Em resultado de mais de 15 anos de investigação, interrogou criminosos nazis e falou com as suas vítimas e familiares. Encerrado esse capítulo que também lhe trouxe muita dor, Marco de Paolis passou a partilhar a sua experiência, seja através da curadoria de uma exposição itinerante, seja em conferências e encontros nas escolas, seja ainda através dos livros. A convite do Instituto Italiano de Cultura, o procurador passou por Lisboa. Pode contar aos portugueses o que é aquilo a que se chamou o “armário da vergonha”?Em 1960, o procurador-geral militar em Roma estava no Supremo Tribunal Militar — um órgão que já não existe — e no dia 14 de janeiro assinou 695 despachos que denominou de arquivamento provisório. Tratava-se de despachos que arquivavam ilegalmente centenas de processos relativos a milhares de massacres e assassínios cometidos por nazis, especialmente soldados alemães, durante a ocupação nazi de Itália. Centenas de processos judiciais foram escondidos, encobertos, arquivados ilegalmente. Naturalmente, durante 35 anos, nada foi feito pelo sistema judicial; o facto de estes ficheiros terem sido ocultados significou que não houve julgamentos ou investigações sobre estes acontecimentos. Estes processos vieram novamente a público, descobertos por acaso, em 1994. Como?Dois anos antes, em 1992, foi identificado um capitão das SS chamado Erich Priebke, um dos responsáveis pelo massacre nas Fossas Ardeatinas, em Roma. Este massacre foi um dos principais ocorridos em Itália durante a ocupação alemã. Trezentas e trinta e cinco pessoas foram fuziladas em 24 de março de 1944, em Roma, na zona das Fossas Ardeatinas, no interior das pedreiras de tufo calcário. Este oficial, Priebke, estava na Argentina. Como muitos nazis, fugira para a América Latina para evitar a captura. Havia um mandado de captura pendente contra ele, emitido por um juiz militar italiano em 1946. De forma imprudente e incauta, em 1992, deu uma entrevista a um jornalista norte-americano onde falou sobre estes acontecimentos. Quando a entrevista foi exibida na televisão italiana foi iniciado o processo para o trazer da Argentina para Itália. E, então, em 1995, começou o julgamento deste nazi em Roma. E o que tem a ver com o “armário da vergonha”? Porque, enquanto decorria este julgamento, o procurador militar em Roma, sabendo da existência de um arquivo onde estavam guardados estes documentos, escondidos desde 1960, pediu autorização para aceder ao mesmo, pois queria verificar se existia algum documento relacionado com o caso das Fossas Ardeatinas. Este arquivo veio a público com todos estes documentos que ninguém tinha analisado durante dezenas de anos. Foi um jornalista de investigação italiano chamado Franco Giustolisi - que morreu em 2015 - quem cunhou o nome de “armário da vergonha”, porque era um armário que continha uma desgraça, ou seja, os documentos que tinham sido escondidos, e esta operação foi considerada uma desgraça. Por isso, chamou-lhe o armário da vergonha. A partir de 1994, estes ficheiros começaram a ser enviados para os gabinetes dos procuradores militares competentes. E, na verdade, tudo isto aconteceu de forma bastante lenta, porque foi nomeada uma comissão de inquérito para determinar o conteúdo destes documentos. Esta comissão trabalhou durante cerca de um ano e meio e, após esse período, decidiu remeter os autos aos procuradores competentes. E assim foi feito: alguns procuradores abriram alguns julgamentos, mas poucos, apenas quatro foram realizados, em comparação com centenas e centenas de casos. No final da década de 1990, ou melhor, em 2000, em Itália, acreditava-se que este capítulo judicial tinha chegado ao fim, mas nessa altura já era impossível encontrar qualquer criminoso de guerra vivo. Esta situação terminou com estes quatro julgamentos, e mais ninguém estaria vivo, encerrando, portanto, a atividade judicial.Mas não acabou.Em 2002, começou outra história. Fui nomeado procurador-chefe militar em La Spezia, situada na Ligúria, perto de Génova. E, no meu gabinete, encontrei cerca de uma centena de processos, arquivos judiciais referentes a um número igual de massacres e, além disso, todos eles eram os massacres mais graves, sangrentos e significativos cometidos em Itália. Vou referir alguns nomes que talvez não conheçam: Mazzabotto Montesole, na Emília-Romanha, perto de Bolonha, com 800 vítimas, 216 das quais crianças; Sant’Anna di Stazzema, na Toscânia, perto de Lucca, com 400 vítimas, 110 crianças; San Terenzo, na Toscânia, com 350 vítimas; Civitella, em Valdichiana, na Toscânia, 200 vítimas. Durante a ocupação nazi alemã de Itália, entre 8 de setembro de 1943 e maio de 1945, tivemos aproximadamente 25 mil vítimas civis de crimes de guerra, mortas pelos nazis e fascistas, e aproximadamente 100 mil soldados italianos mortos em toda a Europa, incluindo em Itália e, principalmente, no estrangeiro..Como explica o facto de estes ficheiros terem estado ocultos entre 1960 e 1994? Os motivos para este ocultamento são certamente políticos. Não sou historiador, por isso posso ter uma opinião pessoal, mas a minha não é uma opinião científica, porque o meu trabalho é diferente. Mas posso referir aquilo que a historiografia contemporânea acredita ser a explicação. A historiografia italiana contemporânea predominante acredita que se trata de uma motivação política. Em 2003, foi nomeada uma comissão parlamentar de inquérito com o objetivo de responder a esta questão. Como acontece frequentemente nestes casos, mesmo tendo surgido sob os melhores auspícios, a comissão dividiu-se, com o tempo, em dois campos. O centro-direita chegou a uma conclusão bastante simples: o procurador-geral foi negligente por razões inexplicáveis. Já o centro-esquerda aceitou as conclusões da historiografia contemporânea: acreditava-se que as motivações políticas se deviam essencialmente a duas causas. Uma das razões prendia-se com a necessidade de não penalizar em demasia a Alemanha e de garantir que o país se pudesse aproximar da esfera de influência ocidental. Na década de 1960, a Alemanha estava dividida em duas partes, Ocidental e Oriental, a Guerra Fria estava em pleno andamento e as duas coligações, o Pacto de Varsóvia e a NATO, enfrentavam-se. Havia, por isso, a necessidade de integrar a Alemanha Ocidental na esfera de influência da NATO. Assim, era necessário afirmar que o passado tinha ficado para trás, que já não havia necessidade de falar sobre os crimes nazis e, consequentemente, virar a página. Havia uma segunda razão, relacionada com o facto de, na primeira parte da guerra, quando éramos fascistas e aliados dos nazis, os soldados e militares italianos também terem cometido muitos crimes de guerra, sobretudo nos Balcãs, na Grécia, na Albânia e até na África Ocidental. Estes países exigiram que a Itália entregasse aproximadamente mil criminosos de guerra italianos, e a Itália recusou-se a entregá-los. Assim, terminar o capítulo judicial com os nazis, com a Alemanha, significou obter em troca a impunidade para os criminosos de guerra italianos.Da centena de processos que tinha em mãos obteve a condenação de 57 nazis, mas nenhum foi preso. Foi feita justiça? Este é um ponto sensível. Houve várias condenações a prisão perpétua nos meus julgamentos, 57, mas ninguém foi preso porque tanto a Alemanha como a Áustria nunca quiseram entregar os condenados, os perpetradores. Algumas pessoas falaram de justiça simbólica, mas eu não acho que seja simbólica. O facto de alguns criminosos condenados não terem cumprido as suas penas não diminui a importância fundamental dos julgamentos, porque tivemos dezenas de milhares de famílias italianas sem justiça. Durante demasiados anos os criminosos ficaram impunes. Se não se fizer justiça, se não se declarar formalmente que aquele comportamento foi incorreto, corre-se o risco de tornar aquele ato correto. Os julgamentos tiveram essa importância fundamental. Primeiro, para afirmar que aqueles factos, aqueles crimes, ocorreram, porque muitos duvidam deles. Se não se realizar um julgamento, se não se responsabilizar as pessoas que cometeram estes crimes, o tempo passa e alguém pode pensar que estes crimes nunca aconteceram. Como no caso do Holocausto, os crimes cometidos pelos nazis nos campos de extermínio de judeus, porque sabemos bem o que significa o negacionismo - nega o Holocausto, nega a Shoah e, a um nível inferior, nega também estes crimes. Portanto, o primeiro valor reside no facto de os julgamentos estabelecerem, de forma institucional, com a máxima formalidade do Estado, que estes factos ocorreram. Em segundo lugar, estabelecem algo mais: que estes factos têm um nome e um apelido. Ou seja, foram cometidos por esta ou por aquela pessoa. Não morreram atingidas por um raio, um cataclismo ou um furacão. Em terceiro lugar, o comportamento que levou àquela morte é ilegal, é um crime. Ou seja, é um juízo de valor negativo. Nas minhas investigações interroguei cerca de 1500 vítimas, entrevistei e conheci mais de uma centena de nazis, verdadeiros criminosos, assassinos nazis. Assim, deparei-me muitas vezes com algo que também aconteceu entre os judeus que escaparam dos campos de extermínio. O quê?Muitas pessoas não queriam contar estas histórias, estes factos porque receavam não serem acreditadas. Ou seja, muitas vezes os judeus não contavam certas coisas porque eram tão graves, tão inverosímeis, que pareciam mentira. Porque quando se matam centenas de pessoas sem qualquer motivo, sem uma razão aparente, é difícil contar essa história, pois a outra pessoa pergunta “porquê?” e não se consegue explicar. Isto é algo que observei em várias sobreviventes que não se queriam manifestar por medo de não serem acreditadas. O que é algo terrível e muito grave internamente, pois eu próprio sofri uma violência, um luto, uma dor e uma tristeza enormes. Portanto, se durante 30, 40, 50 anos o Estado não procurar os criminosos, que mensagem é que passa às famílias, às vítimas e ao público? Que estes acontecimentos não são provavelmente crimes. Assim, o julgamento, mesmo após um longo período, tem a função de esclarecer, de declarar que aqueles comportamentos são crimes. E esta é a razão importante e essencial, porque os julgamentos devem ser realizados independentemente do tempo que decorra entre o incidente e o momento do julgamento. O tempo não rege a justiça; não é a passagem do tempo que determina se uma pessoa é culpada ou inocente, mas sim a lei.Qual é a perspetiva das famílias das vítimas?O que disse antes compreendi precisamente graças às vítimas. Ou seja, as vítimas, as famílias das vítimas, sempre tiveram a postura de exigir um julgamento a todo o custo, independentemente da condenação e da sentença, porque tinham um grande interesse em mostrar ao mundo, que estes acontecimentos ocorreram e que foram crimes, pelo que precisavam de uma afirmação pública de responsabilidade. Por isso, sentiram que foi feita justiça, mesmo que ninguém fosse preso..Divulgar como forma de justiçaMarco de Paolis, de 66 anos, podia ter feito como antecessores seus e arquivado os processos sobre crimes da ocupação nazi. Não só cumpriu as suas funções, para que “a mensagem que possa emergir seja o compromisso de proteger sempre os direitos humanos, e que pode haver um juiz que possa intervir mesmo 60 anos após os acontecimentos”, como faz questão de torná-las conhecidas. Além do livro Caccia ai Nazisti, é o curador da exposição itinerante Nonostante il lungo tempo trascorso (com o patrocínio do presidente italiano), que documenta os massacres investigados.