'So Much Has Changed', o novo álbum de MARO, foi gravado em junho de 2024 no Brasil.
'So Much Has Changed', o novo álbum de MARO, foi gravado em junho de 2024 no Brasil. D.R.

MARO: “A música para mim tem que continuar a ser o escape criativo onde posso experimentar e divertir-me”

Artista que levou 'Saudade, Saudade' à Eurovisão em 2022 lança amanhã, 27, novo álbum de originais, 'So Much Has Changed', e apresenta-se com banda nos Coliseus de Lisboa e Porto a 26 e 28 de março.
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Muito mudou para MARO após a participação no Festival Eurovisão da Canção em 2022, mas não “a nível musical ou no trajeto criativo”, diz a artista ao DN, a propósito do lançamento do seu novo álbum de originais, So Much Has Changed, amanhã, dia 27 de janeiro. A principal consequência da sua ida a Turim em representação de Portugal, onde alcançou o nono lugar, foi aquela que já era esperada: “No mundo inteiro, mas na Europa principalmente, de repente, abriu-se um portal com muita gente que não conhecia o meu trabalho que passa a conhecer, e mesmo nos últimos dois anos já notei bastante diferença em turnê e em digressão, a tocar em sítios onde não tinha ainda tocado em nome próprio, por exemplo, na Noruega. E ver que há muita gente que conhece e que tem ligação até à canção Saudade, Saudade. Sim, houve uma grande mudança a esse nível”.

Mas o nome do álbum So Much Has Changed (Tanta Coisa Mudou) remete antes para um balanço de vida agora que chegou aos 30 anos de idade. “O disco inteiro é sobre isso. Foi escrito nos 29, a chegar aos 30, este peso de entrar numa próxima década e sentir também a perspetiva de vida a mudar”, diz MARO, nome artístico de Mariana Secca.

O álbum tem dez canções e termina com To Grieve You. “Vejo a vida de maneira diferente, e as canções do disco vão falando sobre isso. A última é o encerramento de um capítulo, de fazer o luto deste lugar de sensação de perda de como eu sinto as coisas, de ver de maneira diferente e deixar para trás o que me custava mais, as dores do coração neste caso. A canção é muito sobre alguém que era gigante na minha vida e que já não é, pode ser sobre o meu avô, sobre as relações amorosas, sobre qualquer coisa. E conseguir de certa maneira aceitar, mesmo dentro da mudança, que uma das coisas normais da vida também é a perda”. MARO assume que “uma percentagem muito, muito alta” das músicas que escreve são autobiográficas.

Musicalmente, a artista diz que cada trabalho depende muito das pessoas de quem se rodeia. “Se trabalho com uma banda tem um som, se trabalho com este produtor específico tem outro, sinto que é assim que eu me vou reinventando. Ao mesmo tempo, há um som muito constante, é muito evidente para mim que as coisas de que eu gosto continuam muito parecidas de quando eu era criança, as coisas que me tocam, as referências continuam lá, os Beatles eram gigantes quando eu era criança e continuam a ser gigantes nas minhas referências musicais”.

“O que vai mudando”, acrescenta, “ é continuar a ganhar referências novas, de bandas novas, artistas novos que continuam a aparecer e parcerias novas, à medida que eu vou trabalhando com mais artistas há pequenas MARO que continuam a sair. Como é tão genuíno, continua a ser muito eu”.

Para este novo álbum de originais a solo, que se segue a Hortelã, de 2023 (no ano passado lançou Lifeline em parceria com Nasaya), a artista trabalhou com quatro do seus “melhores amigos”, e por isso diz gostar tanto deste álbum. “Três deles são os músicos com que eu vou tocar em turnê, na banda, um é o meu melhor amigo de Berklee [escola de música em Boston, nos EUA], o Tommaso Taddonio que toca piano e teclados, e depois o Pedro e o Gabriel Altério, que são dois irmãos, o Pedro é guitarrista e o Gabriel baterista”.

Pedro e Gabriel são brasileiros e foi no estúdio deles, no Brasil, que So Much Has Changed foi gravado. O quarto elemento é um músico com quem MARO colabora regularmente. “A peça fundamental na realidade é o Nasaya com quem eu já lancei alguns projetos. Nós temos um som muito específico quando fazemos músicas juntos, mas aqui foi um bocadinho diferente, eu já tinha as canções, eu já tinha em mente a produção que eu queria fazer e o caminho que eu queria seguir, mas chamei na mesma o Nasaya para coproduzir o disco comigo e nota-se bastante a magia, o dedo do Nasaya no design do som.”

Nasaya, que trabalha em Los Angeles, cidade onde MARO viveu até ao ano passado - agora está radicada em Lisboa - não fará parte da banda que a acompanhará em digressão mundial este ano. A Tommaso Taddonio e Pedro e Gabriel Altério juntar-se-á Manuel Rocha, com quem MARO fez em 2018 o álbum MARO & Manel.

O novo disco da artista portuguesa é integralmente em inglês, mas não necessariamente a pensar na internacionalização da sua carreira e na digressão mundial planeada para 2026. “Podia ser, seria inteligente, mas eu não tenho feito nada com esse pensamento. Não sei se às vezes é até ingénuo, mas a verdade é que o que eu tenho prezado desde o início é manter este lugar quase de criança, a música para mim tem que continuar a ser o escape criativo onde eu posso experimentar, brincar e divertir-me e não ter qualquer outro motivo senão o puro prazer, a ligação verdadeira com o que está a acontecer em estúdio. Dessa parte eu quero cuidar tanto, tanto que acaba por nunca ser tocada por qualquer intenção futura.”

Este novo álbum acabou por sair-lhe em inglês, justifica MARO, porque na altura vivia fora de Portugal e trabalhava com produtores que não falavam português. Da mesma forma, aponta para o álbum Hortelã, quase todo em português. “Foi escrito numa altura em que passei bastante tempo em Portugal e era português todos os dias, claro que o português está sempre na cabeça, mas eu noto que o ambiente influencia muito a maneira como eu escrevo”.

Quando estava a escrever Hortelã, diz ainda, passou uns meses no Brasil e até há duas músicas no disco, Hortelã e Juro que Vi Flores, “que saem meio em português do Brasil, para as pessoas que ouvem acho que é um bocadinho confuso, porque é que a MARO, que é portuguesa, está a cantar com sotaque brasileiro? Eu deixo acontecer, o que acaba por acontecer naturalmente eu abraço. Tal como Saudade, de repente sai ali um verso em português, mas a música é em inglês, e este disco acaba por ser a mesma coisa, foram canções que saíram em inglês”.

O que não quer dizer que os próximos trabalhos sejam em inglês, porque, sublinha MARO, “eu sinto que mesmo com o Hortelã houve muita gente que não fala e não entende português que se conectou, e quero continuar a acreditar que eu não vou precisar nunca de escrever em inglês para conseguir que a minha música chegue lá fora”.

A artista entra em digressão europeia no dia 1 de março, em Berlim, e termina esta “primeira perna” da turnê nos dias 26 e 28 desse mesmo mês nos Coliseus de Lisboa e Porto, respetivamente. Pelo meio atuará com a sua banda em várias cidades por essa Europa fora, incluindo Paris, Londres, Bruxelas, Amesterdão, Zurique, Roma e Madrid. “Em várias salas de sonho para mim, por exemplo, os Coliseus em Lisboa e no Porto, e algumas salas da Europa, o Paradiso, em Amesterdão, a Roundhouse em Londres que também é uma venue icónica. Já são salas com um tamanho considerável.”

No alinhamento dos concertos incluirá a canção que a deu a conhecer a muitos europeus, na grande montra que é a Eurovisão. “Daqui a uns anos, se o repertório for muito vasto, será difícil incluir sempre todas as canções que o público quer, mas neste caso eu acho que Saudade, Saudade é um marco tão importante e não tão longínquo assim, faz agora quatro anos, e foi uma canção que abriu tantas portas e foi um verdadeiro ponto de conexão entre mim e muitas das pessoas que estão a vir aos concertos que faz todo o sentido tocá-la .”

Não será a primeira vez que MARO entra em digressão e toca em palcos estrangeiros, mas desta vez a situação é diferente. “Estou cheia de vontade de tocar com banda, passei os últimos dois anos a tocar com um projeto mais íntimo, é a minha primeira turnê de sempre que vai ser com uma estrutura maior, até vai ter um engenheiro de luzes, desenho de palco, é um show mais preparado. Até ao Trio Live Sessions era sempre uma coisa meio artista independente sem fundos”.

Em setembro estará em digressão nos Estados Unidos, mas a ambição é mais vasta. “A ideia é mesmo fazer a minha primeira turnê mundial, a América Latina mais para o final do ano, não posso dizer datas de nada, mas tentar chegar à Austrália, ao Japão, China e Índia, há vários sítios com que nós estamos a sonhar, e a ideia é conseguir chegar lá”.

MARO é uma compositora prolífica e tem muitas músicas guardadas em diferentes gavetas, uma delas a pensar num artista com quem há muito gostaria de colaborar. “Há vários, mas há um de que eu falo sempre porque tenho até um disco guardado para um dia se acontecer, já está guardado há muitos anos, se calhar quando chegar à altura tenho que escrever coisas novas, que é o Justin Vernon do Bon Iver. Acho que a nível de escrita é incrível, mas também de produção, adorava um dia, quem sabe, poder ir para o estúdio e criar qualquer coisa em conjunto”.

Para já diz que tem os próximos três álbuns “bastante delineados, a ver se este ano consigo gravar dois”. Para MARO, a escrita e a gravação em estúdio são mesmo a melhor parte do seu trabalho. “É o que me dá energia e o fogo para seguir e continuar a ter cabeça depois para a parte da logística. Por exemplo, este disco que vai sair agora foi gravado em junho de 2024, já faz um tempo, foi o único mês em que estive livre em 2024 de um ano inteiro de turnê. Precisava de descansar e então e usei esse mês para ir para o Brasil gravar um disco para mim.”

Agora quer deixar o So Much Has Changed “viver” e ser experienciado com mais profundidade pelo público. “Deixar as pessoas ouvirem cada música 200 vezes e entenderem coisas diferentes a cada vez que ouvem, e deixar o disco ganhar mais corpo antes de passar para uma coisa nova.”

Capa do álgum 'So Much Has Changed', de MARO.
Capa do álgum 'So Much Has Changed', de MARO.
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