Magos Herrera, música mexicana, criou uma ópera inspirada num poema de Sor Juana Inés de la Cruz, uma mulher do século XVII, do vice-reino da Nova Espanha, figura muito à frente do seu tempo, a ponto de ser considerada a pioneira do feminismo na América Latina. E numa passagem por Portugal, para dois recitais, um na Fundação José Saramago e o outro na embaixada do México, Magos Herrera cantou El Mundo se Ilumina, uma ária de Primero Sueño, a ópera cuja música e libreto escreveu juntamente com a italo-americana Paola Prestini. A ideia será trazer um dia a ópera a Portugal, dando a conhecer Sor Juana, explica esta artista mexicana, que vive em Nova Iorque.“Sor Juana Inés de la Cruz foi uma mulher do século XVII da Nova Espanha. Ela tinha muita vontade de conhecimento, e, para poder perseguir essa paixão pelo conhecimento, decidiu ser freira em vez de se casar. Também porque a circunstância dela não era muito favorável ao casamento. E, sendo já freira, ela teve muito apoio da Coroa Espanhola no México, e, graças a essa relação, ela foi publicada. Era incrivelmente genial, multifacetada, porque ela era escritora, poeta, musicista. Perseguia o conhecimento em geral”, conta Magos Herrera, numa conversa totalmente em português, que diz ser a língua falada em sua casa, pois o marido é brasileiro. Ouvi-a cantar na embaixada mexicana, na Quinta de São João, em Monsanto, a convite do embaixador Bruno Figueroa e da embaixatriz Verónica González-Laporte, e surgiu a ideia desta conversa, que combinámos para o Martinho da Arcada, por ser o café onde ia Fernando Pessoa, por ficar perto de onde a artista está alojada, e também porque as fotografias junto ao Tejo lhe agradavam. É visitante frequente de Lisboa, diz adorar a cidade e, confessa, um objetivo é trazer a ópera Primero Sueño à capital portuguesa.Ainda antes de irmos ao processo que deu origem à ópera, Magos Herrera acrescenta um pouco mais sobre Sor Juana Inés de la Cruz, figura muito acarinhada no México: “No mundo machista da época, ela realmente transcendeu a circunstância dela e foi a primeira proto-feminista da América Latina. E o seu brilhantismo foi também o que fez com que a igreja, na época, num debate teológico, a acusasse de vaidade e a proibisse de escrever. Ela tinha feito uma carreira maravilhosa, e morreu sem escrever mais. Mas o mais lindo da Sor Juana, onde eu me conecto muito com ela, é que ela era uma mente sumamente universal. Ela nunca viajou, mas era totalmente universalista. E outra das coisas que me faz conectar muito com ela, é que era sonhadora”.Encomendada pelo Metropolitan Museum de Nova Iorque, Primero Sueño estreou-se nos Estados Unidos em 2025. Depois foi apresentada no México, em Puebla, e também no Congresso dos Deputados, na Cidade do México.“A reação foi maravilhosa. A ópera é o Primero Sueño, a obra-prima de Sor Juana, um poema fantástico, muito complexo. O único que ela escreveu por vontade própria, que não foi comissionado. É um poema muito verdadeiro, muito sincero, e trata da ascensão da alma. E nessa ascensão piramidal, encontra-se com Deus, com o Absoluto, e a alma se dá conta que não pode compreender, cai e termina no intento de subir de novo. Também me identifico muito com essa história, porque é a vida, é a nossa humanidade. Quisemos respeitar as palavras da Sor Juana, o poema é uma redução do essencial do poema. Decidimos deixá-lo em espanhol, e foi apresentado em Nova Iorque em espanhol. E foi um exercício bem importante, sobretudo agora, que o tema da imigração é tão delicado. A gente decidiu defender a palavra hispânica e tivemos sold out”, explica Magos Herrera. “Uma semana no Metropolitan Museum, sempre totalmente cheio. Houve tradução, mas o pessoal adorou. E no México nem se fala. Em Nova Iorque a ópera foi super bem recebida, e levamo-la para Puebla sem pensarmos que o bispo que tirou o direito da Sor Juana de escrever era o bispo dessa época em Puebla. Foi coincidência. Foi o primeiro lugar fora de Nova Iorque em que foi apresentada. A praça estava com cinco mil pessoas, democratizámos a peça abrindo-a a todo o público à frente da catedral, e com o bispo atual ali sentado. Achei que era muito poderoso”, acrescenta a artista mexicana.Cantora polifacetada, mas muitas vezes descrita como voz do jazz, com mais de dez álbuns editados (incluindo Aire), prémios internacionais e nomeações para os Grammy, pergunto a Magos Herrera como surgiu numa mexicana o entusiasmo pelo jazz, género musical que é associado nas origens aos negros nos Estados Unidos. “Na verdade, eu tenho curiosidade. Esse é o meu entusiasmo. Mas eu gostei da linguagem de jazz, porque, claro, o jazz é uma linguagem que nasce com os escravos negros dos Estados Unidos. E aí se desenvolveu e vem da música sacra um pouco. Mas tem vários elementos com que eu, quando estudei música, me identifiquei muito. A possibilidade de improvisar, de compor no momento. O interplay entre os músicos, o tipo de músicos com que você toca, tem muito sempre esse jogo de circunstâncias. E eu gosto de certo tipo de sofisticação harmónica. Mas, na verdade, eu tomei esses elementos, mas as minhas curiosidades me levaram também a conversar com música de câmara. Eu gravei discos com quartetos de cordas, com orquestras. Eu gosto muito da música de câmara, gosto de elementos de jazz, eu dou à voz uma abordagem muito jazzística. Mas também sou latino-americana e isso está na equação. Então, no final, eu acho que eu botei tudo numa sacolinha, que é a minha identidade artística”.Nessa identidade artística, que se expressa em espanhol e inglês, Magos Herrera também inclui o idioma português (na embaixada cantou Passarinhadeira, de Guinga, mas também Choro de Lua, de sua autoria) e revela que tem um projeto novo, muito ligado a Lisboa: “Eu acabo de musicalizar um poema de Pessoa, que eu quero gravar, que eu escrevi aqui em Lisboa. E eu gosto muito da língua portuguesa, que tem uma suavidade muito especial”.Acabamos a conversa no Martinho da Arcada como começámos, com Primero Sueño. A música mexicana gostava de trazer a sua ópera a Lisboa. Diz que são muitos os cenários da cidade onde a imagina. “É uma ópera visual, é imersiva. E sei que Sor Juana teve comunicação com Portugal”, sublinha, numa referência à relação da freira e poeta mexicana com a obra do padre António Vieira e à amizade que manteve com a duquesa de Aveiro..“O bolero é algo muito, muito parte do que é a alma mexicana”