"Mário": esta é a história de um bailarino homossexual no Estado Novo

O espetáculo é inspirado na vida de Valentim de Barros, que esteve durante 40 anos internado no Miguel Bombarda. Estreia esta quinta-feira, no Cinema São Jorge, em Lisboa.

"Pai, quero ser bailarina". Mário está feliz com o seu sonho mas, perante a incompreensão da família, o menino-quase-adolescente que não quer ser serralheiro mecânico como foram o seu pai e o seu avô, foge de casa, na Cova do Vapor (Almada), atravessa o rio e instala-se em Lisboa, junto ao porto, com os pescadores, as varinas, as gaivotas, os marinheiros, os pedintes e os gatos. É ali que aprende a ler e a contar, é ali que cresce. Às vezes abusam dele. "Chamam-me Mário Larilas." Mas ele não se importa.

Sozinho no palco da sala 2 do Cinema São Jorge, em Lisboa, o ator Flávio Gil vai trocando de roupa à medida que Mário cresce e muda de vida. Esta é a história de um rapaz homossexual que, durante o Estado Novo, foi protegido por padres e coronéis e foi objeto sexual de homens importantes, mas que apesar de vir de uma família pobre conseguiu cumprir o seu sonho de ser bailarino. Dançou para Balanchine na Ópera de Paris, foi bailarino no Ballet del Colon, em Buenos Aires, integrou o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Era conhecido na Lapa como Mariete. E era feliz.

Voltou a Lisboa após a Segunda Guerra Mundial e foi preso por andar na rua vestido de mulher. "E que mal tem isso, senhor doutor juiz?", indignou-se. A sociedade conservadora da época não tolerava tamanha liberdade. Mário foi internado no Hospital Miguel Bombarda onde lhe tentaram curar "o homossexualismo" com choques elétricos. "Primeiro, éramos pecadores e fomos condenados pelos padres. Depois, fomos criminosos, julgados por juízes. Agora somos doentes e somos tratados por médicos."

A história de Mário é ficção mas inspirada em factos reais. Durante o Estado Novo, não havia oficialmente homossexuais, mas aqueles que se atreviam a falar da sua condição em voz alta eram reprimidos, como se conta no livro Homossexuais no Estado Novo, de São José Almeida. Entre eles, estava Valentim de Barros.

Quem era Valentim de Barros?

Em 2018, na gala da Associação Abraço, os Fado Bicha apresentaram uma música nova, intitulada Valentim. Lila Fadista subiu ao palco com um colete-de-forças vestido e depois de ler o relatório médico de Valentim de Barros interpretou o tema que homenageia o bailarino que esteve internado durante 40 anos no Miguel Bombarda, só por ser homossexual.

Nascido em 1916, Valentim de Barros começou a aprender a dançar aos 14 anos. Terá sido também por essa altura que iniciou a sua vida sexual e que percebeu como os homens, ricos e importantes, gostavam dele e o poderiam ajudar a concretizar os seus sonhos. Pintava e chegou a ter aulas de dança com a professora Ruth Aswin no Teatro Nacional D. Maria II, às escondidas da família. Aos 20 anos, como contou Bruno Horta numa longa reportagem publicada em 2015, Valentim de Barros fugiu para Espanha. Em Madrid, dançou em boites e fez "danças de fantasia". Daí terá ido para Berlim e depois para Estugarda, onde integrou o corpo de baile do Teatro de Ópera. Regressou a Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial, expulso da Alemanha não se sabe por que motivos.

A sua ficha na Polícia de Vigilância e Segurança do Estado (PVDE) data de 1939. Valentim tinha 22 anos. A 23 de março, o relatório policial fala da possibilidade de uma doença mental. Foi internado pela primeira vez no Hospital Miguel Bombarda a 18 de junho de 1939. "Modos afeminados, melífluos, dengosos, denunciantes da sua inversão sexual. Perfeitamente calmo, humor natural. Respostas adaptadas, longas, circunstanciadas, voz afeminada" - assim determinou o primeiro exame naquela instituição. "Toda a sua atividade está dirigida no sentido sexual", anotou o médico do hospital, num exame posterior, para quem a intensa vida sexual de Valentim seria patológica. Diagnóstico: "Psicopatia homossexual e pederastia passiva."

Nos anos seguintes alternaria entre períodos de internamento e períodos em que procurava ter uma vida normal e prosseguir com a sua carreira de bailarino. Mas havia sempre problemas: vestia-se de mulher, envolvia-se em distúrbios. A 10 de junho de 1948 Valentim de Barros foi leucotomizado. A operação deveria acalmar-lhe a "constante agitação". Em janeiro de 1949 foi internado definitivamente.

Quando Luís d'Oliveira Nunes o entrevistou para um artigo publicado no Diário de Lisboa, em 1968, encontrou-o no quarto-cela "a fazer tricot, rodeado de santos, pássaros e flores, a falar fluente e corretamente alemão, francês e espanhol." Dedicava-se à pintura (fazia cenários em lençóis) e participava nas festas de natal do hospital.

A seguir ao 25 de abril de 1974, Valentim de Barros passou a ter liberdade de movimentos e visitava muitas vezes a irmã mas continuou a morar na enfermaria do hospital. Maria João Avilez entrevistou-o para o Expresso em 1980 e descreveu-o como "mais personagem que doente, mais caso social que mental e sobretudo mais memória que vida". Morreu em fevereiro de 1986, tinha 80 anos.

Valentim foi praticamente esquecido até que, em abril de 2013, Sandro Resende, professor de arte no Hospital Júlio de Matos, organizou no Pavilhão 31 do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (Hospital Júlio de Matos, para onde foi transferido o acervo do Miguel Bombarda), a exposição coletiva Distopia, onde se incluía um cenário de seis metros por três desenhado e pintado por Valentim de Barros em 1974. Em novembro desse ano, no mesmo Pavilhão 31, Sandro Resende montou a exposição "Valentim de Barros", com desenhos, cenários, postais de Natal e bonecas que o bailarino produziu, assim como uma gravação áudio captada no quarto do bailarino.

A história de Valentim de Barros também foi contada, em 2017, no ensaio de António Fernando Cascais, "Onde eu não dance, a solidão fá-lo por mim: Valentim de Barros", incluído no livro Hospital Miguel Bombarda 1968. Nesse mesmo ano, foi homenageado na gala da Abraço. No seu discurso, Inês Marto diz: "Valentim de Barros é aquele que dançou na cara do preconceito. Valentim de Barros é aquele que, acima de todas as opressões, continuou a dizer que voltaria ao palco, que voltaria à vida. Valentim de Barros, mais que tudo, é aquele que contra tudo, fez restar sonhos, habitou-se deles, e não deixou de se chamar Bailarino."

De Valentim a Mário

A ideia inicial foi da encenadora São José Lapa que, depois de ler uma reportagem de São José Almeida no jornal Público, ficou com vontade de fazer um espetáculo sobre Valentim de Barros e encomendou um texto a Fernando Heitor. "Eu propus-lhe fazer uma peça a partir dessa história mas com uma outra personagem, porque não tinha dados suficientes, iria ter sempre que inventar, portanto decidi criar uma personagem nova: têm em comum o facto de serem bailarinos e terem estado internados no Miguel Bombarda para curarem a homossexualidade", explica o dramaturgo. "Mas a São José Lapa não conseguiu apoio para fazer o espetáculo e eu fiquei com o texto em casa."

Um dia, ao falar disto com Flávio Gil, ator e dramaturgo que costuma trabalhar no Teatro Maria Vitória, começou a nascer entre eles a ideia de fazer um espetáculo, mesmo sem terem dinheiro. "Juntámos um grupo de pessoas e decidimos avançar. Não tínhamos espaço, batemos a várias portas, levámos com elas na cara e depois tivemos sorte e o São Jorge acolheu-nos. E aqui estamos."

Ao início, Fernando Heitor não sabia muito sobre Valentim de Barros. Além de pesquisar sobre o bailarino, fez também uma enorme investigação sobre a época. Tanto ele como Flávio Gil leram muito e viram vários filmes, para terem uma ideia de como era a vida na Lisboa dos anos 50 e 60 do século XX. "Ajudou-me muito a poesia de Mário de Sá Carneiro, de António Botto, de Mário Cesariny", explica o autor, que decidiu incluir excertos de alguns poemas. "O Botto fala muito desta Lisboa boémia, do Cais do Sodré, da vida nos bairros." Há um momento em que Mário sobe para cima de uma cadeira e declama: "Desde pequeno o meu sonho era ser homem, ser marujo, embarcar."

"Tinha noção que ser homossexual naquela altura seria muito diferente, mas não deixei de me supreender com toda a pesquisa. Fui conhecendo outras histórias, que não são a do Mário nem do Valentim, mas são absolutamente inacreditáveis para alguém que, como eu, nasceu em 1990", explica o ator Flávio Gil. "Estamos a falar de alguém que termina a vida privado da sua liberdade. Acho que esta peça, mais do que nos dizer como eram as coisas antes, vem recordar-nos a importância de termos evoluído tanto e de já não ser assim. E é uma chamada de atenção para darmos importância ao que conquistámos e não abdicarmos disso a troco de coisa nenhuma."

Em Portugal desde 1982 que a homossexualidade deixou de ser considerada um crime e os últimos anos têm sido de progressiva aceitação: desde 2010 que é permitido o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As mudanças vão para além da lei. "Há uns anos não seria sequer possível fazer este espetáculo. Evoluímos muito nos últimos 20 anos", diz Fernando Heitor. Ainda no outro dia, a equipa saiu para a rua para fazer os vídeos de promoção do espetáculo e Flávio Gil andou pela avenida de liberdade com um vestido e pés descalços, sem provocar sequer um revirar de olhos. "Está aqui um homem de saia, de lantejoulas, e ninguém liga nenhuma. Isso é muito bom sinal", conclui o encenador.

Mário

Cinema São Jorge, Lisboa
de 8 de agosto a 1 de setembro
De quinta a domingo às 19.00 (ao sábado também às 22.00)

Interpretação - Flávio Gil
Texto e Encenação - Fernando Heitor
Direção Musical - João Paulo Soares
Movimento - Carlos Prado
Desenho de Luz - José Álvaro Correia

Exclusivos