Morreu Marina Vlady, estrela discreta do cinema francês
A atriz Marina Vlady morreu no dia 24 de setembro, contava 88 anos. A notícia foi divulgada pelos filhos, informando que o falecimento ocorreu “em casa, rodeada pelos seus familiares e pelos seus animais”.
Nascida a 10 de maio de 1938, de seu nome Catherine Marina de Poliakoff-Baïdaroff, filha de imigrantes russos, o seu aparecimento no cinema suscitou a ideia de que poderia ser uma espécie de “contraponto” à popularidade de Brigitte Bardot (1934-2025) — ela morena, Bardot loura. Ironicamente, nenhuma delas era loura natural. A popularidade de Vlady começou, aliás, com La Sorcière/A Feiticeira da Floresta (1956), de André Michel, um dos vários filmes em que surgiu com o cabelo louro.
O certo é que a sua trajetória acabaria por ser mais discreta, ainda que, sobretudo ao longo das décadas de 1950/60, sempre na linha da frente dos nomes mais populares da produção francesa e, a certa altura, também do cinema europeu. Foi, aliás, nesse período, mais exatamente no Festival de Cannes de 1963, que ganhou o prémio mais importante da sua carreira: melhor atriz em O Leito Conjugal, de Marco Ferreri, contracenando com Ugo Tognazzi.
Entre os cineastas que a dirigiram incluem-se Jean Delannoy (A Princesa de Clèves, 1961), Bertrand Tavernier (Vamos a Isto que É Festa, 1975), Márta Mészáros (Entre Mulheres, 1977) e Ettore Scola (Esplendor, 1989). Duas obras-primas destacam-se da sua filmografia, uma com assinatura de Orson Welles, outra de Jean-Luc Godard — eis uma breve memória desses filmes.
AS BADALADAS DA MEIA-NOITE (1965)
Ainda que interpretando a personagem secundária de Kate Percy (ausente do trailer), Marina Vlady era uma das presenças importantes em torno da figura de Falstaff, interpretado por Orson Welles (em muitos países, o filme foi mesmo lançado com o título Falstaff). Realizado pelo próprio Welles, representa uma das suas mais ambiciosas incursões no universo de William Shakespeare, assumindo uma personagem presente em várias das suas peças — trata-se de uma produção totalmente europeia, envolvendo empresas de Espanha, França e Suíça.
DUAS OU TRÊS COISAS QUE EU SEI DELA (1967)
Jean-Luc Godard inspirou-se numa investigação jornalística de 1966, na revista Le Nouvel Observateur, sobre a prática da prostituição por mulheres de famílias a habitar nos novos subúrbios da cidade de Paris — aquilo que “eu sei dela” remete, aliás, para a “região parisiense”. Marina Vlady interpreta uma dessas mulheres num filme em forma de puzzle, observando a decomposição dos valores familiares clássicos, o triunfo agressivo da publicidade e a necessidade de repensar o papel do cineasta (e dos artistas em geral) na sociedade de consumo.

