Porquê um EP só com duas músicas?Porque, quando me põem regras, o meu primeiro instinto é tentar quebrá-las. E, geralmente, os EP têm três ou quatro. Eu tinha ali aquelas duas que me pareceram muito honestas. E muito honestas no sentido de que eu gostava muito daquelas músicas, era aquilo que eu queria dizer agora e não queria dizer mais nada. Eu até tinha mais outras duas músicas gravadas e misturadas e prontas para sair. Mas eu acho que estas duas eram as certas para sair agora. E, antigamente, um single tinha dois lados: o lado A e o lado B. Tinha duas músicas. E, portanto, achei muito bem fazer isto com duas músicas e chamar-lhe Lado AB. Por uma brincadeira com o lado A e o lado B. E com o meu nome, vá. O que é que este “agora” significa? Porque o vídeo da música Prá Frente, escrita por Agir, saiu no dia 14, na semana antes das eleições presidenciais.Na reunião que fizemos para determinar a data, nem sequer se falou nisto, era uma data próxima do concerto no Maria Matos. Mas, aproximando-se da data das eleições e pensando no conceito do videoclipe, é claro que pensei: temos aqui umas eleições perto da edição deste Lado AB, e do Prá Frente, que é uma canção que fala de muita coisa, do dia a dia, do avançarmos, mas também do acordarmos. Não só acordar, sair da cama e viver o dia a dia, mas acordar também em termos de questionamento, de sentido crítico. Juntou-se o útil ao agradável e, ainda por cima, numa das fotos que eu tinha para escolher para a capa estou a andar em frente a uma porta que é o número 18. Número 18, que é o dia das eleições. Eu não tinha capacidade computacional para pensar nisto assim, mas aconteceu. Vamos agarrar nesta coincidência e vamos unir os pontos. Obviamente que é uma canção que pede às pessoas para pensarem em consciência, de acordo com os seus valores, a sua conduta, e para não deixarem que ninguém escolha por elas e, se possível, pensarem sempre de forma progressista e progressiva, ou seja, para a frente. .O videoclipe também tem um simbolismo muito forte. Há aquele mural de Salgueiro Maia, há uma parede com vários cravos e há uma frutaria.É onde eu compro a minha fruta (risos).O nome da frutaria creio que deve ter uma origem chinesa.É, sim. A Liu. Eu, como artista, estou como a pessoa que sou, no sentido em que acho que a minha expressão artística tem de vir de uma visão do mundo que é minha, dos meus valores e da forma como eu concebo o que é a vida em sociedade, em comunidade. Quando vou fazer um documento sonoro e visual, gosto de colocar isso. Espero que as pessoas esperem isso de mim. Por isso é que ou gostam ou não gostam. Mas que não gostem ou que gostem por essas razões, porque sabem que eu vou sempre frisar esta minha visão do mundo. Quando chegámos à ideia de fazer um videoclipe de mim a andar e a correr sempre para a frente, de um lado para o outro, sempre a andar, a componente visual do que estava para além de mim era muito importante. A arte de rua, a arte urbana, os murais. Para mim, foi logo a primeira coisa: eu quero aqui murais e coisas que digam coisas em que eu acredito, que me são importantes. E Lisboa, sendo a cidade em que filmámos, tem imensos. Difícil até foi escolher. Esse simbolismo do mural ao pé da [Universidade] Nova, de Salgueira Maia - o dos cravos é lá ao pé, também - é como um saudar à liberdade, que as ações de Salgueira Maia e de quem fez o 25 de Abril nos trouxeram, me trouxeram. Essa liberdade de ser quem sou, de expressão e de pensamento. E a Liu, na verdade, é o sítio onde eu faço compras. É a minha frutaria de bairro. E eu gosto muito da Liu e do seu marido e dos seus filhos. Já nos conhecemos, ela conhece a minha filha desde bebé. É uma troca de conhecimento, para além de ser uma troca comercial, e de estar num bairro onde eu vivo. E é um pilar daquela comunidade. Até quando houve o apagão, em abril, a fila que aquele bairro fez para comprar as coisas da frutaria da Liu era gigante. E foram os comerciantes de rua, alguns deles não tendo nascido cá, que safaram o pessoal.Em relação à segunda música do EP - Mar de Rosas, escrita por Jorge Cruz - parece quase um jogo lírico com a voz.É precisamente isso. Tem muito suminho. Aquele texto é delicioso para quem gosta de pegar num texto e interpretá-lo e perceber caminhos possíveis para dizer as palavras. E ainda só estou no começo, porque, agora que vou levá-la para palco, ela vai crescer ainda mais em sentidos de que não me lembrei quando estava a gravar. Algumas frases - “a abelha dá o mel e a picada” e “também têm rugas os bebés” -, para mim são deliciosas. Isto é poesia, na verdade, é concentrar o máximo de significado no mínimo de carateres. Nunca tinha pensado nesta coisa. Depois, eu sou o único instrumento que transporta a palavra, tenho essa responsabilidade acrescida. Gosto de dizer “a abelha dá o mel e a picada” e de picar para as pessoas sentirem e visualizarem também através desta expressividade aquilo que o texto quer dizer. Sendo mãe de uma filha, o que é que te preocupa mais no mundo?Preocupa-me que a paz esteja ameaçada. Isso ameaça a vida de todos, principalmente da juventude. Ameaça a qualidade de vida. Ameaça a estrutura da sociedade. Ameaça a democracia e ameaça os direitos dos mais fracos, que somos todos. Quem acha que está muito bem, desengane-se. Só está bem quem está na cúpula do poder. Quem tem o poder é que vai ditar quem vive e quem morre. E, mesmo assim, às vezes há uma defenestraçãozita ocasional. Ninguém está bem numa sociedade que não seja democrática. A democracia não é perfeita. Ninguém é. É tudo imperfeito, é tudo mortal. Tudo tem imperfeições. Mas, de todos os sistemas, acho que é o melhor que serve esta ideia de um por todos e todos por um. Ninguém fica para trás. É nisto que eu acredito, e que é o desejo maior, que é a utopia, eventualmente. Nada no mundo está virado para isto. Está tudo virado para cada um por si. Para a lei do mais forte, do mais bruto. Ou seja, ser forte com os fracos e fraco com os fortes. Está um bocadinho assim. Como mãe de uma mulher - ainda não é mulher, é rapariga - preocupa-me muito, porque se há grupo maioritário - atenção, nós somos 50% da população, as mulheres - a quem são retirados alguns direitos, são as mulheres. Preocupa-me que a minha filha possa ter a sua liberdade de ação e de pensamento coartada no futuro. Contra isso lutarei sempre. A minha filha e a filha de quem quer que seja. Quero que as pessoas sejam livres e felizes..A voz de uma mulher é um instrumento poderoso?Sim, a voz da mulher é um instrumento poderoso e perigoso. Por isso é que ela é proibida em muitos países. Perigoso para quem? Para quem não gosta de ver as mulheres falarem sobre aquilo que lhes interessa e aquilo que as preocupa, sobre a sua visão do mundo, a sua liberdade como seres humanos, uma liberdade com a qual nascem e que deveria ser seu direito inalienável, como de qualquer ser humano. Mas é alienado muitas vezes e é uma voz que está ligada à terra. Somos pessoas de ciclos, estamos muito ligadas a ciclos mensais e essa é uma ligação que nos dá uma visão diferente. Não digo que é melhor nem pior, não acho isso, mas é diferente, e que por isso soma, deveria somar e deveria ser bem-vinda. Acrescenta e enriquece aquilo que será a visão de um homem, que não é uma visão tão ligado a um ciclo mensal, é mais diário, se formos à biologia. Mas isso é que é bonito, essas diferentes visões, e depois, para além do género e da biologia, o que cada um traz é único e irrepetível e deveria ser ouvido e importar para todos, porque a diversidade de visões, de opiniões, é uma riqueza.Há alguém com queiras partilhar um palco? Porque já partilhaste com grandes nomes, como Sérgio Godinho.Eu tenho essa sorte. Já partilhei o palco com praticamente todos os meus heróis e heroínas. Talvez o Jorge Palma. Ainda não cantei propriamente com ele. Será um dos meus heróis com quem não tive ainda oportunidade de cantar. A nível internacional… Uma pessoa pode sonhar, não pode? Claro, não há limites.Não me estou a fazer ao piso. As minhas heroínas já não estão cá. A Janis Joplin já não está cá. Mas quem ainda está cá é o tio Bob Dylan. E o Eddie Vedder, porque eu adorava Pearl Jam quando era miúda, e também adorava o Eddie Vedder, devo confessar, e continuo a adorá-los, não só pela música, mas também pelos valores que advogam. Eu sou próxima desses valores. Isto são sonhos, tudo sonhos. E gostava muito de fazer um dueto com a Maria João. Ela também é uma das minhas heroínas..Rui Vieira Nery: “A identidade portuguesa é um mosaico. É feita de diferenças”.Moisés P. Sánchez: “Respeito o folclore de Espanha, mas não sou um tipo do flamenco”