Sweeney Todd será mais conhecido pelo filme de Tim Burton, de 2007, com Johnny Depp e Helena Bonham Carter nos papéis principais. No entanto, Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street estreou como musical na Broadway em 1979 pela mão de um dos grandes nomes do teatro musical: Stephen Sondheim. Sweeney Todd é uma personagem de um penny dreadful, um tipo de literatura popular britânica do século XIX, com histórias de crime, horror ou mistério, intitulado The String of Pearls. A história foi transformada em peça de teatro e levada à cena em 1970 pelo encenador britânico Christopher Bond, em Londres, que desenvolveu ainda mais a personagem de Sweeney Todd. Foi depois de ter visto esta peça teatral que Sondheim criou a sua versão com música e libreto de Hugh Wheeler. Na altura da sua estreia em Nova Iorque houve quem a considerasse uma ópera contemporânea, e que em vez de estar na Broadway poderia ser apresentada na Metropolitan Opera. Conta a história de Benjamin Barker, um barbeiro que regressa a Londres após anos de exílio forçado sob o nome de Sweeney Todd. Ele foi condenado injustamente pelo juiz Turpin que cobiçava a sua mulher, Lucy. Quando volta, descobre que a mulher já morreu e a filha, Johanna, está sob tutela do juiz. Ele jura vingança, reabre a barbearia e começa a matar os clientes com uma navalha. Alia-se depois a Mrs. Lovett, dona de uma pastelaria falida que passa a usar os corpos das vítimas para fazer empadas. No final, a sede de vingança acaba por destrui-lo. A última vez que este musical foi apresentado em Portugal foi em 2007, no Teatro Aberto, e agora Sweeney Todd: O Cruel Barbeiro da Rua Fleet é trazido de novo ao palco pela Lisbon Film Orchestra (LFO), no Teatro Armando Cortez, em Lisboa, de 2 de abril a 3 de maio. Esta nova versão do musical de Sondheim tem direção musical de Nuno de Sá, que também traduziu e adaptou o texto, e é encenada por Pedro Pernas e protagonizada por Bryan Carvalho (Sweeney Todd) e Vânia Blubird (Mrs. Lovett). Esta é a segunda encenação profissional de raiz do ator Pedro Pernas - depois do musical Os Últimos Cinco Anos, produzido também pela LFO -, que procurou fazer uma versão própria. "Nós optámos por comprar os direitos de forma a que pudéssemos dar a nossa visão e, consequentemente, podermos fazer de forma diferente, tentar dar uma nova perspetiva". . O ponto de partida foi uma entrevista dada por Sondheim em que ele dizia que quem narra a história são as próprias vítimas, em flashback. “Quando revisitamos um clássico queremos sempre encontrar algo novo. Porque estar a fazer o que já foi feito é um pouco chover no molhado. Essa é sempre a nossa intenção e, neste espetáculo, a ideia foi criar uma Londres em decomposição pós apocalíptica, em que as vítimas do Sweeney Todd se encontram através da Rua Fleet e acabam por decidir contar a história do que lhes aconteceu”. Criou-se uma “ambiência mais conceptual”, explica Pedro Pernas, com uma instalação cénica que tenta respeitar a época, o século XIX, mas não de forma rigorosa. “O guarda-roupa e algumas partes do cenário têm apontamentos desse tempo, digamos que são resquícios que por ali estavam, objetos e adereços que reportavam ao século XIX, a que aquela trupe de almas decidiu recorrer para contar a sua história”.O encenador diz que o objetivo foi “construir algo poético e contar uma história que, apesar de ser muito macabra, tem ao mesmo tempo simbologia e pode ser contada de uma forma mais leve, para que tudo o que é mais sangrento não tenha um peso muito grande, que não seja o ponto fulcral. Não há terror, não há nada disso, há bastante humor até, com algumas das personagens, que ajudam a dar essa leveza ao peso da história em si, dos crimes”. . Fazendo jus ao nome, a Lisbon Film Orchestra incorpora no musical também uma componente de vídeo, "para trazer um pouco do cinema ao teatro". "É apanágio da Lisbon Film Orchestra ter essa vertente também de cinema. Quando se faz teatro dá-se sempre um toque também de videografia para fazer essa ligação ao cinema", diz Pedro Pernas. "Toda a parte narrativa do que aconteceu ao Sweeney e à família 15 anos antes da história começar, que foi o que espoletou tudo, é em memória e fomos nós que filmámos tudo". O filme Dogville, de Lars von Trier, também serviu de inspiração, com o conceito de parede invisível, em que as coisas estão a acontecer separadamente, mas o espetador consegue visualizar tudo o que se está a passar ao mesmo tempo. "Foi um filme muito marcante por isso, não só pela história dura, mas também porque a vila onde eles viviam não tinha paredes, eram só as marcas no chão, como se fosse um cenário de teatro. E temos muitos pormenores desses, às vezes utilizamos paredes invisíveis para dar duas, três ações em simultâneo".A participação de Pedro Pernas em Sweeney Todd vai para além da encenação, pois ele interpreta também uma das personagens, o juiz Turpin. "O mau da fita...Torna este projeto um pouco mais desafiante e trabalhoso para mim". O juíz Turpin entra em cinco cenas e tem dois pequenos duetos com o Sweeney Todd. . Para a escolha do restante elenco foram feitas audições. Além de Bryan Carvalho e Vânia Blubird participam João Guimarães (Beadle Bamford), Marta Kaufmann (Beggar Woman e Pirelli), João Marques (Anthony Hope), Beatriz Cadete (Johanna) e Pedro Alma (Tobias Ragg).Para Bryan Carvalho, que também entrou no musical Grease (cantado em inglês) e que tanto está à vontade a cantar em inglês como em português, "este musical não faria sentido ser apresentado em Portugal se não fosse em português. A história é muito dinâmica, tem muitos detalhes. E acho que se perderia muita coisa se fosse em inglês. Muitas das piadas não puderam ser traduzidas literalmente, porque não iriam ter piada em português. Ou seja, teve de haver não só uma tradução, mas uma adaptação do texto. E é isso que vai fazer com que o público se vá sentir parte da história".Sweeney Todd, diz, é "um desafio muito grande pela personagem em si, mas especialmente pela música. O Steven Sondheim, o compositor, escreveu algo que é mesmo muito meticuloso, virtuoso também, mas que tem muita nuance, que nos dá muitas dicas de interpretação, mas também quase que rasteiras, ou seja, a música faz com que o ator esteja sempre um bocadinho at the edge of their seat, como dizem os ingleses, sempre à espera do que vem a seguir, porque temos que estar sempre muito atentos aos tempos e às harmonias e às nossas entradas." . Na preparação deste papel, e ao contrário do que costuma fazer, Bryan Carvalho viu outras apresentações deste musical. "Vi várias produções, agora mais recentemente, já depois de termos aprendido a música decidi mergulhar um bocadinho mais fundo neste mundo, tentar perceber o que é que vai dentro da mente de um serial killer ou de uma pessoa que possa estar a passar por um momento muito trágico. Sejamos honestos, é um homem que perdeu a mulher e a filha, que foi preso injustamente e que volta a Londres com o intuito de se vingar."A parte mais exigente do espetáculo, "vocalmente e até emocionalmente", considera Bryan Carvalho, é o seu solo Epifania. "Há uma viragem aí na peça em que ele agora assume que se o mundo está contra ele, ele está contra o mundo também. É muito exigente emocionalmente e musicalmente, puxa muito pela voz, porque tem muita agressividade, tem muita raiva, mas também tem muita tristeza, porque ele lembra-se da filha e da mulher, da Lucy, e portanto é assim uma montanha-russa de emoções." Para Vânia Blubird será o segundo musical de Sondheim em que participa em pouco tempo (também entrou no musical Company dirigido por Henrique Feist no ano passado, no papel de April). Em Sweeney Todd é Mrs. Lovett e assume que é um papel exigente. "Eu arrisco-me a dizer que é a coisa mais difícil que eu já fiz na vida. E acho que o elenco, quase todo, partilha da mesma opinião. Não, todo mesmo. Sondheim é conhecido por ser muito exigente. Ele tem uma escrita muito densa. As melodias não são fáceis de apanhar. Há muitas notinhas estranhas, precisamente para criar estas dissonâncias que refletem aquilo que nós somos. Nós não somos sempre coisas bonitas. A vida tem muito disto, tem muito de beleza no meio do caos."O facto de a música ser tocada ao vivo torna o espetáculo "muito mais especial para quem vê", diz Vânia Bluebird, mas acrescenta complexidade para os interpretes. "A exigência é maior também, porque temos de estar muitíssimo sincronizados e em sintonia para conseguirmos fazer tudo com rigor. Mas eu sinto que, para quem vê, é muito mais especial".Apesar de ser um história com um lado sombrio, Vânia Blubird acredita que nesta versão do musical conseguiu-se uma leveza que abre o espetáculo a mais público. “Há muito mais humor do que noutras versões. Nós fomos encontrando momentos de graça, de humor negro, de coisas leves no meio da escuridão do tema central, que fala muito sobre mortes, sobre vingança. É uma coisa muito escura, é quase um thriller, um musical de terror. E nós fomos encontrando muita graça pelo meio. Esse humor que nós fomos imprimindo veio dar leveza. Sinto que a partir dos 12 anos já se pode ver e desfrutar da história.” .“Este espetáculo não é só sobre o Sr. Engenheiro, é sobre a portugalidade".Sofia Escobar: “Evita veio fortalecer a capacidade que nós mulheres temos de lutar”