A calçada portuguesa ganhou esta sexta-feira, dia 27 de fevereiro, uma nova forma, com a inauguração, em frente à Estação do Rossio, em Lisboa, do primeiro memorial da capital integrado no projeto europeu Stolperstein, criado em 1992 pelo artista alemão Gunter Demnig. A iniciativa – cujo nome está ligado à ideia de tropeçar em pedras, como explicou o vereador da Câmara de Lisboa Diogo Moura no momento da inauguração – propõe inscrever no espaço público a memória das vítimas do holocausto nazi, que é em simultâneo uma forma de lhes devolver presença no quotidiano das cidades. O momento contou com a filha de uma das milhares de mulheres que conseguiram chegar a Portugal através de vistos assinado pelo cônsul de Bordéus Aristides de Sousa Mendes. Assim, Lisboa, último país da Europa ocidental a integrar esta rede de memória descentralizada, fá-lo num lugar com simbolismo. A estação ferroviária do Rossio foi, durante a Segunda Guerra Mundial, ponto de chegada e de partida de refugiados, diplomatas, espiões e crianças que se refugiaram na capital portuguesa, algumas delas antes de partirem para outros lugares, como os Estados Unidos. O monumento agora inaugurado não é monumental na escala, mas na intenção: trata-se de uma intervenção na calçada portuguesa, executada pelo mestre calceteiro Luís Pereira, que articulou a tradição artesanal lisboeta com uma das mais vastas iniciativas de memória europeias..Durante a inauguração, Luís Pereira, incentivado por Diogo Moura, chegou mesmo a comparar a sua mão esquerda com a mão que, através daquele desenho minucioso feito em pedras, está agora representada na calçada.O regresso de uma memória que não existiaO DN encontrou, junto ao momumento, Jeannette “Cookie” Fischer, que pediu para ser tratada apenas por Cookie. A sua mãe, Ada van den Bergh Fischer, fugiu da França ocupada em 1940. A família percorreu 850 quilómetros, de Nice a Bayonne, ao longo de um mês, num plano de fuga que culminaria num lugre de sardinhas rumo a Leixões. De Portugal, Ada partiria depois para Nova Iorque, a 28 de agosto de 1940, a bordo do navio Excalibur.O visto que permitiu a travessia foi concedido por Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português em Bordéus que desafiou as instruções do regime de Salazar – nomeadamente a Circular 14, que proibia a concessão de vistos a judeus e outros refugiados – e carimbou milhares de passaportes. Em Bayonne, de acordo com o relato de Cookie, terá colocado uma mesa no meio da rua para assinar vistos, entre eles o da sua mãe, cujo passaporte, com a assinatura abreviada “Mendes”, se encontra hoje preservado na sinagoga de Cascais..Neste ponto, Cookie explica que Aristides de Sousa Mendes só assinava com o nome completo quando os vistos eram passados em Bordéus. Noutras circunstâncias, aparecia a assinatura apenas com "Sousa Mendes". De qualquer forma, como descreve a filha da sobrevivente, não há registos sob a forma de livros que mostrem a evolução dos vistos, porque, no fundo, era uma transgressão.Curiosamente, Cookie desconhecia esta história até 2016, mais de duas décadas após a morte da mãe, no México. “Eu não sabia nada”, garantiu. Só ao viajar para Portugal com a Sousa Mendes Foundation tomou conhecimento do percurso que a trouxera, simbolicamente, de regresso ao ponto exato onde a mãe desembarcara. Durante anos acreditara que Ada chegara a Santa Apolónia. Apenas no dia da inauguração percebeu que fora no Rossio. “Só hoje sei que ela chegou aqui”, disse.Reparação e democratização da memóriaA iniciativa de trazer o projeto Stolpersteine para Lisboa partiu de Luciano Waldman, arqueólogo e historiador ligado ao Centro Cultural Judaico. Há cinco anos começou a articular contactos com a Câmara de Lisboa para integrar Portugal nesta rede europeia. O processo foi moroso, inicialmente dependente da Direção-Geral do Património Cultural.Luciano Waldman, ao DN, sublinha dois eixos fundamentais: a dimensão europeia e a vocação universal. “Não queríamos algo apenas para a comunidade judaica”, explicou. “Há vítimas portuguesas do Holocausto que não eram judias.” A dificuldade prática de localizar moradas específicas – exigidas pelo modelo original das Stolpersteine, colocadas junto às últimas residências conhecidas das vítimas – levou à opção por uma pedra de homenagem coletiva, instalada num espaço público de grande circulação.A escolha do Rossio não foi arbitrária. Além de ser uma das portas ferroviárias internacionais da cidade, a estação tornou-se símbolo de trânsito e incerteza. Luciano Waldman recorda, de forma extemporânea, a chegada de comboios selados vindos de França, a passagem de cerca de 290 crianças refugiadas e a presença de sobreviventes de campos como Bergen-Belsen, onde morreu Anne Frank. Portugal foi, nas suas palavras, “uma grande sala de espera” para entre 60 mil e 80 mil refugiados que aguardavam destino..Para o historiador, a pedra representa “uma verdadeira reparação” num país onde persistiu a ideia de que a neutralidade o colocara à margem da guerra. Portugal vendeu volfrâmio à Alemanha nazi, mas também cedeu a Base das Lajes, na ilha Terceira, aos Aliados. “Temos de reconhecer o lado positivo: as pessoas que sobreviveram e cujos filhos e netos estão hoje aqui”, afirmou.Luciano Waldman aproveitou o momento para destacar o "papel da lei dos sefarditas", que permitiu a obtenção de nacionalidade a descendentes de sefarditas, que, defende, "acabou por incentivar monumentos como este".O compromisso político e culturalO vereador da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Diogo Moura, enquadrou o memorial como reafirmação do compromisso da cidade no combate ao antissemitismo, à xenofobia e ao racismo. Sublinhou ainda a dimensão identitária da intervenção, que passa pela integração da calçada portuguesa – cuja candidatura a património imaterial da UNESCO está em preparação – como suporte do memorial. O trabalho dos calceteiros municipais, descrito como “quase joalharia” pela sua minúcia, inscreve a memória europeia na matéria da cidade.Também presente, João Taborda da Gama, coordenador nacional da Estratégia Europeia de Combate ao Antissemitismo, destacou o simbolismo de inaugurar o memorial virado para o Largo de São Domingos e para a igreja associada ao massacre de 1506, episódio de violência contra os judeus na Lisboa quinhentista. A localização, disse, articula diferentes camadas históricas: a expulsão dos judeus no final do século XV, a perseguição nazi no século XX e o presente europeu que procura enfrentar o antissemitismo contemporâneo.Luciano Waldman, brasileiro de nascimento, criado em Israel e residente em Portugal há mais de uma década, recordou que a presença judaica na Península antecede a fundação do próprio país. Figuras como o astrónomo Abraão Zacuto e o matemático Pedro Nunes marcaram a história científica e cultural portuguesa. O primeiro livro impresso em Portugal foi uma Bíblia judaica escrita em hebraico, lembra Luciano Waldman. “Os judeus fazem parte intrínseca da sociedade portuguesa”, acrescentou.A sua maior preocupação, contudo, reside na tentativa de dissociar essa pertença histórica por via de conflitos externos. Nos últimos dois anos, relata, tem sido alvo de ameaças e vandalismo, incluindo grafites em espaços de memória como a Rua da Judiaria. Para Luciano Waldman, confundir identidades nacionais com tensões geopolíticas contemporâneas alimenta apenas o ódio."Nós realmente fazemos parte da sociedade. O que me preocupa é que as pessoas, hoje em dia, tentam desassociar esta união que sempre houve entre os judeus e a sociedade portuguesa por questões que acontecem fora de Portugal", conclui..890 contas bancárias com ligações aos nazis na Segunda Guerra Mundial foram descobertas no Credit Suisse.Marco de Paolis: “Muitas vítimas dos nazis não queriam contar as histórias por recearem não serem acreditadas”.O pai foi salvo por Aristides de Sousa Mendes. Ela quer inspirar o mundo com a história