quer ser enterrado por um padre português.”Henrik Brandão Jönsson nunca tinha pensado nisso, mas o tema da morte do emigrante atravessou-se nesta narrativa, e ele até pediu conselho a dois padres com quem falou, um na Califórnia e outro na Venezuela. A resposta foi a mesma – o tempo ajudará a decidir – levando-o a questionar-se sobre se é uma pergunta padrão dos sacerdotes... A dúvida de Henrik acompanho-o neste livro, mas no final o escritor revela em que país quer morrer, e em que país quer ser enterrado. Henrik escreve sobre como ele próprio sente saudades da Suécia quando está no Brasil, e do Brasil quando está na Suécia, e de como os sabores são importantes para “matar saudades”. “A minha saudade não é do nacionalismo, da bandeira sueca, é dos sabores. Agora na Páscoa tive um ataque de saudade. Estava a ver a família no Instagram celebrando e abri a geladeira, achei uma lata de arenque, fiz ovos, arenque, matei a saudade”. A saudade também não tem o mesmo peso em Portugal e no Brasil. “Especialmente para os cariocas, a saudade é qualquer coisa. Ah, que saudade, esse sorvete! Você encontra uma pessoa ontem e encontra no dia seguinte, e que saudade de ontem! Então, a palavra não é tão pesada. Aqui em Portugal saudade é mais saudade, é mais séria, mais sentimental, mais melancólica”. Não se teoriza sobre a saudade neste livro, mas explica-se a origem da palavra e de como se enraizou na língua portuguesa. O autor cita Onésimo Teotónio Almeida - açoriano que se doutorou em Filosofia na Universidade de Brown, onde foi professor catedrático no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros - que diz que a saudade é um sentimento universal, mas que só o português tem uma palavra para o definir. Faz o contraponto com o linguista Marco Neves, que afirma que não é uma palavra intraduzível, embora não numa única palavra.Uma coisa é certa: com a globalização, há cada vez mais pessoas no mundo a sentir saudade. Henrik Brandão Jönsson considera que a palavra vai espalhar-se por outras línguas. Com os anglicismos a proliferarem, saudade pode bem tornar-se um “portuguesismo” em várias línguas por esse mundo fora. “Eu acho que no futuro, dentro de dez, 15 anos, as pessoas vão usar a palavra saudade no inglês, no mandarim... Porque é uma palavra única para o sentimento que está virando a norma. Você nasce num lugar, muda para outro. Todo o mundo, daqui a pouco, vai ter saudade. Acho que essa palavra vai espalhar-se. Na Suécia, por exemplo, nós usamos muitas palavras em inglês. Os suecos já estão a começar, por causa do meu livro, a falar ‘ saudade’, com pronúncia sueca.” . “Se o Flávio ganhar, ele vai abrir o Brasil à exploração americana”No livro Saudade relata uma conversa com Marcelo Rebelo de Sousa quando ele foi à reabertura do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, em 2021. Mas ele não gostou das perguntas.Não, ele não gostou, eu provoquei-o um pouco. São Paulo é a cidade onde há mais pessoas que falam português. Eu perguntei ao Marcelo o que ele sentia em relação a isso, que o Brasil, que é uma ex-colônia, tem um museu da língua que vem do Portugal. Ele realmente não gostou da pergunta. Porque ele tem orgulho que o português é de Portugal, não é do Brasil, o Brasil é uma ex-colónia. Então os repórteres de Portugal que estavam lá riam, porque eles não tinham, talvez, a coragem de fazer essa pergunta. Mas eu, enquanto sueco, não tenho nada a ver com isso. Então eu podia fazer essa pergunta.Como correspondente do Dagens Nyheter, acompanha mais a área política?Mais política, mas é claro que vou trabalhar na Copa do Mundo. Vou cobrir Portugal, Brasil e a Suécia, porque sou o único do jornal que fala português. Então vou ver o Colômbia-Portugal, em Miami. Talvez o último jogo do Cristiano Ronaldo.E como é que está a situação política no Brasil?Está muito difícil. Muito difícil, porque as pessoas cansaram-se de Lula. Lula fez muita coisa boa para o Brasil. Ele é uma pessoa maravilhosa, mas ele é um homem de 80 anos. Não tem herdeiro, não tem alguém que pode ganhar as eleições, mas as pessoas estão tão cansadas de ver Lula que eu acho que eles vão votar em qualquer um que não seja Lula.O que antecipa nos próximos tempos no Brasil, com as eleições?Quem na pesquisa é mais forte é o Flávio Bolsonaro, o filho de Bolsonaro, e ele pode ganhar. Ele é muito esperto, ele não usa o sobrenome Bolsonaro, ele só fala Flávio, Flávio, Flávio, Flávio. Porque as pessoas não gostam muito de Bolsonaro, mas como ele é Flávio, então não é Bolsonaro. Então há o risco de ele ganhar as eleições. Se o Flávio ganhar, ele já falou para Trump que ele vai vender os minerais raros para os Estados Unidos. Ele vai abrir o Brasil para a exploração americana. Agora tem muita exploração da China no Brasil, mas isso vai acabar, e os Estados Unidos vão entrar e enganar o Brasil pegando petróleo, minerais, pedras, essas coisas. Porque o Flávio já falou isso, vem para o Brasil, pega nossas coisas. E qual é a situação agora na Venezuela?Está melhor, mas ainda é uma ditadura, ainda tem presos políticos, a economia não vai para a frente. Mas eu acho que a Delcy Rodriguez é cen vezes melhor que Maduro. Ela está negociando com os Estados Unidos, está abrindo, mas o país está muito afetado pelo chavismo. Então vai demorar até pegar de novo. Mas eu, como jornalista, acho que é mais fácil ir para a Venezuela. Agora você pode fazer as matérias, a repressão não é tão forte como era dantes.Os emigrantes portugueses na Venezuela podem ter alguma esperança?Sim, eu acho que sim. Já falei com várias pessoas que saíram da Venezuela em 2016, quando havia fome, essas coisas. Foram para Madeira ou para o continente de Portugal e agora estão voltando para Caracas. Então tem mais esperança que a economia vai funcionar de novo na Venezuela.