Sophie Letourneur: o trabalho feito nas férias.
Sophie Letourneur: o trabalho feito nas férias.

L’Aventura. O cinema ainda é uma aventura

'L’Aventura', de Sophie Letourneur, segue os sobressaltos das férias de uma família francesa nas paisagens da Sardenha — o resultado é uma verdadeira aventura de reinvenção do espaço e do tempo.
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Como descrever um filme que nos envolve de forma surpreendente? Como dar conta de um filme que, ao envolver-nos, nos faz sentir factos e emoções que estão para lá das aparências? Como pensar um filme que, com discreta inteligência, nos leva a perguntar o que é isso de viver numa família “igual” a tantas outras? Realizado e interpretado pela francesa Sophie Letourneur (n. 1978), L’Aventura é um desses filmes — sem recearmos os rótulos tradicionais do mercado, diremos que estamos perante um belo filme de verão... e sobre o verão.

O rótulo confirma-se através do tradicional ponto de partida: esta é a viagem de férias do casal Sophie (Letourneur) e Jean-Fi (Philippe Katerine), com as suas duas crianças, Claudine (Bérénice Vernet) e Raoul (Esteban Melero). Que acontece, então? Pois bem, partem à procura dos êxtases turísticos prometidos pelas paisagens da Sardenha, cada um transportando as suas idiossincrasias, nem sempre fáceis de equilibrar com as diferenças da personagem do lado.

Claudine é uma menina de 11 anos que, para lá da sua percepção aguda das imperfeições dos adultos, usa obsessivamente o telemóvel para registar as conversas familiares, sobretudo durante as refeições, em que cada um evoca os prós e contras dos sobressaltos das férias. Raoul tem três anos e parece estar ligado a um sistema elétrico sem fios, além do mais transformando a agitação do seu aparelho intestinal em drama partilhado com quem quer que esteja nas imediações. Sophie vai tentando sobreviver ao stress de tudo isso, enquanto Jean-Fi, obviamente também afetado pela interminável agitação familiar, anseia por arranjar algum intervalo para recuperar o sono perdido...

Caricatura? Longe disso. Parábola? Também não, já que a visão de Letourneur é alheia aos moralismos “novelescos” com que algum cinema contemporâneo confunde a encenação da vida comum com uma obrigatória lição de bom comportamento “sociológico”. O motor narrativo desta desconcertante comédia está, precisamente, nas conversas do quarteto familiar que Claudine vai gravando no telemóvel — a própria realizadora gosta de dizer que há uma base “radiofónica” neste filme que se apresenta como o segundo título de uma trilogia (para já incompleta) iniciada com Voyages en Italie (2023).

Entre aquilo que cada um diz, por vezes corrigindo a evocação do parceiro do lado, e o modo como cada um avalia as memórias que vão partilhando, o espetador vai participando de duas formas de ambiguidade narrativa. Desde logo, porque aquelas memórias vão reconstruindo os lugares da Sardenha como um puzzle nunca finalizado de paisagens, não exteriores, mas do imaginário de cada um; depois, porque o tempo deixa de ser linear, já que, num misto de ironia e geometria, penetramos num ziguezague em que determinada evocação pode corresponder a uma cena que já vimos há alguns minutos (ou veremos mais tarde).

No seu realismo à flor da pele, L’Aventura nasce da espantosa agilidade de uma câmara de depurada intimidade (aliás, como Letourneur esclarece numa entrevista do dossier de imprensa, são duas câmaras). A montagem não linear consegue a proeza de baralhar a ordem dos acontecimentos sem que se perca a consistência de tudo o que nos é dado ver.

Se quisermos encontrar um paralelismo sugestivo (certamente discutível), talvez possamos dizer que a dinâmica do filme faz lembrar o misto de proximidade e distanciamento que sentimos face às imagens do fotógrafo britânico Martin Parr (1952-2025). Em qualquer caso, é inevitável recordar que o título nos remete para L’Avventura (neste caso, com dois “vv”), o filme que Michelangelo Antonioni realizou em 1960, ajudando a abrir o espaço imenso de uma modernidade apostada em reconverter os modos de aproximação e compreensão das suas personagens. Não será uma influência direta, muito menos uma caução — apenas a certeza de que todos os lugares exteriores são também paisagens interiores.

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