'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'
'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'Foto: Reinaldo Rodrigues

“Este espetáculo não é só sobre o Sr. Engenheiro, é sobre a portugalidade"

'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical' inspira-se em José Sócrates para fazer uma sátira social. Estreia quarta, 1 de abril, no Tivoli, onde fica até 10 de maio. Ruma depois ao Coliseu do Porto.
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Durante cerca de 90 minutos, dez atores e seis músicos a tocar ao vivo levam o espetador numa viagem que começa nas Beiras, onde nasceu e cresceu o “Sr. Engenheiro” – e o seu melhor amigo – e acaba com uma “prescrição final” que abrirá ao antigo primeiro-ministro deste musical novos horizontes (que não divulgaremos). Neste trajeto ouvem-se frases como “posso ser ladrão, mas sou alegadamente, mesmo que aconteça à frente de toda a gente”; ou “no processo penal há a prescrição, de recurso em recurso alegremente até à prescrição final”.

'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'
'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'Foto: Reinaldo Rodrigues

O “Sr. Engenheiro” está rodeado de outras personagens, como a procuradora, o advogado, a namorada, a secretária, a ministra, o motorista, o homem que entregas as pizzas, a filha ou a ex-mulher. Também entram em cena Hugo Chávez – “os Magalhães são tan bonitos...” – e Lula da Silva que vem falar de um livro que não leu de um engenheiro que não o escreveu...E não esquecer o professor de Equivalências: “Sou engenheiro de domingo porque mudou a hora. Que caia aqui uma vaca se não for verdade”, diz o Sr. Engenheiro que paga tudo, a casa em Paris e as férias em Formentera, com as notas do melhor amigo. “Dinheiro vivo, porque eu não confio em bancos”, justifica. Mas “o BES era certinho...”. Além disso, “ser ministro é um Freeport de oportunidades!”.

'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'
'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'Foto: Reinaldo Rodriguess

O motorista recebe os envelopes cheios de “fotocópias”. O homem que entrega a as pizzas demora a entender: “Fotocópias são dinheiro, agora já percebi porque visto da Primark e eles Armani”.

O texto deste musical é inspirado em informações públicas relacionadas com o processo judicial contra José Sócrates, mas Henrique Dias, o autor do texto, e Rui Melo, encenador e coautor das canções, apontam para uma crónica de costumes portuguesa.

'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'
'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'Foto: Reinaldo Rodrigues

“Isto é uma farsa, é uma brincadeira. Até o próprio cenário apela a isso. Nós construímos uma espécie de um palco barroco dentro do palco do Teatro Tivoli, com telões à antiga, pintados, para simular esta coisa que é a farsa teatral. Em que o público conhece a história toda, mas os atores comportam-se como se estivessem a vivê-la pela primeira vez. Eu gosto muito dessa ideia de poder brincar com uma história que as pessoas conhecem, com factos públicos, exagerá-los um bocadinho e transformá-los num espetáculo”.

'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'
'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'Foto: Reinaldo Rodrigues

Mais do que isso, Rui Melo considera que “este espetáculo não é só sobre o Sr. Engenheiro, é sobre a portugalidade. É sobre o chico-espertismo português. E pode funcionar também como um espelho. Nós conhecemos a história, e já só nos resta vê-la.”

Engenheiro entre aspas

Este espetáculo produzido pela a UAU foi anunciado no final do ano passado e desde essa altura que os bilhetes estão à venda. De lá para cá, há uma pequena diferença no cartaz, revela Rui Melo. “Não sei se perceberam as aspas no cartaz. O senhor é engenheiro, entre aspas. Nós tivemos um pedido da Ordem dos Engenheiros a dizer ‘não chamem engenheiro ao homem’. Nós atendemos e pusemos engenheiro entre aspas.”

A encenação deste musical que reuniu um grande conjunto de profissionais, que ensaiaram durante 216 horas, teve os seus desafios, sublinha Rui Melo. “É das coisas mais complexas que eu já fiz em teatro. Porque tem muita coisa a acontecer ao mesmo tempo. Nós temos 70 pessoas em permanência em palco a mexer aquilo tudo. Parece tudo muito orgânico, muito fácil, mas está toda a gente a sofrer lá atrás. Inclusive os atores que fazem tudo, fazem todas as personagens. A grande dificuldade foi olear isso tudo. Os atores ao fim de uma semana já sabiam o texto, já se divertiam muito com ele. Mas depois olear todo o mecanismo foi um grande desafio.”

'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'
'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'Foto: Reinaldo Rodrigues

Manuel Marques é o “Sr. Engenheiro” desta peça e confirma as palavras de Rui Melo. “Este cenário é complexo, as nossas mudanças de roupa são complexas, não há um momento de descanso. Estamos sempre alerta, num nível de concentração máximo, não pode haver um descuido, senão, já fomos. É mesmo um processo muito complicado ali atrás.”

A construção da personagem do “Sr. Engenheiro” foi para o ator um processo com várias camadas. “A primeira leitura, depois apanhar algumas coisas do ‘verdadeiro’, tive que juntar a dança e o canto. Mas também não ser uma coisa muito perfeitinha, ser uma caricatura... Eu já não cantava há muito tempo, tinha feito o musical Os Produtores há muitos anos, mas nunca mais tinha cantado na vida. Agora estou a reeducar a minha voz para cantar. Foi um processo.”

A música deste espetáculo é original e foi escrita por Rui Melo e Artur Guimarães, cabendo a este último a direção musical. Artur Guimarães também toca o piano e é acompanhado por Tom Neiva na bateria, André Galvão no baixo, João Valpaços no violoncelo, Marcelo Cantarinhas na guitarra e Inês Nunes ou Carlos Domingues na viola d’arco.

“Eu acho que a composição está incrível. Todas as canções são muito orelhudas. A minha filha mais nova veio ver ontem e estava a cantar as músicas o caminho todo, ficaram no ouvido. Acho que vão ficar na memória”, diz Manuel Marques sobre as canções deste musical.

'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'
'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'Foto: Reinaldo Rodrigues

O ator contracena no palco com Alexandre Carvalho (o homem que entrega as pizzas e outros personagens), Brienne Keller (a filha), Jorge Mourato (o melhor amigo), Marta Andrino (a namorada), Miguel Raposo (o advogado), Samuel Alves (o motorista), Sílvia Filipe (a secretária), Sissi Martins (a ministra) e Rita Cruz (a procuradora).

Miguel Raposo também elogia as músicas, “são maravilhosas, todos nós gostamos muito das músicas, vamos com as músicas para casa, acordamos a cantá-las”. O desafio, diz, foi “tentar fazer com que pareçam divertidas e fáceis, quando na realidade são bastante difíceis para nós”.

'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'
'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'Foto: Reinaldo Rodrigues

Rita Cruz diz que os ensaios foram muitos divertidos e a dificuldade foi “manter o foco e a concentração para não nos desmancharmos”. O mais interessante para Sissi Martins foi pegar “num assunto muito sério e desconstrui-lo para uma brincadeira. A parte mais divertida foi ver os nosso colegas em cena, partilhar a diversão com eles, até foi difícil, como a Rita dizia, concentrarmo-nos”.

Brienne Keller realça a temática, “uma sátira com um texto tão engraçado, o documentar tudo isto de uma forma tão leve e divertida. Somos todos muito próximos e divertimo-nos muito, e quando isso acontece, a combinação é mesmo muito feliz”.

'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'
'"Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical'Foto: Reinaldo Rodrigues

Houve muita diversão diz Alexandre Carvalho, mas também “foi muito exigente, porque é um espetáculo em que não paramos um segundo”, sublinha. “Vamos tentar que haja pelo menos uma cena que corra bem num dos dias, não nos rirmos, porque foi muito difícil estarmos sérios”, brinca o ator.

Para Henrique Dias, que teve a a ideia de fazer um musical inspirado em José Sócrates, um desafio prontamente aceite por Paulo Dias da UAU, o resultado final ficou “acima das expectativas”.

O musical estará em cena no Teatro Tivoli, em Lisboa, até 10 de maio, e entre 14 e 17 de maio será apresentado no Coliseu do Porto.

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